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Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues

A peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, foi encenada pela primeira vez em 1943 e mostra ações simultâneas em três planos: realidade, alucinação e memória. A obra gerou mudanças no teatro brasileiro e se enquadra na escola do modernismo literário, em alta em meados do século XX.

“ALAÍDE (num desapontamento infantil) – Fugiu de mim! (no meio da cena, dirigindo-se a todas, meio agressiva) Eu não quero nada demais. Só saber se Madame Clessi está!

(A 3ª mulher deixa de dançar e vai mudar o disco da vitrola. Faz toda a mímica de quem escolhe um disco, que ninguém vê, coloca-o na vitrola também invisível. Um samba coincidindo com este último movimento. A 2ª mulher aproxima-se, lenta, de Alaíde.)

1ª MULHER (misteriosa) – Madame Clessi?

ALAÍDE (numa alegria evidente) – Oh! Graças a Deus! Madame Clessi, sim.

2ª MULHER (voz máscula) – Uma que morreu?

ALAÍDE (espantada, olhando para todas) – Morreu?

2ª MULHER (para as outras) – Não morreu?

1ª MULHER (a que joga “paciência”) – Morreu. Assassinada.

3ª MULHER (com voz lenta e velada) – Madame Clessi morreu! (brusca e violenta) Agora, saia!

ALAÍDE (recuando) – É mentira. Madame Clessi não morreu. (olhando para as mulheres) Que é que estão me olhando? (noutro tom) Não adianta, porque eu não acredito!…

2ª MULHER – Morreu, sim. Foi enterrada de branco. Eu vi.

ALAÍDE – Mas ela não podia ser enterrada de branco! Não pode ser.

1ª MULHER – Estava bonita. Parecia uma noiva.

ALAÍDE (excitada) – Noiva? (com exaltação) Noiva – ela? (tem um riso entrecortado, histérico) Madame

Clessi, noiva! (o riso, em crescendo, transforma-se em soluço) Parem com essa música! Que coisa!

(Música cortada. Ilumina-se o plano da realidade. Quatro telefones, em cena, falando ao mesmo tempo. Excitação.)”

Resumo da peça

Vestido de Noiva

Fonte: Reprodução

A obra pode ser resumida da seguinte forma, de acordo com seus três atos:

Primeiro Ato

No primeiro ato a peça incia-se, primeiramente, através de sons de cidade grande, buzinas de carros, sons do transito e, de repente, o som de uma freada com derrapagem violenta e, em seguida, som de batidas com vidros se estilhaçando. Depois disso,  o silêncio toma o palco. Através desse clima é que se é apresentado o começo da peça, simulando o atropelamento de Alaíde por meio de efeitos sonoros.

Cria-se então essa cena do atropelamento no imaginário das pessoas, quando a iluminação do palco se acende, surge o plano da alucinação, onde Alaíde aparece intacta a chamar ela Madame Clessi. Nesse instante, ela se depara com diversos personagens desconhecidos e sempre vai perguntando sobre Clessi, mas todos eles não sabem dar informações sobre essa mulher para Alaíde. Contudo, ao se deparar mais adiante com algumas personagens que sabem quem é Madame Clessi, é que Alaíde então fica sabendo de seu assassinato, o que faz com que a personagem entre em desespero como se tivesse perdido alguém importante de sua convivência. A iluminação se apaga e muda-se para outra cena da peça.

Depois do plano de alucinação, volta-se ao plano da realidade, então, nesta cena, o público depara-se com várias pessoas a falarem ao telefone ao mesmo tempo, o que faz com que não se possa entender nada do que estão falando. Contudo, a medida que os sons vão se tornando mais claros, percebe-se que se trata de pessoas a falarem sobre o acidente. Em seguida, escuta-se notícias e reportagens sobre o acontecimento: o atropelamento de uma mulher vestida de noiva na cidade do Rio de Janeiro.

Depois dessa cena, volta-se ao plano da alucinação, então encontramos Alaíde num bordel a esperar por um homem, quando esse homem se aproxima, Alaíde percebe que o homem em questão é o seu marido. Alaíde então adota atitudes extremas, primeiro o acaricia e depois o esbofeteia por ele estar em um bordel. Em seguida outro homem a visita, depois que o primeiro vai embora, assim, Alaíde percebe que todos os homens que aparecem ali, que a visitam, tratam-se do seu marido, ou pelo menos possuem o rosto de Pedro. Depois do susto, ela saí dali e contra-se com Madame Clessi, que a ajuda a se relembrar de momentos do seu passado, mas exatamente da sua infância.

Assim, incia-se outra cena, desta vez do plano da memória, onde encontramos uma lembrança de Alaíde de uma conversa entre os seus pais a respeito da própria madame Clessi. Eles falavam a respeito de Madame Clessi, que era a antiga moradora da residência, mas nada assim de tão importante, eles apenas falam da vida que ela levava e da ocasião da sua morte.

Em seguida, uma nova cena, no plano da realidade, onde nos deparamos com as falas dos médicos a atenderem Alaíde, eles falam sobre o estado grave de saúde da paciente devido ao atropelamento, ela está numa mesa de cirurgia e é aí que recebemos as primeiras informações sobre o estado de saúde da personagem principal. Nas próximas cenas, intercalam-se diálogos entre Clessi e Alaíde em dois planos, alucinação e memória, ambas falam coisas sobre o passado e também sobre sonhos e devaneios da alucinação de Alaíde.

De repente, na próxima cena, surge então na história uma mulher misteriosa de véu, até então, com a identidade desconhecida por Alaíde, mas na verdade ela sabe quem é, apenas não quer dizer de fato quem é ou não quer descobrir de fato de quem se trata. Sendo assim, Clessi retorna à história e pede para que Alaíde se lembre do seu casamento, então voltamos ao plano da memória e se lembra de diversos fatos do se casamento, até mesmo de um episódio com a sua sogra, que elogia o seu vestido de noiva na ocasião, dizendo que se tratava de um modelo muito bonito. Nesse mesmo momento de lembrança, Alaíde recorda que nesse episódio havia mais alguém acompanhando-as, contudo, não consegue se lembrar quem era essa terceira pessoa. para que se recorde do dia de seu casamento.

Segundo Ato

O segundo ato se incia com diálogos de Madame Clessi e Alaíde ao telefone, as duas mulheres conversam e trocam confidencias. Em seguida, retorna o plano da memória e Alaíde se lembra de ter discutido muito feio com a mulher de véu, isso a faz perceber que essa mulher trata-se de alguém do seu passado, mas Alaíde ainda não consegue definir de quem se trata essa mulher de véu. Contudo, uma coisa ela tinha certeza, a mulher misteriosa tentou estragar seu casamento e ao decorrer da cena surge uma grande revelação: a mulher de véu tentou estragar o casamento de Alaíde porque foi ex-namorada e chegou até a ser noiva de Pedro, seu marido.

Mais uma vez no plano da realidade, recebemos notícias do estado de saúde de Alaíde, pois é possível escutar que os médicos estão lutando para salvar a vida mulher que se encontra em estado crítico, correndo risco de morte. Assim, a cena passa para o estado de alucinação e nos deparamos com dois homens que entram em cena segurando velas em suas mãos, de repente, surge um caixão em meio a cena e ambos os homens se ajoelham perante a ele. Nesse instante, começa a se passar duas cenas paralelas durante a peça, ou seja, duas coisas acontecendo ao mesmo tempo, uma no plano da memória e outra no plano da alucinação: na memória, Alaíde confronta a mulher de véu que fala sobre seu plano de vingança, jurando destruir o casamento dos dois; na alucinação, Alaíde sonha com Madame Clessi a conversar com seu namorado, ambos estão muito felizes juntos, porém, desgostosos com a vida e acabam por planejar um suicídio conjunto, ou seja, planejavam se matarem juntos por amor.

Depois dessa cena dupla, entrecortada, a história volta-se apenas ao plano da alucinação, onde Alaíde observa uma cena de uma mulher que se senta junto com mais dois homens e eles passam a conversar, flertando cinicamente uns com os outros, de repente surge a mulher de véu que passa a discutir intensamente com Alaíde acerca do seu casamento e do fato de Alaíde ter roubado o noivo dela.

Depois disso, Alaíde junta-se a Madame Clessi mais uma vez no plano da alucinação e conta sobre o sonho que teve, que na verdade era a alucinação dos dois homens ajoelhados diante a um caixão, e também conta que aquela cena era o seu velório, que ela estava prestes a morrer. Nesse mesmo instante Alaíde mostrando-se mais iluminada e entendedora da sua própria história e situação em que se encontrava, revela a Madame Clessi que a mulher de véu é sua irmã, chamada Lúcia.

Em seguida, após esse longo plano de alucinação, a narrativa volta-se à realidade, onde encontramos Pedro, o marido de Alaíde, a conversar com os médicos sobre o estado de saúde da esposa. Os médicos então revelam a Pedro que Alaíde corre grande risco de morte, pois seu estado é muito grave, contudo, o esposo da personagem não se mostra nenhum pouco preocupado, triste ou abalado, pelo contrário, mostra-se indiferente e sem nenhuma reação emocional.

Terceiro Ato

No terceiro e último ato, a primeira cena mostra-se no plano da alucinação, onde podemos observar outro diálogo entre Madame Clessi e seu namorado pelo telefone, mais uma vez reafirmando o compromisso de se matarem e morrerem juntos em nome do amor dos dois.

Ainda no plano da alucinação, Lúcia e Alaíde tornam a se encontrar e assim incia-se outra discussão entre as duas irmãs, falando sobre toda a história das duas, mostrando a versão dos dois lados e o amor que ambas sentiam pelo mesmo homem, mesmo este em questão não prestando de fato. No meio da discussão das irmãs, surgem mais personagens, Dona Lígia e Pedro, que acabam por interferir na discussão das irmãs e fazem com que o plano da alucinação mude para Madame Clessi mais uma vez, que entrega dinheiro ao sei jovem namorado para que ele compre alguma coisa, contudo, antes do rapaz sair, eis que surge a mãe do garoto que acaba por discutir com madame Clessi, ofendendo-a de diversas formas, porém, Clessi a expulsa da sua casa e o plano da alucinação se encerra.

A cena volta para o plano da realidade, nele, encontramos repórteres a noticiarem o terrível acidente que aconteceu com a esposa de uma das figuras mais importantes da industria carioca, o Sr. Pedro Moreira.

Nesse instante, a narrativa passa a mesclar o plano da alucinação com a realidade, assim, nos deparamos com uma alucinação de Alaíde onde ela faz a sua própria versão do assassinato da Madame Clessi, através do que ela leu no livro e deduziu sobre a prostituta de luxo. De repente, seu marido Pedro aparece e a fantasma Clessi desaparece, assim, o casa passa a conversar, sendo que em determinado ponto Alaíde acusa o marido de não amá-la de verdade e a afirmar que sabe de tudo sobre ele  Lúcia, bem como as intenções que ambas tinham de matá-la, que todo aquele atropelamento dora criminoso num plano da irmã e do marido para matá-la. Nesse instante, a irmã Lúcia aparece vestindo luto em cena, aproxima-se da irmã, mas antes que pudesse surgir outra discussão, a cena é interrompida pelo plano da realidade, onde nos deparamos com os médicos em suas últimas tentativas de fazer com que Alaíde sobreviva, eles estão tentando reanimar a personagem.

Assim, Madame Clessi e Alaíde aparacem de costas para a plateia, nisso, surgem apenas os sons das notícias vindo do campo da realidade acerca da morte de Alaíde. As notícias acabaram dizendo que a irmão da vítima,  Lúcia, chora muito e encontrasse desolado pela morte trágica da irmã. Tudo fica escuro e todos somem, volta-se ao outra cena no plano da realidade.

Pedro, logo após a morte da esposa, aproximava-se de Lúcia e tenta se aproximar da cunhada, contudo, Lúcia repele o marido da sua irmã falecida, afirmando que se arrependeu muito sobre o que fizeram com a irmã, devido a traição e todas as coisas ruins que ambos fizeram para ela, chegando a acusá-lo de fazer com que ela desejasse a morte da irã através de manipulação e falsas juras de amor.

Depois dessa cena, a narrativa passa a trazer alguns flashbacks e algumas pequenas cenas sem muito sentido, então, surge ao palco Lúcia vestida de noiva, preparando-se para se casar com Pedro (essa parte não se sabe se é verdade, ou seja, um salto temporal no tempo para mostrar o futuro, ou apenas um última alucinação de Alaíde no pós-mortem). Assim, repete-se a frase que Alaíde disse no dia do seu casamento, naquele momento em que ela recorda que a sogra a elogiou, sendo assim, dessa vez, é Lúcia quem pergunta a sogra se está bonita e ela afirma que ela está lindíssima, que o seu vestido é maravilhoso, de repente, surge então Alaíde vestida como uma dama de honra com o buquê em mãos para entregar a irmão Lúcia, assim, acaba a peça, tudo se apaga com exceção de uma  luz de fundo que fica focada numa lápide, no túmulo de Alaíde.

“1° FULANO (berrando) – Diário!

2° FULANO (berrando) – Me chama o Osvaldo?

1° FULANO – Sou eu.

2° FULANO – É Pimenta. Toma nota.

1° FULANO – Manda.

2° FULANO – Alaíde Moreira, branca, casada, 25 anos. Residência, Rua Copacabana. Olha…

1° FULANO – Que é?

2° FULANO – Essa zinha é importante. Gente rica. Mulher daquele camarada, um que é industrial, Pedro Moreira.

1° FULANO – Sei, me lembro. Continua.

2° FULANO – Afundamento dos ossos da face. Fratura exposta do braço direito. Escoriações generalizadas. Estado gravíssimo.

1° FULANO – …generalizadas. Estado gravíssimo.

2° FULANO – O chofer fugiu. Não tomaram o número. Ainda está na mesa de operação.

(Trevas. Luz no plano da alucinação. Estão Alaíde e Clessi imóveis. Rumor de derrapagem. Grito de mulher. Ambulância.)”

Estrutura da obra

A narrativa é dividida em três planos, como citado anteriormente, sendo eles: o da alucinação, que se refere a viagem da personagem principal atropelada, ou seja, os devaneios de sua mente; o da memória, que é quando os fatos da história vão sendo revelados através da própria memória da personagem atropelada; e o da realidade, onde estão acontecendo as ações de resgate e tentativa de salvamento da personagem principal.

Por isso, a história é contada de duas formas diferentes, uma com os fatos reais do estado de saúde de Alaíde e outra, que se passa na dimensão psicológica, que inclui alucinação e memória. Contudo, o plano real, que mostra a degradação da saúde de Alaíde, conduz os outros planos, já que eles estão presos à personagem enquanto ela ainda tem vida, ou seja, quando ela morre, o plano da alucinação e da memória morem junto com ela, pois ambos são partes da mente da personagem.

Principais personagens da obra

As principais personagens de Vestido de Noiva são:

Alaíde

Alaíde é a protagonista da peça, ou seja, a personagem principal que é atropelada com o vestido de noiva e passa a conduzir a narrativa através da sua alucinação, memória e tentativa de salvamento de sua vida. Ela é casa com o Pedro, descrito como um homem sério e importante, ou seja, com um bom emprego e considerado um ótimo partido. Contudo, Alaíde acaba por ser atropelada logo no começo da história, o que nos deixa sem conhecer a personagem de forma aprofundada, pois vemos mais dela nos planos da alucinação e da memória, que podem não ser fiéis à verdadeira personalidade da personagem. Existe também um mistério na própria situação em que Alaíde se encontra, pois, através da narrativa, nada fica muito claro acerca do seu atropelamento, às vezes dá a entender de que foi um acidente, outras, que foi um suicídio e, também, em certo momento chega a parecer que foi um assassinato.

Lúcia (mulher de véu)

A personagem Lúcia surge inicialmente como uma figura misteriosa de uma mulher de véu, contudo, ao decorrer da narrativa, mostra-se como a irmã da atropelada, Alaíde. Sendo assim, Lúcia é caracterizada por uma personagem enigmática e dúbia, pois possui um relacionamento com o cunhado, marido de sua irmão Alaíde que, por sua vez, no passado fora namorado de Lúcia antes de se casar com Alaíde. Por esse motivo, Lúcia nutria uma inimizade pela irmã e sempre a acusava por tê-la roubado o marido. Isso faz com que em certo ponto da narrativa, Alaíde acuse sua irmã de ter tramado sua morte através do atropelamento.

 Pedro

Pedro é um personagem que se encaixa nos modelos padrões da sociedade carioca, um homem de boa família, estabelecido profissionalmente, com certa influência e importância na sociedade e que precisava encontrar uma esposa. Apesar de ter namorado Lúcia, irmã de Alaíde, quando era mais novo, trocou Lúcia por Alaíde e acabou se casando com ela, devido as tradições e imposições da sociedade, porque Alaíde se enquadrava melhor no papel de uma esposa devota de um homem de negócios. Contudo, mesmo após casado com Alaíde, o homem de negócios bem-sucedido, dono de uma ótima imagem e fama no meio industrial, continua a desejar Lúcia, irmã de Alaíde, o que acaba culminando num relacionamento extraconjugal com a cunhada. Ele representa a imoralidade e o cinismo da elite carioca da época.

Madame Clessi

Madame Clessi é uma personagem que faz parte da alucinação de Alaíde, pois trata-se de uma prostituta de luxo que havia sido assassinada por um jovem amante em 1905. Sendo assim, a personagem existiu, mas a sua reprodução na narrativa é feita através das alucinações e da mente da Alaíde atropelada e inconsciente. Tudo o que Alaíde sabe sobre Madame Clessi ela lera num diário da prostituta que encontrou na casa onde morava, pois, a casa onde os pais de Alaíde e Lúcia moravam pertencera a Clessi e era onde ela exercia sua profissão. Portanto, a personagem se refere a uma projeção da mente de Alaíde, que cria uma imagem de Madame Clessi através da sua leitura da personagem que conhecera através dos seus relatos pessoais no diário.

Relevância da Obra

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, marcou o teatro brasileiro, levando ao extremo as características da literatura modernista e inovando ao criticar as hipocrisias da sociedade carioca do século XX e explorar diversos planos narrativos, sendo três ao total (alucinação, memória e real), como citado anteriormente.

O plano da realidade é apenas uma parcela do texto, que permite que, durante seus últimos momentos de vida, a personagem principal faça uma viagem interior, passando tanto pela memória quanto pela ilusão, viajando em seus próprios pensamentos. Portanto, o plano da realidade é o principal elemento da narrativa, pois é através dele que os acontecimentos do outros dois planos é possível, como também, é por isso que quando a personagem principal morre, a narrativa da peça morre também. Sendo assim, pode-se supor que mesmo a personagem sendo atropelada e estando inconsciente, é ela quem dita o ritmo e o enredo da narrativa, ou seja, tudo acontece através do ponto de vista inconsciente de Alaíde.

Vestido de Noiva e Nelson Rodrigues merecem destaque por renovar o teatro brasileiro e mostrar que dramaturgia e literatura servem como uma ferramenta de propagação do pensamento crítico ao falar sobre as mazelas da sociedade. Devido a todos esses fatores, é que essa obra se torna uma das mais importantes peças do teatro, como também, como um dos mais importantes e revolucionários textos dramatúrgicos da literatura brasileira.

“LÚCIA – Ah! Vocês estão aí?

ALAÍDE (triunfante) – Pronto! Chegou a cúmplice! Vocês estão tão certos da minha morte que até já botaram luto!

LÚCIA (inocente) – O que é que há?

PEDRO (apontando para a testa) – É Alaíde que não está regulando bem!

ALAÍDE (fremente, para Lúcia) – Venha repetir para meu marido aquilo que você disse, “aquilo”! No dia do meu casamento!

LÚCIA – Sei lá de que é que você está falando!

CLESSI (microfone) – Irmã assim é melhor não ter!

ALAÍDE – Sabe, sim. Sabe! Aquela insinuação que você fez… Que eu podia morrer!

LÚCIA (virando-lhe as costas) – Você está sonhando, minha filha. Disse coisa nenhuma!

ALAÍDE – Covarde! Agora está com medo! Mas disse – disse a mim!

PEDRO – Mas se ela nega, Alaíde!

LÚCIA (noutra atitude) – Pois disse! Pronto! Disse! E agora?

ALAÍDE (patética) – Então me mate! Por que não me matam? Estamos sozinhos! Depois vocês escondem o meu corpo debaixo de qualquer coisa! (e, à medida que ela fala, os três se aproximam, juntam as cabeças)

(As cabeças baixam, seguindo o ritmo das palavras.)

PEDRO (sinistro) – Agora, não! Tem tempo!

(Quando ele acaba, tem-se a impressão plástica de um buquê de cabeças. Trevas. Luz no plano da realidade: rumor de ferros cirúrgicos.)

1° MÉDICO – Pulso?

2° MÉDICO – Incontável… Não reage mais!

1° MÉDICO – Colapso!

3° MÉDICO – Pronto!

(Um dos médicos está cobrindo o rosto de uma mulher. Saem os médicos lentamente, um deles tirando a máscara. Marcha Fúnebre. Trevas. Luz no plano da alucinação. Alaíde e Clessi de costas para a platéia.

Alaíde com um buquê, no qual está dissimulado o microfone. Luz no plano da realidade: botequim e redação.)

PIMENTA (berrando) – Morreu a fulana.

REPÓRTER (berrando e tomando nota) – Qual?

PIMENTA – A atropelada da Glória.

REPÓRTER – Que mais?

PIMENTA – Chegou aqui em estado de choque. Morreu sem recobrar os sentidos; não sofreu nada.

REPÓRTER – Isso é o que você não sabe!

PIMENTA – A irmã chora tanto!

REPÓRTER – Irmã é natural!

PIMENTA – Um chuchu!

REPÓRTER – Quem?

PIMENTA – A irmã.

(Trevas. Luz no plano da realidade: Lúcia e Pedro. Lúcia chorando. Coroas. Luz também no plano irreal.)

ALAÍDE – Quem terá morrido ali, naquela casa?

CLESSI – Olha! Uma fortuna em flores!

ALAÍDE – Enterro de gente rica é assim.

CLESSI – O meu também teve muita gente, não teve?

ALAÍDE – Pelo menos, o jornal disse.

(No plano da realidade.)

PEDRO (em voz baixa) – Lúcia!

LÚCIA (tomando um choque, levantando-se) – Que é? Que horas são?

PEDRO – 3 horas.

LÚCIA – Fique longe de mim! Não se aproxime!

PEDRO – Mas que é isso?

LÚCIA (com ódio concentrado) – Nunca mais! Nunca mais quero nada com você! Juro!

PEDRO – Você enlouqueceu? O que é que eu fiz?

LÚCIA (obstinada) – Jurei diante do corpo de Alaíde!

PEDRO (chocado) – Você fez isso?

LÚCIA (com decisão) – Fiz. Fiz, sim. Quer que eu vá na sala e jure outra vez? (mergulha a cabeça entre as mãos) Ontem, antes dela sair para morrer, tivemos uma discussão horrível!

PEDRO (baixo) – Ela sabia?

LÚCIA (patética) – Sabia. Adivinhou o nosso pensamento. E eu disse.

PEDRO – Mas comigo nunca tocou no assunto.

LÚCIA – Discutimos quantas vezes! Ameacei-a de escândalo. Mas ontem, foi horrível – horrível! Sabe o que ela me disse? “Nem que eu morra, deixarei você em paz!

(Lúcia fala com a cabeça entre as mãos. Alaíde responde através do microfone escondido no buquê. Luz cai em penumbra, durante todo o diálogo evocativo.)”

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