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Senhora, de José de Alencar

Olá, leitor!

O romance Senhora, de José de Alencar, pertence ao romantismo brasileiro, tendo sido publicado pela primeira vez em 1875. O livro é dividido em quatro partes, sendo elas: O preço, A quitação, A posse e O resgate.

O romance tem como tema principal o casamento por interesse, usando a simbologia que define uma transação comercial em forma metafórica, ou seja, pelo casamento por interesses materiais. Por isso os capítulos possuem esses títulos em relação a transações comerciais.

O livro “Senhora”, trata de forma crítica a união matrimonial pelos interesses patrimoniais ou financeiros. O casamento é descrito claramente ao decorrer da história como uma transação comercial.

Essa característica comercial fica claramente explícita nos quatro títulos que compõem a obra: O preço, quitação, posse e o resgate.

Além disso, apesar de ser uma certa originalidade na mescla do tempo da narrativa, sendo que a obra não segue uma ordem cronológica, como também, da questão do casamento por interesse, a obra ainda assim se caracteriza no romantismo, mesmo que esses elementos estejam muito presentes no realismo brasileiro.

José de Alencar não destoa do romantismo em voga. Tem uma visão de mundo baseada na emoção. O mundo urbano com seus problemas econômicos e políticos o aborrecem, portanto, foge para o passado, lugares selvagens.

Suas obras em geral procuram retratar um Brasil e seus personagens mais ideias do que reais, mais próximo do que ele gostaria que fossem, seriam românticos e moralistas do que realistas.

Senhora é um romance que tem características definidas de forma romântica. Porém, traz uma temática realista que é a crítica ao casamento burguês.

“Era a hora do almoço. As duas senhoras puseram-se à mesa. Aurélia distinguia-se pela sobriedade, que era nela a consequência de temperamento e educação. Não quer isto dizer que fosse dessa espécie de moças papilionáceas que se alimentam do pólen das flores, e para quem o comer é um ato desgracioso e prosaico.

Bem ao contrário, ela sabia que a nutrição dá a seiva de beleza, sem a qual as cores desmaiam nas faces e os sorrisos nos lábios, como as efêmeras e pálidas florações de uma roseira hética.

Assim não tinha vergonha de comer; e sem vaidade acreditava que o esmalte de seus dentes não era menos gracioso quando eles se triscavam como a crepitação de um colar de pérolas; nem o matiz de seus lábios menos saboroso quando chupavam uma fruta, ou se entreabriam para receber o alimento.

Nessa ocasião, a moça fez exceção a seus hábitos de sobriedade; ela que não gostava de especiarias, e só de longe em longe bebia algumas gotas de licor, quis experimentar quanto molho e condimento picante havia em casa; e para remate bebeu um cálice de Xerez.

Firmina sem esquecer o almoço, continuava a observar de parte a menina, cada vez mais convencida da existência de um acontecimento importante que havia alterado a calma habitual da moça.

Esse acontecimento, na opinião da viúva, não podia ser outro senão aquele que tamanha influência exerce nas meninas de dezoito anos, sobretudo se não dependem de ninguém para dispor de si.”

Resumo da obra por capítulos

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O preço

Na primeira parte do romance, a personagem principal, Aurélia, que é uma jovem rica e frequentadora da corte é muito disputada entre os jovens da alta sociedade, por conta de seus dotes físicos e principalmente financeiros.

Dentro do enredo da história que dão ao romance um caráter muito atual de comportamento que até hoje em muitas ocasiões são questionáveis. Sua parenta dona Firmina sempre lhe fez acreditar que todos os jovens se aproximavam dela por sua beleza e fortuna.

Aurélia começou a questionar sobre seus costumes, educação e destino. Por isso, escreveu uma carta ao senhor Lemos dando a ele a missão de arrumar o seu casamento com o então, atual noivo de Adelaide Amaral, o jovem Fernando Seixas.

Assim, Aurélia envia a carta ao seu tio para que ele faça a negociação de seu casamento com Fernando Seixas, que era um rapaz de origem simples, mas que mantinha hábitos de gente rica.

Ofereceu a ele um dote para que ele se case com Aurélia em vez de se casar com Adelaide. Mas, havia uma condição, ele não saberia a identidade da noiva até aceitar o acordo. Mesmo relutante, Seixas aceitou o tal acordo.

Seixas como já foi brevemente descrito, não desfrutava de uma situação financeira muito favorável, então, pretendia casar-se com uma moça da rica para que pudesse oferecer melhores condições de vida a suas irmãs e a sua mãe, mas também conseguisse manter seus luxos.

Contudo, após Lemos fazer a proposta de casamento a Fernando Seixas, que mesmo sem conhecer a possível noiva, recebe um adiantamento do alto dote e, então, abandona a outra noiva e aceita o compromisso com Aurélia.

Quitação

Nessa segunda parte por meio de lembranças, revela-se o passado de Aurélia que na verdade tem uma origem humilde, mostra também sua relação com Fernando, homem que a abandonou por outra mulher.

Assim, nos é contado a história da protagonista Aurélia. Seu pai era Pedro Camargo e sua mãe era dona Emília. Pedro era filho bastardo de um rico fazendeiro, mas casou-se com Emília sem conhecimento de seu pai.

Alguns anos depois ele morre e seu pai não havia, portanto, conhecido a neta que era Aurélia. Dona Emília encontra-se em dificuldades para cuidar de sua filha.

Nesse momento, Seixas mostra-se como pretendente de Aurélia, assumindo assim o compromisso de casar-se com ela. Mas, logo se arrepende de ter se apaixonado por ela já que apareceu uma jovem rica em sua vida, o que mudou tudo e ele assume compromisso com Adelaide, que pertencia a alta sociedade.

Nesse momento mostra também como Aurélia ficou rica, ela herdou a fortuna de seu avô, que até então, era indiferente a ela, mas, com sua morte, Aurélia ficou com suas posses, tornando-se assim uma mulher da alta sociedade.

Após o falecimento de sua mãe, Aurélia tem como seu tutor o seu tio, o senhor Lemos, e como acompanhante, dona Firmina.

Posse

Ao conhecer a sua noiva Aurélio sente uma profunda humilhação, pois já se conheciam. Seixas já havia sido noivo dela e rompeu seu noivado para se noivar com Adelaide por ser mais rica. Aurélia se casa com Fernando Seixas e logo em sua noite de núpcias, o chama de homem vendido.

Essa é a terceira parte, Aurélia e Fernando estão casados. Porém, um casamento de aparências, em que ela sempre o humilha por ter comprado ele, a partir de então, são reveladas as condições entre o falso comportamento do casal de aparência, mostrando também a real hostilidade que alimentam em sua intimidade.

Nesse trecho, percebemos que Aurélia quis se casar com Fernando Seixas apenas para humilhá-lo, para fazê-lo de gato e sapato através do seu dinheiro, das suas vontades. Tudo não se passava de um plano de vingança devido a uma desilusão amorosa.

Resgate

Na quarta parte, Aurélia demonstra o verdadeiro sentimento por trás desse desejo de vingança contra Fernando, que na verdade é um reflexo de sua paixão por ele.

Fernando também muda seu comportamento, o seu desejo nesse período é o de devolver o dinheiro do dote para que possa ser livre desse compromisso.

Queria a separação de Aurélia, não aguentava mais toda a humilhação que passava no casamento. Mesmo tendo todo o dinheiro de Aurélia, ele não se sentia feliz mesmo assim.

Aurélia chega até mesmo a descobrir as intenções do marido, de juntar dinheiro e devolver o dote para poder se livrar do casamento No fundo, ela fica ainda mais magoada, percebendo que nem mesmo pelo dinheiro Fernando Seixas ficaria com ela, percebendo que ele queria abandoná-la mais uma vez.

Porém, não fez nada, deixou que ele fizesse o que achasse melhor. Sua verdadeira intenção era apenas dar uma lição nele, mas, naquele momento, ela perdeu as esperanças.

Contudo, porém, ao conseguir se libertar do compromisso, podendo assim ser livre, ao se despedir de Aurélia, ele declara seu amor por ela. A partir de então, Aurélia se entrega aos sentimentos de Fernando e os dois finalmente seguem para um final feliz.

“Seixas, que tinha curvado a fronte, ergueu-a de novo, e fitou os olhos na moça. Conservava ainda as feições contraídas, e gotas de suor borbulhavam na raiz de seus belos cabelos negros.

— A riqueza que Deus me concedeu chegou tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que têm as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mundo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo. Mostrar a esse homem que não me soube compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Essa última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração, era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico.

Proferidas as últimas palavras com um acento de indefinível irrisão, a moça tirou o papel que trazia passado à cinta, e abriu-o diante dos olhos de Seixas. Era um cheque de oitenta contos sobre o Banco do Brasil.

— É tempo de concluir o mercado. Dos cem contos de réis, em que o senhor avaliou-se já recebeu vinte; aqui tem os oitenta que faltavam. Estamos quites, e posso chamá-lo meu; meu marido, pois é este o nome de convenção.”

Estrutura da obra

Essa obra está dividida em quatro partes, sendo que cada não segue uma ordem cronológica, ou seja, o enredo apresentado possui uma linearidade temporal, porém, utiliza-se de digressões e Flashbacks.

A obra é considerada precursora do realismo ou pré-realismo, uma vez trata do tema, casamento burguês, que é a união matrimonial baseada em interesses financeiros.

Tempo e Espaço

O tempo do livro é cronológico, tomando como base o século XIX, durante o segundo Império do Brasil, contudo, não existe linearidade na história, já que os recursos de Flashbacks são utilizados constantemente.

O espaço central da narrativa é Rio de Janeiro, exatamente no conhecido bairro das Laranjeiras.

Foco Narrativo, narrador e linguagem

Narrado em terceira pessoa, a obra apresenta-se por meio de um narrador observador e onisciente, ou seja, narrador heterodiegético.

A exploração dos pensamentos das personagens é possível devido a esse foco narrativo, uma característica muito predominante no realismo, ou seja, esse é mais um dos fatores que fazem muitas pessoas pensarem que esse livro se trate de um romance realista, mas não é o caso, mesmo com muitas semelhanças em alguns aspectos.

A linguagem apresenta-se de forma simbólica e conotativa, com elementos narrativos que passam por metáforas, aliterações, eufemismos e o uso da metalinguagem.

Além disso, devido ao período em que foi escrito, o livro apresenta-se com a utilização de diversas expressões e palavras fora de uso.

Análise das Personagens

As personagens são muito bem construídas, apresentando uma profundidade psicológica, capaz de envolver. Contrariando várias personagens românticas, não se apresentam como meros tipos sociais, já que são capazes de agir de forma inesperada.

Sendo assim, mais uma vez essa obra pode enganar através dos primeiros traços do realismo, por mais que ainda não se tratasse de uma obra realista.

As principais personagens da obra, são:

Aurélia Camargo

É uma moça humilde, decente e muito apaixonada por Fernando Seixas. Mas, por conta de sua decepção amorosa torna-se uma mulher vingativa, mesmo assim, não consegue disfarçar seus verdadeiros sentimentos por Fernando Seixas.

Seu comportamento remete em muitas vezes a esquizofrenia, já que depara com sentimentos contraditórios durante toda a história, até o final do romance. O amor apresenta-se como sua salvação, redimindo-a de perder o seu amado por causa de seu orgulho.

Fernando Seixas

É um jovem estudante de direito, sempre bem vestido e que aprecia a vida em sociedade. A sua falta de dinheiro o leva acreditar que a única maneira de evitar seu futuro pobre e indesejado é casar-se por um bom dote.

Quando se deixa envolver pelo amor de Aurélia, chega a querer abandonar os hábitos caros, mas percebe que não consegue viver longe da alta sociedade.

Dona Emília

É uma senhora viúva, mãe de Aurélia, séria e honesta, ela também sofreu por amor, ela amargou um imenso sofrimento por conta de seu amor por Pedro Camargo.

Pedro Camargo

Era o pai de Aurélia, filho de um fazendeiro rico de uma cidade do interior de São Paulo, de quem alimentava um grande medo. Ele morre a míngua pelo fato de não conseguir confessar seu casamento contra a vontade de seu pai.

Lourenço Camargo

Pai de Pedro Camargo, avó de Aurélia. Um homem rústico de duro, mas que depois que descobre o casamento do filho procura ser justo.

Firmina

É uma parente distante de Aurélia que serve de companhia ela quando se torna rica.

Lemos

Era um tio de Aurélia, um velho de baixa estatura, descrito como gordo. Apesar de seu corpo avantajado tinha muita vivacidade e tinha a petulância de um rapaz. Foi escolhido como tutor de Aurélia pelo simples fato que ele poderia ser dominado facilmente.

“— Ouça-me; desejo que em um dia remoto, quando refletir sobre este acontecimento, me restitua uma parte da sua estima; nada mais. A sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação. Entretanto ainda assim, a senhora me teria achado inacessível à tentação, se logo depois que seu tutor procurou-me, não surgisse uma situação que aterrou-me. Não somente vi-me ameaçado da pobreza, e o que mais me afligia, da pobreza endividada, como achei-me o causador, embora involuntário, da infelicidade de minha irmã cujas economias eu havia consumido, e que ia perder um casamento por falta de enxoval. Ao mesmo tempo minha mãe, privada dos módicos recursos que meu pai lhe deixara, e de que eu tinha disposto imprevidentemente, pensando que os poderia refazer mais tarde!… Tudo isto abateu-me. Não me defendo; eu devia resistir e lutar; nada justifica a abdicação da dignidade. Hoje saberia afrontar a adversidade, e ser homem; naquele tempo não era mais do que um ator de sala; sucumbi. Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro. Eu lhe agradeço.

Aurélia ouviu imóvel. Seixas concluiu:

— Eis o que pretendia dizer-lhe antes de separarmo-nos para sempre.”

Relevância da obra e principais aspectos

O principal conflito entre os protagonistas nasce justamente do choque entre os sentimentos e os interesses financeiros. A protagonista Aurélia Camargo é uma mulher de personalidade forte e cheia de sentimentalismos românticos, surgindo assim, sua contradição, uma personalidade marcada pelos extremos psíquicos, sempre dando maior valor aos sentimentos, mas valendo-se do seu dinheiro para conseguir seu objetivo que é obter seu grande amor, Fernando Seixas.

Dessa maneira, o dinheiro lhe impõe o valor burguês que era atribuído na sociedade daquela época, no caso, século XIX. A realização de seu romance só acontece depois que Aurélia supera sua aparente esquizofrenia que sempre a conduz á dúvidas com relação às intenções de Fernando Seixas.

O comportamento esquizoide se manifesta nas atitudes de Aurélia que apesar de desejar o amor do marido luta com todas as suas forças contra esse sentimento.

O que torna o enredo mais interessante é a reviravolta da obra que se dá porque a protagonista Aurélia que é apresentada como uma moça apaixonada, delicada e meiga, mas após ser abandonada pelo namorado, torna-se calculista e fria.

Fernando Seixas faz o caminho inverso de Aurélia, começando a história como um interesseiro em busca de um bom dote, que ele tenta conseguir através de um casamento arranjado, mas no decorrer da história torna-se um homem trabalhador que conseguir se redimir.

Em seu romance, José de Alencar demonstra a sua preocupação com a grande importância que a sociedade burguesa dá ao dinheiro, sublinhando que o fator financeiro pode condenar o destino das pessoas.

Senhora é narrado na terceira pessoa por um observador, o romance é muito rico em detalhes cenográficos e descrições psicológicas das personagens.

“Seixas ouvira falar da menina de Santa Teresa, mas ocupado nesta ocasião com uns galanteios aristocráticos, não o moveu a curiosidade de conhecer desde logo a nova beldade fluminense.

Aconteceu porém jantar na vizinhança em casa de um amigo, e em companhia de camaradas. Veio a falar-se de Aurélia, que era ainda o tema das conversas; contaram-se anedotas, fizeram-se comentos de toda a sorte.

Depois do jantar, no fim da tarde, saíram os amigos a pé, com o pretexto de dar uma volta de passeio; mas efetivamente para mostrar a Seixas a falada menina, e convencê-lo de que era realmente um primor de formosura.

Seixas era uma natureza aristocrática, embora acerca da política tivesse a balda de alardear uns ouropéis de liberalismo. Admitia a beleza rústica e plebeia, como uma convenção artística; mas a verdadeira formosura, a suprema graça feminina, a humanização do amor, essa, ele só a compreendia na mulher a quem cingia a auréola da elegância.

Em frente da casa de D. Emília, pararam os amigos formando grupo, e Seixas pôde contemplar a gosto o busto da moça. A princípio examinou-a friamente como um artista que estuda o seu modelo. Viu-a através da expressão de altiva e triste indiferença de que ela vestia-se como de um véu para recatar sua beleza aos olhares insolentes.

Quando, porém, Aurélia enrubescendo volveu o rosto, e seus grandes olhos nublaram-se de uma névoa diáfana ao encontrar a vista escrutadora que lhe estava cinzelando o perfil; não se pôde conter Fernando que não exclamasse:

— Realmente…”

Até logo!

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