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Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade

Olá, leitor!

O livro Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, foi publicado pela primeira vez em 1922 e já mostrava características do Modernismo. Nessa obra, o autor faz um rompimento definitivo com o passado da literatura brasileira, trazendo novas possibilidades estéticas para abordar a cidade de São Paulo, que é o tema do livro.

Esta é a primeira obra de poemas modernistas do autor, citada por ele na conferência Movimento Modernista, que ocorreu em 1942 e analisou as mudanças que essa escola literária provocou na arte brasileira.

Mário de Andrade elaborou sua própria definição do livro que, segundo ele, é áspero de insulto e gargalhante de ironia, com versos que variam de sofrimento a revolta.  O prefácio de Pauliceia Desvairada, no qual o autor mostra suas opiniões a respeito da poesia, fundando uma corrente intitulada de desvairismo, já vale como um manifesto do Modernismo Brasileiro.

Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar, etc… Só idealmente podemos conceber os objetos como os atos na sua inteireza bela ou feia. A arte que, mesmo tirando os seus temas do mundo objetivo, desenvolve-se em comparações afastadas, exageradas, sem exatidão aparente, ou indica os objetos, como um universal, sem delimitação qualificativa nenhuma, tem o poder de nos conduzir a essa idealização livre, musical. Esta idealização livre, subjetiva, permite criar todo um ambiente de realidades ideais onde sentimentos, seres e coisas, belezas e defeitos se apresentam na sua plenitude heroica, que ultrapassa a defeituosa percepção dos sentidos. Não sei que futurismo pode existir em quem quase perfilha a concepção estética de Fichte. Fujamos da natureza! Só assim a arte não se ressentirá da ridícula fraqueza da fotografia… colorida.

Notas sobre a obra

Pauliceia Desvairada, Mário de Andrade

Fonte: Reprodução

É possível notar uma aproximação entre a obra e as vanguardas artísticas que ocorreram na Europa no início do século XX, como o Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo, Futurismo e Cubismo.

O livro traz uma poética considerada mais aberta, anteriormente chamada de escrita automática, utilizada pelos representantes do Surrealismo para libertar os conteúdos do inconsciente. Já o prefácio denota admiração pela experiência cubista, rompendo com os moldes da arte acadêmica por meio da entrega às raízes líricas e matrizes pré-conscientes da linguagem.

O livro traz escolhas linguísticas que demonstram uma escrita vanguardista. Isso se dá por aspectos como elisões e quebras sintáticas, servindo para refletir o novo ambiente em que vive o homem da grande cidade moderna.

Também é possível dizer que Mário de Andrade, por meio de recursos técnicos de linguagem, aproxima a poesia da música, comparando teoria musical com noções de harmonia entre as palavras.

OS CORTEJOS

Monotonias das minhas retinas…

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Todos os sempres das minhas visões! “Bon giorno, caro”.

 

Horríveis as cidades!

Vaidades e mais vaidades…

Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!

Oh! os tumultuários das ausências!

Paulicéia — a grande boca de mil dentes;

e os jorros dentre a língua trissulca

de pus e de mais pus de distinção…

Giram homens fracos, baixos, magros…

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

 

Estes homens de São Paulo,

todos iguais e desiguais,

quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,

parecem-me uns macacos, uns macacos.

Análise da obra

Pauliceia Desvairada não tem um roteiro definido, sendo um livro de poesias que utiliza um linguajar simples, coloquial e irreverente para falar sobre a cidade de São Paulo. Na escrita, ocorrem erros gramaticais intencionais, usados como forma de protesto contra as correntes dominantes.

A obra revolucionou a linguagem poética brasileira e disseminou o verso livre. Pela primeira vez, é feita uma poesia sintética, fragmentada e anti-romântica, retratando todos os problemas de uma cidade grande e heterogênea.

Mário de Andrade tinha uma relação ambígua com a capital paulista, vendo-a ora como um palco de festejos multiculturais, ora como um local corrompido pela ambição capitalista.

Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório — questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural — tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu Fim. Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das Madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da Pastoral, Machado de Assis do Brás Cubas), ora inconscientemente (a grande maioria) foram deformadores da natureza. Donde infiro que o belo artístico será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural. Outros infiram o que quiserem. Pouco me importa.

Relevância da obra

Pauliceia Desvairada surge em um cenário de grandes mudanças na cidade de São Paulo, que passava por intensos processos de urbanização e explosão demográfica, recebendo imigrantes de todas as partes do mundo.

Dessa forma, a obra ficou marcada por sua crítica às lacunas sociais deixadas pela expansão paulistana, tendo como alvo os próprios leitores. Essas manifestações são ressaltadas por inovações estéticas, como pode ser visto no poema Ode ao burguês.

Canto da minha maneira. Que me importa si me não entendem? Não tenho forças bastantes para me universalizar? Paciência. Com o vário alaúde que construí, me parto por essa selva selvagem da cidade. Como o homem primitivo cantarei a principio só. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou apenas sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei-de achar também algum, alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos. Nesse momento: novo Anfião moreno e caixa-d’óculos, farei que as próprias pedras se reúnam em muralhas à magia do meu cantar. E dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribo.

Biografia de Mário de Andrade

Mário Raul de Moraes Andrade nasceu em 1893, na cidade de São Paulo. Ele se formou no Conservatório Dramático e Musical e foi professor de piano,  jornalista, escritor e funcionário público. Em 1934, o autor entrou para o Departamento de Cultura e Arte da Prefeitura de São Paulo, no qual permaneceu até 1937.

No ano seguinte, Mário de Andrade viajou para o Rio de Janeiro, trabalhou como crítico literário e contribuiu para a Enciclopédia Brasileira do Ministério da Educação. Em 1940, ele voltou para São Paulo, onde foi funcionário do Serviço Patrimonial Histórico, falecendo 5 anos depois.

Além da literatura, Mário de Andrade amava o folclore, a música e as artes plásticas, tornando-se um admirador da cultura brasileira. O autor também tinha uma sensibilidade social elevada para a época, usando a poesia de maneira crítica e se esforçando para escrever com uma linguagem que se aproximava do linguajar popular.

Ele está entre os maiores nomes do Modernismo Brasileiro, assim como Oswald de Andrade e Anita Malfatti. “ Há uma gota de sangue em cada poema” foi seu primeiro livro, no qual o autor usou o pseudônimo Mário Sobral e criticou as mortes ocorridas na Primeira Guerra Mundial.

Mário de Andrade ficou conhecido por não se prender a padrões, nem de comportamento nem de  escrita. Pelo contrário, ele sempre quis se desvincular dos modismos europeus e criar uma cultura nacional própria, que integrasse o brasileiro e sua terra. Para isso, o autor viajou muito pelo país, conhecendo as particularidades de cada região.

ANHANGABAÚ

Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora…

Oh larguezas dos meus itinerários…

Estátuas de bronze nu correndo eternamente,

num parado desdém pelas velocidades…

 

O carvalho votivo escondido nos orgulhos

do bicho de mármore parido no Salon…

Prurido de estesias perfumando em rosais

o esqueleto trêmulo do morcego…

Nada de poesia, nada de alegrias!…

 

E o contraste boçal do lavrador

que sem amor afia a foice…

 

Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris,

onde as tuas águas, onde as mágoas dos teus sapos?

“Meu pai foi rei!

— Foi. — Não foi. — Foi. — Não foi.”

Onde as tuas bananeiras?

Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros,

contando histórias aos sacis?…

 

Meu querido palimpsesto sem valor!

Crônica em mau latim

cobrindo uma écloga que não seja de Virgílio!…

Até a próxima!

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