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Os Sermões, de Padre Antônio Vieira

Olá, leitor!

Os Sermões, de Padre Antônio Vieira, são textos em prosa que representam o período barroco na literatura brasileira, sendo que em sua maioria, eles se apresentam por meio de assuntos polêmicos, ao tecer críticas pontuais a diversos aspectos que o Padre Antônio Vieira acreditava estarem errados naquela época que precede o descobrimento do Brasil.

Nesses sermões, pode-se encontrar muitas vezes críticas certeiras ao despotismo dos colonos portugueses, a outros pregadores que não exerciam de forma correta a sua função de catequização, a influência negativa do Protestantismo que acabava de chegar ao Brasil Colonial, aos novos-cristãos – que em sua maioria eram judeus que se converteram ao catolicismo e vieram se instalar aqui em terras tupiniquins – entre outras coisas.

Até mesmo a polêmica Inquisição não escapou das críticas dos sermões de Padre Antônio Vieira, que se dizia totalmente contra essa barbárie e afirmava que essa não era a melhor forma de se evangelizar as pessoas, ou seja, não concordava que o medo fosse uma boa maneira de fazer com que os povos aceitassem o catolicismo.

Além disso, Vieira também era um defensor dos povos indígenas, pois condenava os horrores vivenciados por eles nas mãos dos colonos portugueses que chegaram ao Brasil, assim, defendia a catequização dos povos indígenas bem como a integração deles com a sociedade.

Padre Antônio Vieira viveu de 1608 a 1697, tendo escrito cerca de mais de 200 sermões diferentes, onde se destacam três muitos famosos, os quais veremos a seguir, e também diversos tipos cartas de manifestos (aproximadamente 500) e até mesmo profecias. Confira!

“Pelo que fizeram se hão de condenar muitos. Pelo que não fizeram, todos”. (Sermões, “Julgamento”)

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Estrutura dos Sermões

O estilo adotado por Padre Antonio Vieira para escrever os seus Sermões é o de concepção, ou seja, seu estilo de escrita discursiva para os sermões era conceptista.

Isso quer dizer que eles eram escritos para privilegiar a retórica (fala) e o encadeamento das ideias, opiniões e conceitos, baseados numa concepção lógica com a intenção de passar ensinamentos, levar à reflexão, a evangelizar e a catequizar.

Os Sermões eram divididos da seguinte forma:

  • Intróito ou Exórdio

O intróito ou o exórdio equivale ao início ou à introdução dos sermões, onde nos são apresentadas as ideias principais do discurso, uma espécie de apresentação da temática que será desenvolvida através do sermão.

  • Desenvolvimento ou argumento

No desenvolvimento ou argumento, o sermão entra no desenvolver das ideias principais da temática do texto, são os argumentos apresentados pelo Padre para nos convencer ou nos mostrar o sue ponto de vista, sempre com a intenção de fazer as pessoas refletirem e a pensarem sobre o assunto abordado, ou seja, resumidamente, pode-se dizer que é a defesa de uma ideia com base na argumentação do autor do texto.

  • Peroração

A peroração é a conclusão do sermão, ou seja, a parte final onde o autor do texto expressa sua opinião definitiva sobre o assunto, onde conclui o seu pensamento.

“Humildade essencialmente é o conhecimento da própria dependência, da própria imperfeição e da própria miséria”. (Sermões, “Homem”).

Resumo dos 3 principais Sermões

Os três principais Sermões de Padre Antônio Vieira – que também estão entre os mais famosos sermões dele –, são:

Sermão da Sexagésima

Apresentado em 1655, o Sermão da Sexagésima é dividido em 10 partes diferentes, sendo que a temática principal apresentada por esse sermão seja sobre a arte de pregar, catequização e evangelização.

Sendo assim, Padre Antônio Vieira, no sermão em questão, critica a forma como outros representantes religiosos pregam a palavra de Deus, além disso, também afirma veementemente que pregar a palavra de Deus não é apenas falá-la ou reproduzi-la de forma vazia, mas, sim, é fazer da palavra de Deus de uma semente, que deve ser semeada pelo pregador e cultivada com muito carinho e dedicação.

 No final do sermão, Vieira ainda ressalta que se a palavra de Deus não dá frutos aqui na Terra, no plano terreno, a culpa disso não é da semente, ou seja, de Deus ou da sua palavra, mas, sim, exclusivamente dos semeadores, fazendo uma alusão aos pregadores, que não cumprem direito a função deles de cultivar de forma correta a palavra de Deus.

“Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo que ‘saiu o pregador evangélico a semear’ a palavra divina. Bem parece este texto dos livros de Deus ão só faz menção do semear, mas também faz caso do sair: Exiit, porque no dia da messe hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. (…) Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair. Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão; os que semeiam sem sair, são os que se contentam com pregar na Pátria. Todos terão sua razão, mas tudo tem sua conta. Aos que têm a seara em casa, pagar-lhes-ão a semeadura; aos que vão buscar a seara tão longe, hão-lhes de medir a semeadura e hão-lhes de contar os passos. Ah Dia do Juízo! Ah pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá, com mais passos: Exiit seminare. (…) Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (…)”

Sermão de Santo Antônio ou Sermão aos Peixes

Apresentado em 1654, o Sermão de Santo Antônio ou Sermão aos Peixes, divide-se em 6 partes, sendo que a temática principal apresentada por esse sermão seja sobre os vícios dos colonos portugueses e o abuso dos povos indígenas, que eram escravizados e explorados pelos portugueses, mesmo que ainda neste sermão já estivesse presente a ideia sobre a arte da pregação.

No sermão em questão, Antônio Vieira utiliza-se da metáfora e simbolismo dos peixes para falar sobre as virtudes e os vícios dos colonos portugueses, sendo que primeiramente exalta as qualidades dos povos colonos para depois deferir-lhes uma crítica engajada sobre a forma como eles estavam conduzindo a colonização do Brasil: ao custo da dor e do sofrimento dos povos indígenas.

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (…) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente (…) Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. (…)”

Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda

Apresentado em 1640, o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda é dividido em 5 partes diferentes, sendo que a temática principal apresentada por esse sermão seja sobre as invasões holandesas no Brasil-Colônia.

Neste Sermão, Padre Antônio Vieira incita os colonos portugueses a reagirem contra as invasões holandesas no Brasil, apresentando ideias aos seus seguidores de que a presença desses protestantes na colônia resultaria numa série de infortúnios às terras e ao desenvolvimento do próprio Brasil Colonial, seja por meio da deturpação da palavra de Deus ou apenas devido às depredações à terra que eles faziam em busca de riquezas.

“Se acaso for assim — o que vós não permitais — e está determinado em vosso secreto juízo, que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo, porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estaria satisfeita vossa justiça, senão quando ao terceiro dia começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia.”

Notas sobre o Autor

Os sermões de Padre Antônio Vieira é o que há de melhor na produção barroca brasileira, em relação à literatura, é claro, sendo que esse autor é o maior representante da prosa barrosa no Brasil, além de ser considerado também o maior orador/pregador sacro do período do Brasil Colonial.

Antônio Vieira nasceu em Portugal, em 1608, mas veio ao Brasil logo quando criança, país onde cresceu e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, para iniciar sua carreira como padre no catolicismo.

O autor ainda foi responsável por escrever cerca de 500 cartas, com todos os tipos de assuntos, mas, em sua maioria, com críticas e manifestos acerca dos mais variados assuntos. Além disso, também ousou ao fazer algumas profecias, mas nenhuma delas ganhou muito destaque, é mais conhecido mesmo pelos seus Sermões.

Contexto histórico

O contexto histórico dos Sermões de Padre Antônio Vieira, trata-se do Brasil-Colônia, onde haviam muitas questões a serem discutidas, as principais muito presentes na obra do padre.

Dentre eles, podemos destacar:

  • A arte de evangelizar;
  • A catequização dos índios;
  • A exploração dos povos indígenas pelos portugueses;
  • As invasões estrangeiras na colônia.

“De um erro nascem muitos, e sobre fundamento tão errado nunca houve edifício certo”. (Documentos, “Erro”)

Relevância do livro

A relevância dessa obra, tendo em vista que Os Sermões foram reunidos em obras e publicados ao decorrer dos tempos, dá-se ao fato de que esses textos são o que é há de melhor e mais representativo da prosa barroca conceptista no Brasil.

Os Sermões são textos que focam na questão da retórica, escritos para darem ênfase à oratória da pessoa que os está lendo, sendo assim, possuem uma série de ideologias e jogo de palavras e concepções para defenderem essa ideia, sempre permeados pelo raciocínio lógico, e não pela emoção, o que os caracteriza como textos literários com forte argumentação.

A utilização do português arcaico e termos em latim estão sempre presente nos textos, é claro, o que aumenta ainda mais as características barrocas presentes neles, sem falar que todos sempre são embasados na religiosidade (catolicismo), e utilizam-se de diversas passagens bíblicas.

A linguagem apresentada nos textos é sempre erudita, ou seja, apresentam-se numa escrita extremamente formal, correta e com a utilização de palavras e termos difíceis ou que entraram em desuso (arcaísmos).

Contudo, numa visão analítica literária, podemos encontrar profundidade nos temas dos Sermões, bem como diversas metáforas e outras figuras de linguagem, bem como assuntos da condição humana, como, por exemplo, a exploração do homem pelo homem, temática presente no Sermão aos Peixes.

“Tudo aquilo que se faz para os olhos dos homens, ainda que se faça, não se faz”. (Sermões, “Exibicionismo”).

Até logo!

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