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Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto

Olá, leitor!

Publicada em 1917 em formato de livro definitivo, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, é uma obra pré-modernista por causa de seu modo único de retratar a sociedade carioca da época, tanto a elite quanto os mais pobres, misturando uma certa comicidade com ironias e críticas sociais.

Isso porque Lima Barreto era muito interessado no corpo social, no indivíduo e nas relações entre esses elementos. Vale ressaltar também que a obra é uma espécie de biografia do autor, pois muito do que está no livro realmente aconteceu com Lima Barreto.

O ressentimento do personagem com a sociedade da época é uma semelhança com o escritor que, por ser mulato, sofreu inúmeras injustiças e quase não foi reconhecido no meio literário.

A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas exortações. Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando uma vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão ganhou a batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: quem era Napoleão? Um grande homem, um grande general… E não disse mais nada. Encostou-se à cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significação de suas palavras; contudo, a entonação de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!…

O espetáculo do saber de meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento.

Resumo da obra

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Fonte: Reprodução

O protagonista dessa história é Isaías Caminha, um mulato que relata sua vida no Rio de Janeiro. Ele vivia no interior do estado mas, após ler um artigo de jornal que continha ofensas aos negros, vai estudar na capital para combater esse tipo de postura. Isaías traz uma carta com recomendações que pretendia entregar a um deputado, mas não consegue ter acesso ao político por causa de sua condição racial.

Ele recebe da mãe uma ajuda de custo e ganha dinheiro escrevendo trabalhos universitários para um colega. Isaías, observando o prestígio que tinham os cronistas e repórteres, aproveita-se do contato que mantém com o jornalista Ivã Rostóloff na noite boêmia do Rio de Janeiro e consegue uma oportunidade para trabalhar no jornal “O Globo”.

Nesse momento, ele conhece pessoas envolvidas no meio jornalístico da capital, como Ricardo Loberant, diretor que faz sucesso com matérias sensacionalistas, e Frederico Lourenço do Couto, ou “Floc”, um culto crítico literário que sempre escreve elogiando a elite carioca.

Rapidamente, Isaías adquire os mesmos hábitos daqueles que trabalham com ele na redação. Seus amigos mais humildes são esquecidos e abandonados e nem a notícia da morte da mãe o abala muito.

Uma noite, Floc tem dificuldades tão extremas para escrever que acaba tirando a própria vida. Isaías vai avisar o diretor Ricardo Loberant sobre o ocorrido e descobre que este tem uma amante.

De posse desse segredo, Isaías é tratado com maior consideração pelo chefe e consegue subir rapidamente na hierarquia do jornal. Em apenas 2 meses, ele se torna repórter da Marinha, posto muito bajulado por oficiais que pretendem obter notas favoráveis na imprensa.

Envolvido em reflexões, Isaías pensa nos sonhos utópicos de sua juventude e fica muito decepcionado. Ele resolve abandonar a redação, mas supera a depressão, e se torna político.

O meu conhecimento com o doutor Ivã, se bem que recente, vinha sendo mantido e fortalecido com freqüentes encontros na Rua do Ouvidor. O meu provincianismo e acanhamento davam-se perfeitamente no tumulto que a anima. Nela, eu combinava as minhas necessidades de sociabilidade com o meu temperamento delicado e desconfiado, ao qual uma sociabilidade mais perfeita expunha a ofensas e a indelicadezas dolorosas. Depois, olhava, olhava a fartar: homens, moços e velhos, mulheres, senhoras. Quando acontecia encontrar o jornalista internacional, trocávamos cumprimentos com os chapéus, polidamente, atenciosamente. O gênio comunicativo do russo e o hábito de viajante de adquirir rapidamente relações e camaradas, foram vencendo aos poucos a minha reserva e a desconfiança. Convite como este, já me fora feito várias vezes e eu sempre recusara com delicadeza e dignidade. Entretanto no hotel, logo ao sentar-me, tive ímpetos de confessar os meus desgostos ao jornalista; o meu orgulho irracional fez-me calar…

Contexto histórico

Lima Barreto se destaca como escritor no período posterior à abolição da escravidão no Brasil. Nessa época, a condição social do negro é problemática e a suposta liberdade é fragilizada pelo preconceito racial enraizado na sociedade brasileira.

Além disso, apesar de os subúrbios do Rio de Janeiro já aparecerem na literatura brasileira desde o século XIX, Lima Barreto retrata esses ambientes tentando mostrar o ponto de vista dos desfavorecidos.

Relevância da obra

Lima Barreto escreve em um momento em que as atividades intelectuais são muito valorizadas, já que, alguns anos antes, em 1897,  havia sido criada a Academia Brasileira de Letras. Recordações do Escrivão Isaías Caminha, contudo, mostra uma visão diferente dos intelectuais, retratando-os como pessoas movidas pela ambição.

A rapariga falava desigualmente: ora alongava as silabas, ora fazia desaparecer outras; mas sempre possuída das palavras, com um forte aceno de paixão, superposto ao choro. As palavras saíam-lhe animadas, cheias de uma grande dor, bem distante da pueril querela que as provocara. Vinham das profundezas do seu ser, das longínquas partes que guardam uma inconsciente memória do passado, para manifestarem o desespero daquela vida, os sofrimentos milenares que a natureza lhe fazia sofrer e os homens conseguiram aumentar. Senti-me comunicado de sua imensa emoção; ela penetrava-me tão fundo que despertava nas minhas células já esquecidas a memória enfraquecida desses sofrimentos contínuos que me pareciam eternos; e achando-os por debaixo das noções livrescas, por debaixo da palavra articulada, no fundo da minha organização, espantei-me, aterrei me, tive desesperos e cristalizei uma angústia que me andava esparsa.

Análise da obra

É  importante associar a biografia de Lima Barreto a seu personagem, pois o escritor sofreu os mesmos preconceitos que surgem como obstáculos para Isaías.

Mas o escrivão possui alguns traços que o afastam do autor. Lima Barreto acreditava na justiça social, enquanto Isaías é movido pelo desejo de poder e glória, sempre distante de qualquer ideia de união ou coletividade.

Nesse sentido, a trajetória do protagonista mostra um dilema interessante: por um lado, ele tinha uma enorme simpatia pelos necessitados, mas, por outro, tinha medo de se tornar um deles. Sua primeira postura é se mudar para o Rio de Janeiro, em busca de uma formação que lhe ajude a lutar pelos desfavorecidos.

Contudo, seu projeto humanitário não prossegue por causa do preconceito que a sociedade demonstra diante de sua condição racial. Assim, Isaías teme passar necessidade e faz qualquer coisa para sobreviver, o que o leva à ambição desmedida. Dessa maneira, o livro se torna uma denúncia do preconceito e das injustiças, mostrando seus desdobramentos sociais e seus impactos no caráter das pessoas.

Isaías abre mão de todos os seus sonhos e traí os próprios ideais. Esse ponto é ressaltado por Lima Barreto e pode ser considerado uma manifestação de fatalismo, tema já abordado pelo autor no livro Triste fim de Policarpo Quaresma. Esse fatalismo não está relacionado apenas com o preconceito, mas se trata de uma visão pessimista da humanidade.

A narrativa se estrutura como uma sucessão de episódios mais ou menos soltos, o que ajuda a mostrar os temas sociais do livro. Os traços mais fortes desse retrato da sociedade são a hipocrisia presente no jornal e o jogo de interesses e a mesquinharia dos intelectuais.

A forma como a história é conduzida mostra um estilo de escrita despojado, com uma linguagem muito distante da formalidade que dominava a literatura da época. Por esse e outros motivos, Lima Barreto pode ser considerado um percursor do Modernismo.

Demais eram as banalidades, os conceitos familiares sobre o crime e os criminosos que ele desenvolvia com a convicção de quem estivesse fazendo um estudo profundamente psicológico e social. Oh! A vaidade dos desconhecidos da imprensa é imensa! Todos eles se julgam com funções excepcionais, proprietários da arte de escrever, acima de todo o mundo. Não reconhecem que são como um empregado qualquer, funcionando automaticamente, burocraticamente, e que uma notícia é feita com chavões, chavões tão evidentes como os da redação oficial. Quase todos os repórteres e burocratas dos jornais desprezam a literatura e os literatos. Não os grandes nomes vitoriosos que eles veneram e cumulam de elogios; mas os pequenos, os que principiam. Estranha ignorância de quem, por intermédio dos artigos dos que sabem, copia os processos dos romancistas, as frases dos poetas e deturpa os conceitos dos historiadores, imitando-lhes o estilo com uma habilidade simiesca…

Notas sobre o autor

Lima Barreto estreou na literatura brasileira com a publicação da obra Recordações do Escrivão Isaías Caminha. A crítica o considera um percursor do Modernismo brasileiro, já que ele iniciou as experimentações com a linguagem e começou a trabalhar temas de densidade social.

A obra de Lima Barreto foi uma espécie de extensão de seus dilemas individuais, sobretudo no que diz respeito ao preconceito racial. O autor registra os conflitos sociais e pessoais da época e compartilha com o leitor seu desejo de construir um mundo mais justo.

Um realista por convicção, Barreto viveu no período em que aconteceram as primeiras greves no Rio de Janeiro e os primeiros movimentos que mobilizaram a classe operária, fatos que não ficaram de fora de suas obras.

Chegamos afinal a uma casa. Lembrei-me da minha casa paterna. Era o mesmo aspecto, baixa, caiada, uma parte de tijolos, outra de pau-a-pique; em redor, uma plantação de aipins e batata-doce. Deram-nos água, ofereceram-nos café e continuamos para o Galeão que estava próximo. Quando chegamos à praia, o dia tinha agonizado de todo. Fomos a uma venda, pedimos algumas latas de sardinha, pão e vinho. Fomos servidos em velhos pratos azuis com uns desenhos chineses e as facas tinham ainda aquele cabo de chifre de outros tempos. À vista deles, dos pratos velhos e daquelas facas, lembrei-me muito da minha casa, e da minha infância. Que tinha eu feito? Que emprego dera à minha inteligência e à minha atividade? Essas perguntas angustiavam-me.

Até a próxima!

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