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Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Olá, leitor!

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um romance que faz parte da segunda fase do modernismo brasileiro – geração de 1930. Publicado em 1938, essa obra retrata a saga de uma família de retirantes nordestinos e as suas dificuldades de vida no sertão nordestino, narrando a história tão tipicamente brasileira da fuga das secas.

Este livro é considerado umas das mais importante obras da literatura brasileira, devido a sua temática e a tensão apresentada no romance, que aborda questões entre o homem e o mundo, bem como a dificuldade da vida em meio ao caos da nossa realidade.

Durante a narrativa, deparamo-nos com os mais variados ângulos do conjunto social a região do Nordeste onde as ações acontecem, sendo o próprio sertão um personagem responsável por essas ações da tragédia da vida humana, permeados por uma vida difícil e repleta de angústias.

Vidas Secas não é um livro que se constitui em uma única história – com exceção do primeiro e do último capítulo. Ou seja, os demais capítulos se constituem em um conglomerado de histórias sem uma sequência narrativa compostas de células diferentes, mas com os mesmos personagens, que compõe as temáticas principais do livro: a vida dura no sertão e a angústia dos retirantes.

Fabiano reconhece a extensão de suas dificuldades. O sertão seco, o patrão, o soldado e o agente da prefeitura. Tudo era contra ele. – O que sou não sei, seio o que não sou. Amor aqui está distante ou não existe. Diante da desgraça do homem sertanejo exilado do mundo social, alimentado por desejos e não sonho, ele deixa de ser. Não é possível sonhar onde a miséria não permite isso. Sinhá Vitória sonha pequeno. Sonha em ter uma cama com correias de couro.”

Estrutura da obra

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Vidas Secas, quarto romance do escritor brasileiro Graciliano Ramos, escrito entre os anos de 1937 e 1938, publicado pela editora José Olympio, em 1938, tendo ilustrações feira pelo artista plástico Aldemir Martins.

A obra divide-se em 13 capítulos, eles são:

  • Capítulo I – Mudança
  • Capítulo II – Fabiano
  • Capítulo III – Cadeia
  • Capítulo IV – Sinhá Vitória
  • Capítulo V – O Menino Mais Novo
  • Capítulo VI – O Menino Mais Velho
  • Capítulo VII – Inverno
  • Capítulo VIII – Festa
  • Capítulo IX – Baleia
  • Capítulo X – Contas
  • Capítulo XI – Soldado Amarelo
  • Capítulo XII – Mundo coberto de penas
  • Capítulo XIII – Fuga

Resumo da obra

No primeiro capítulo, deparamo-nos com a narrativa das dificuldades da vida dura de uma família sertaneja de retirantes a cruzar o árido e seco sertão. Em meio à caatinga, Fabiano e sua família partem da fazenda em que trabalham por causa da seca em busca por uma nova vida e uma melhor condição de existência. Assim, começamos o livro a entender que a vida das personagens da obra está presa sempre a esse ciclo sem fim, fugindo da miséria para encontrar lugares onde possam viver dignamente, pois assim que a família se instala, as coisas ficam ruim depois de certo tempo e eles são obrigados a se retirarem novamente para outro lugar.

Aos poucos, vamos conhecendo mais acerca dos personagens através das histórias presentes nos capítulos, Fabiano, por exemplo, apresenta-se através de um típico sertanejo sem instruções, ou seja, educação, tratado sempre com brutalidade pelo patrão e pelas pessoas, como se fosse um animal, e que vive em condições miseráveis com a sua família, sendo obrigado a mudar-se constantemente para fugir da seca.

Sinhá Vitoria, esposa do Fabiano, por sua vez, é uma personagem caracterizada pela fé e pela esperança de dar uma vida melhor para seus filhos, pois não suportava a miséria em que viviam e trabalhava arduamente para auxiliar Fabiano em casa. Contudo, era uma mulher esperta que sabia fazer contas e era um pouco letrada, sem responsável por livrar o marido de ser trapaceado diversas vezes devido ao pouco de instrução que possuía. Sinhá Vitória possui um sonho simples, além de dar melhores condições para os filhos, que era te ruma cama de fita de couro para dormir.

Os filhos, por sua vez, não possuíam nomes, sendo caracterizados pelo mais novo e mais velho. O mais novo era um ingênuo que via no pai uma figura exemplar, querendo ser como ele quando crescer. O mais velho, queria aprender sobre as coisas, queria estudar conhecer as palavras, sendo uma das passagens mais marcantes dele na obra, quando ouve a palavra inferno e insiste em perguntar aos pais o que essa palavra significava, tendo como respostas coisas vagas e um cascudo na cabeça. Devido a esse desejo e a curiosidade, acaba se tornando um garoto mais introspectivo que encontra consolo na cadela de estimação da família, a Baleia.

A família encontra uma fazenda abandonada e acabam se instalando por lá, contudo, depois de um tempo, os donos da fazenda aparecem e acabam por contrata Fabiano e a família como empregados. Fabiano mais uma acaba sendo tratado mal pelos patrões e percebe que sua vida está presa a essas angústias. Certo dia, devido uma aposta, acaba sendo preso devido ao Soldado Amarelo, que por vingança de ter perdido no jogo para Fabiano, faz com que o prenda. Nessa passagem Fabiano fica preocupado com a família e até mesmo chega a pensar em como ela é um fardo em sua vida.

Depois de solto, Fabiano volta para a fazenda e segue sua vida normalmente, contudo, o seu patrão passa a tratá-lo mais mal ainda, inclusive ameaçando constantemente a expulsar Fabiano e sua família da fazenda.

Os dias vão se passando, alguns períodos de chuva chegam e dão um pouco de esperança à família. Com a chegada do Natal, a família vai á festa da cidade e Fabiano acaba ficando bêbado e se metendo e quase arrumando confusão com o Soldado Amarelo novamente. Contudo decide ir embora e acaba encontrado o soldado perdido no mato e, mesmo que o primeiro impulso dissesse para ele matá-lo, Fabiano o ajuda a encontrar o caminho de volta para a cidade.

Numas das passagens mais marcantes do livro, com a passagem dos dias e a chegada de uma nova seca, Fabiano percebe que a cadela Baleia encontra-se muito debilitada, portanto, decide sacrificar a cachorra para amenizar o sofrimento do animal.

Sinhá Vitória recolhe os filhos que protestavam e Fabiano acaba atirando contra Baleia, acertando-a nas patas traseiras e fazendo-a cair Baleia neste momento até pensa e morder o dono quando ele se aproxima para acabar com o seu sofrimento, contudo, acaba não fazendo mesmo sentindo raiva dele, porque via Fabiano como seu dono e seu companheiro. Assim, a cadela acaba por alucinar e ver um paraíso de cachorros, onde existia muitos preás a correrem pelo sertão e que ela podia caçá-los e comê-los à vontade; assim, Baleia acaba morrendo.

Assim a seca vai se aproximando até Fabiano e sua família decidir mais uma vez se mudar por causa da miséria da seca. Entretanto, desta vez, decidem-se por seguir rumo ao sul, atrás de novas oportunidades e vidas melhores na cidade grande.

” Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. (…) Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado. Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito. (…) A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se esponjariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.” 

Contexto histórico

Vidas Secas possui um contexto histórico muito importante, pois retrata um período da década de 1930, onde o nordeste brasileiro sofreu uma grande seca e muitos sertanejos sofreram com isso. Como também, devido a turbulência política no Brasil naquela época, devido a influência da grande depressão norte-americana na economia mundial, além da instalação do Estado Novo e o regime autoritário de Getúlio Vargas. A ideologia marxista do autor também pode ser encontrada em diversos aspectos em Vidas Secas.

Relevância da obra

Essa obra faz parte da segunda geração do modernismo brasileiro, consolidada após a Semana de Arte Moderna de 1922, onde se visava buscar uma produção artística mais regionalistas, com uma identidade de caráter mais nacionalista.

Para Ramos, o sertão consolidou-se como matéria-prima para sua obra, fazendo com que sua escrita ficasse repleta de regionalismo e os temas sociais dos sertanejos estivessem presentes em sua obra.

A liberdade da informalidade, bem como o uso de linguagem regional, também ajuda a caracterizar o modernismo deste livro, pois busca-se uma experimentação linguística na composição das obras literárias.

Outros dois pontos interessantes são que a obra se constitui num romance que pode ser considerado um livro de contos, devido a variação narrativa presente no livro, além disso, o aprofundamento psicológico utilizado pelo autor nas personagens as faz se tornarem complexas e verdadeiras.

Narrador, foco narrativo e linguagem

Nesta obra a narrativa acontece em terceira pessoa (heterodiegético), através de um narrador onisciente, que por muitas vezes passa a se pronunciar através de discursos livres indireto.

O própria narrador nos revela o interior psicológico das personagens, mostrando-nos aos seus maiores medos, desejos e fraquezas, tendo como foco narrativo a construção de pensamentos dos personagens em imagens através das palavras.

A linguagem, por sua vez, é caracterizada através de regionalismo e a oralidade do contexto social e geográfico dos personagens do livro.

Tempo e espaço

O tempo da obra apresenta-se num período de duas secas, que podemos dizer que se trata de um período de dois anos mais ou menos. Contudo, mesmo em que alguns momentos possuam referencias temporais e cronológicas, o tempo da narrativa se dá de forma cíclica e psicológica.

O espaço é o sertão nordestino, um ambiente físico de extrema secura, que fornece poucas condições de sobrevivência aos sertanejos, sendo o espaço traduzido em muitas questões ao decorrer da obra, desde a concisão da linguagem que casa com a secura do sertão, até mesmo com o pouco conhecimento, palavras e fala dos personagens sofridos, onde apenas ganham voz ao relevar dos seus pensamentos através do narrador.

Principais personagens

Os principais personagens de Vidas Secas, são:

Fabiano

O pai da família, sertanejo sofrido, mas homem bruto em sua essência, seco assim coo o sertão, sendo comparado com um bicho diversas vezes. Pouco comunicativo, releva-se apenas através das observações no narrador – assim como a maioria dos personagens da obra. Protagonista da história, nordestino pobre que bisca condições melhores de vida com a família, mas que mal sabe se comunicar e, devido a sua ignorância e sua atitude selvagem, se dá melhor lidando com os bichos.

Sinhá Vitória

Esposa de Fabiano e mãe dos meninos, que apenas deseja uma vida melhor para os seus filhos e uma cama de armação de couro para dormir. Apesar de possuir um pouco mais de instrução do que o comum para sertanejos pobre, é uma mulher que fala pouco também, mesmo podendo se expressar de uma forma mais clara. Representa a mulher nordestina trabalhadora e esperançosa, sempre a sonhar com uma vida melhor.

Os filhos

Ambos os filhos representam as crianças sertanejas pobres e sofridas que vivem na miséria das secas. O filho mais novo vê com admiração o pai, querendo ser igual a ele, um homem trabalhador a cuidar dos bichos. O filho mais velho, por usa vez, de natureza mais curiosa e com vontade de aprender, vê-se mais próximo à mãe devido ao tratamento áspero do pai.

Baleia

A personagem mais humana e comunicativa da narrativa, mesmo sendo um animal e não podendo falar. Baleia é a cachorra da família e, propositalmente, é a personagem que mais se assemelha a ser humano em toda sua complexidade, pois sente as emoções que deveriam se sentidas também pelos outros personagens humanos da narrativa.

Soldado Amarelo

Uma espécie de antagonista da história, representante do autoritarismo da ditadura Vargas e símbolo de repressão, tendo uma índole corrupta e oportunista, sendo um covarde disfarçado de homem valente.

Breve análise da temática da obra

Vidas Secas é uma obra que retrata a pobreza e as duras condições de vida dos sertanejos perante à seca, colocando em questão a vida miserável dos sertanejos pobres, jogados à própria sorte para subsistirem.

Um povo sempre a procura de melhores condições de vida que vivem coo retirantes, procurando por uma oportunidade de vida melhor e uma ascensão social e econômica, mas que estão presos a esse ciclo devido a inexistência de possibilidades de uma melhora de vida.

A temática da exploração e falta de auxilio social de quaisquer setores – seja da igreja, dos governos, da justiça e da sociedade em si – e que acabam sendo obrigados a viverem nessa angústia e miséria do sertão.

“Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinhá Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinhá Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.”

Até logo!

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