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O Quinze, de Rachel de Queiroz

Olá, leitor!

Publicado em 1930, O Quinze, de Rachel de Queiroz, é um marco na carreira desta autora, que está entre as escritoras de maior destaque da literatura brasileira e soube retratar de modo muito particular a vida dos retirantes do sertão nordestino, fazendo com que essa obra se tornasse uma referência da primeira geração do modernismo.

O livro é um panorama da seca do Nordeste, pois narra a história, rica em detalhes, de várias famílias que enfrentam as dificuldades do sertão e precisam constantemente viajar em busca de melhores condições de vida.

Outro fato importante sobre a obra é que todo o enredo é baseado em um acontecimento histórico: a grande seca de 1915 que assolou o Nordeste brasileiro. Por isso que o nome do livro é O Quinze, fazendo alusão a essa época.

Durante esse período, a própria autora se viu obrigada a deixar sua terra natal com a família, que morava no interior do Ceará. Assim, a escritora coloca um pouco de si na obra e, por isso mesmo, sabe expressar como ninguém a sensação de ter que abandonar o lar em busca de condições melhores de vida.

Além disso, muitos aspectos modernistas podem ser notados no livro, como a preocupação com causas sociais, o retrato das adversidades do sertão e o trabalho com a linguagem regional e popular, que inclui na narrativa expressões e marcas da oralidade.

“Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão. Era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês, se de fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês.

Imaginara retirar uma porção de gado para a serra. Mas, sabia lá? Na serra, também, o recurso falta… Também o pasto seca… Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente. Além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo.
Uma vaca que se afastava chamou a atenção do rapaz, que deu um grito:

– Eh! menino, olha a Jandaia! Tange para cá!

E chamando o vaqueiro:

– Você viu, compadre João, como a Jandaia tem carrapato? Até no focinho!

O João Marreca olhou para o animal que todo se pontilhava de verrugas pretas, encaroçando-lhe o úbere, as pernas, o corpo inteiro:

– Tem umas ainda pior… Carece é carrapaticida muito… E as reses assim fracas…

Vicente lastimou-se:

– Inda por cima do verãozão, diabo de tanto carrapato… Dá vontade é de deixar morrer logo!

– Por falar em deixar morrer… o compadre já soube que a Dona Maroca das Aroeiras deu ordens pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo… Não tem mais serviço pra ninguém.”

Resumo da obra

O Quinze, Rachel de Queiroz

Fonte: Reprodução

A história se passa no ano de 1915, período em que uma seca catastrófica atingiu todo o Nordeste brasileiro. Porém, na narrativa, tem-se como pano de fundo o interior do Ceará, mais especificamente os arredores da cidade de Quixadá, mesmo local onde a autora morou quando criança e para onde voltou já adulta.

O enredo se baseia em 2 histórias paralelas que ao final se juntam: as trajetórias de Conceição e de Chico Bento e sua família. Entretanto, na primeira parte do livro, a história de Chico Bento se sobressai à de Conceição.

Logo no início da narrativa, somos apresentados à Conceição, uma mulher jovem, apaixonada e sonhadora, que mora em Fortaleza e é professora. A personagem aparece em vários trechos do enredo,  contudo, ganha destaque mais para o final do livro.

Já a história da família de retirantes se incia quando Dona Maroca das Aroeiras, que possui um grande pedaço de terra, determina que se até 19 de março, dia de São José, a chuva não viesse para amenizar a seca, ela teria que soltar todos os animais da fazenda e seus funcionários teriam que partir, pois a senhora também partiria de suas terras.

Assim, é introduzida a história de Chico Bento e sua família que, devido à falta de chuva, são obrigados a enfrentar uma dura jornada pelos caminhos do sertão árido e desértico. Eles se tornam retirantes e seguem dos arredores de Quixadá para Fortaleza, capital do Ceará.

A família tem que abandonar todas as coisas que tinha, incluindo a terra natal e os animais. Sua situação precária é evidenciada pela forma como Chico Bento, sua mulher, Cordulina, sua cunhada, Mocinha, seus 5 filhos e um burro se apresentam, de modo despreparado e inocente, para iniciar a jornada, o que serve como prelúdio das dificuldades que eles enfrentarão na viagem.

Após esses acontecimentos iniciais, conhecemos um pouco mais sobre Conceição e sua avó, que deixa a terra natal, Logradouro, para ir à Fortaleza passar uns tempos até que as coisas melhorem. Também é  apresentado Vicente, primo de Conceição, que, mesmo tendo sido citado antes, somente a partir de agora tem sua personalidade mesquinha revelada.

“Chico Bento ainda esteve uns momentos na mesma postura, ajoelhado. E antes de se erguer, chupou os dedos sujos de sangue, que lhe deixaram na boca um gosto amargo de vida. Cordulina acordou de seu letargo e voltou-se espantada para o filho, que vinha com aquelas tripas na mão.

– Que é isso, menino?

– É a tripa de uma criação… o papai matou, mas veio o dono tomar, e por milagre ainda deu o fato…

A mãe se levantou do assento, e, trôpega ainda, tomou na mão as vísceras que sangravam:

– Pois, meu filho, vá até aquela casa ver se arranja um tiquinho de água mode consertar e lavar…

O pequeno bateu e pediu água. Na salinha, com a cabra morta sobre uma mesa, o homem gesticulava com fúria, contando a história à mulher; e vendo chegar o menino, voltou-se, feito uma onça:

– Por aqui ainda, seu cachorro? Não tem água coisa nenhuma! já pra fora! Deviam estar na cadeia! Vamos, já pra fora! Achou pouco o que ainda dei?

Mas às últimas palavras, já Pedro ia longe, assombrado, numa carreira desabalada de cachorro enxotado.

Chegou junto da mãe, chorando de vergonha e de susto:

– O homem botou a gente pra fora, chamando tudo quanto é nome…

E num foguinho de garranchos, arranjado por Cordulina com um dos últimos fósforos que trazia no cós da saia, assaram e comeram as tripas, insossas, sujas, apenas escorridas nas mãos.”

O enredo se desenrola voltando para a família de Chico Bento. É aqui que muitas passagens bonitas, tal como sofridas e tristes, são narradas. Entre elas, destaca-se o momento em que Chico encontra outra família de retirantes que está passando fome e comendo carne em decomposição. Então, ele divide o pouco de comida que tinha e acaba ficando sem nada para comer no dia seguinte.

Outro trecho triste ocorre quando a família de Chico descansa em um local próximo a uma fazenda.  Nesse momento, para aplacar a fome, Chico mata uma cabra que estava pastando. Contudo, o dono do animal aparece enfurecido para tirar satisfações.

Chico conta sua história, com intenção de explicar o ocorrido e dizer que não quis roubar nem ofender, porém, mesmo assim, o dono da cabra deixa apenas as vísceras do animal para serem consumidas pela família do vaqueiro.

Mais adiante na história, quase chegando em Fortaleza, um dos filhos de Chico Bento, o Josias, come uma raiz de mandioca brava crua, o que causa a morte do garoto. Josias é enterrado em uma cova rasa na estrada por onde caminhavam, tendo apenas direito a uma cruz torta improvisada com 2 galhos secos. Essa é uma das passagens mais tristes do livro.

Logo após a morte de Josias, o filho mais velho do casal, Pedro, acaba se perdendo em um local onde eles encontram várias famílias de retirantes prestes a chegarem em Fortaleza. O garoto se junta a outro grupo e vai embora sem que seus pais vejam.

Ao chegar na capital cearense, a família de Chico Bento é encaminhada para uma espécie de assentamento para sertanejos que fugiam da seca. Eles ficam ali um bom tempo, até encontrarem Conceição, que trabalhava como voluntária nesse campo de refugiados.

Só então é revelado que eles se conheciam, que Conceição e Vicente, ao visitarem certa vez as terras de uma parente, encontraram essa família humilde que os recebeu muito bem. Nesse mesmo dia, os primos fizeram amizade com a família e foram convidados a batizar o filho caçula do casal, Manuel, apelidado de Duca.

Depois de um tempo no assentamento, sem a volta da chuva, Chico Bento ouve algumas histórias sobre as oportunidades de emprego em São Paulo. Então, ele decide se mudar para a capital paulistana com a  família, porém, não tinha dinheiro para as passagens.

Conceição o ajuda a comprar os bilhetes, contudo, por ser madrinha de Manuel, pede que o casal deixe o garoto em Fortaleza, para ser criado por ela. Mesmo não gostando muito da ideia, Chico Bento e Cordulina acabam aceitando a proposta e partem para São Paulo.

Conceição percebe que, apesar de gostar de Vicente, nunca terá nada com o primo, que é uma pessoa muito diferente dela. Além disso, ela acaba conhecendo Marinha Garcia, que morou na região de Quixadá e possuía uma paixão antiga por Vicente. Assim, Conceição abre mão do primo e decide viver só com o afilhado.

No final da história, as chuvas chegam, a vida volta ao sertão e as esperanças do povo se renovam. Muitos que estão no campo de retirantes decidem retornar para suas terras e partem novamente em uma jornada de volta. A avó de Conceição também resolve regressar para o sertão, chamando a neta para ir com ela, porém, Conceição decide ficar em Fortaleza com Duca.

“Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz.

Cordulina, no entanto, queria-o vivo. Embora sofrendo, mas em pé, andando junto dela, chorando de fome, brigando com os outros… E quando reencetou a marcha pela estrada infindável, chamejante e vermelha, não cessava de passar pelos olhos a mão trêmula:

– Pobre do meu bichinho!

Dia a dia, com forças que iam minguando, a miséria escalavrava mais a cara sórdida, e mais fortemente os feria com a sua garra desapiedada.

Só talvez por um milagre iam aguentando tanta fome, tanta sede, tanto sol.

O comer era só quando Deus fosse servido.”

Estrutura da obra

O livro é curto, com cerca de 80 páginas, e é dividido em capítulos numerados, que interpolam a história de Conceição com a de Chico Bento e sua família.

Contexto histórico

A obra se passa durante a grande seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro, principalmente as regiões do sertão cearense.

Relevância da obra

O Quinze é o livro de estreia de Rachel de Queiroz, que se tornou uma das principais representantes da primeira fase do Modernismo Brasileiro, ou seja, da geração de 30.

Notas sobre a autora

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 17 de novembro de 1910. Filha de Daniel de Queiroz e Clotilde Franklin de Queiroz, Rachel era parente distante, pelo lado materno, de José de Alencar, escritor do Romantismo Brasileiro.

Poucos dias após seu nascimento, Rachel se mudou com a família para a cidade de Quixadá, no sertão do Ceará, mas, em 1917, eles foram morar no Rio de Janeiro, com a intenção de fugir da seca. O fato de ter presenciado a realidade do sertão quando criança marcou a vida da escritora, que se utilizou dessa temática no seu romance de estreia, O Quinze, que a colocou entre os grande nomes da literatura brasileira.

Ela se formou no colégio aos 15 anos e, a partir daí, atuou como redatora efetiva em jornais do Ceará, para onde voltou. Pouco tempo depois, em 1930, com 20 anos de idade, ela ingressou na literatura, lançando O Quinze.

Rachel recebeu diversos prêmios pela sua obra e, em 1977, foi aceita na Academia Brasileira de Letras,  sendo a primeira mulher a entrar na instituição. Em 1993, ela também foi a primeira pessoa do sexo feminino a ganhar o Prêmio Camões de Literatura, uma das maiores honrarias literárias em língua portuguesa. Rachel veio a falecer poucos anos depois, em 4 de novembro de 2003, no Rio de Janeiro.

“Quando Chico Bento, depois daquela noite passada, ali, no abandono da estrada, chamou a mulher e, ajudando a levantar um dos meninos, foi andando em procura do povoado, em vão buscou, pelas voltas do caminho, sentado nalguma pedra, o vulto de Pedro.

Na estrada limpa e seca só se via um homem com uma trouxinha no cacete, e mais à frente, dentro de uma nuvem de poeira, um cavaleiro galopando.

De repente, uma ideia o sossegou:

– Que besteira! Naturalmente ele já está no Acarape…

Mas chegaram ao Acarape, e debalde perguntaram pelo menino a todo o mundo. Não… Ninguém tinha visto… Sabia lá!… A toda hora estava passando retirante…

Numa bodega, onde o vaqueiro novamente fez indagações, alguém lembrou:

– Homem, por que você não vai falar ao delegado? Ele é quem pode dar jeito. Mora ali, naquela casa de alpendre. No modo que agora era o seu, curvado, quase trôpego, Chico Bento endireitou para a casa apontada, que ficava meio apartada das outras, tendo de um lado um alpendre onde se viam algumas cangalhas de palha roída.

E bateu à porta, enquanto Cordulina se sentava no chão, na beirada do alpendre. Lá de dentro, uma voz de mulher disse baixinho:

– Abre não, menina, é retirante… É melhor fingir que não ouve…

Chico Bento escutou; e sua voz lenta explicou, dolorida:

– Não vim pedir esmola, dona, eu careço, é de ver o delegado daqui…

Um homem de cachimbo no queixo mostrou a cara à meia-porta:

– Está falando com ele, o que é?

Chico Bento ficou um instante encarando o homem, reconhecendo-o. Mas o delegado, impaciente, repetiu a pergunta:

– O que é que você queria?

– Eu vim falar ao senhor mode um filho meu, que desde ontem tomou sumiço. Nós ficamo na estrada, eu assim, variando, muito fraco… e ele veio, indo até aqui. Quando cacei o menino, não teve quem desse notícia.

– Como é ele?

– Assim comprido, magrinho, a cara chupada… está dentro dos doze anos…

O delegado tirou o cachimbo da boca e calcando com o dedo o tabaco, abanou a cabeça:

– Não tenho jeito que dar não, meu amigo… o menino, naturalmente, foi-se embora com alguém… Um rapazinho, assim sozinho, muita gente quer.”

Análise da obra

A obra retrata o Nordeste do país, portanto, possui caráter regionalista. Com uma narrativa linear, Rachel de Queiroz representa a realidade dos retirantes nordestinos, quando a região foi assolada por uma grande seca no ano de 1915.

Assim, O Quinze é um romance que contém forte teor social, falando sobre a seca, a fome e a miséria. O uso do discurso direto e a análise psicológica dos personagens são recursos utilizados para intensificar essas adversidades.

Foco narrativo, narrador e linguagem

O foco narrativo da obra é em 3ª pessoa, ou seja, trata-se de um narrador onisciente que revela toda a dimensão psicológica dos personagens, mas sem participar da história, caracterizando-se como um narrador heterodiegético.

Já em relação à linguagem, o livro se utiliza de aspectos modernistas e regionalistas, tendo um registro coloquial e simples, marcado por frases curtas, precisas e breves.

Tempo e espaço

A história se passa no ano de 1915, época da grande seca no Nordeste brasileiro. Além disso, o tempo da narrativa é cronológico e os acontecimento são contados de forma linear.

Em relação ao espaço, pode-se dizer que este item é fundamental para o enredo, já que a narrativa se baseia na extrema seca que assolou o Nordeste naquele período. Temos como pano de fundo o estado do Ceará, mais especificamente a região de Quixadá, onde estão situadas as fazendas do capitão (pai de Vicente), de Dona Inácia (avó de Conceição) e de Dona Maroca(patroa de Chico Bento).

Existe também uma breve aparição de um cenário mais urbano, quando os personagens chegam à Fortaleza e quando a família de Chico Bento parte para São Paulo, cidade que carrega uma imagem de progresso e modernidade.

Análise dos principais personagens

Os principais personagens de O Quinze, de Rachel de Queiroz, são:

Chico Bento

Chico Bento representa o sertanejo, vaqueiro e retirante, tipificando as pessoas que trabalham cuidando das terras de famílias ricas e, quando se deparam com períodos de seca, fogem da fome e da miséria. Chico também expressa a coragem e a inocência do sertanejo.

Conceição

Personagem que traz um pouco de leveza para o enredo. Conceição é uma jovem professora que, mesmo sonhando com o amor e desejando se casar, pode ser considerada fora dos padrões da época, como percebemos no decorrer da narrativa com sua evolução e amadurecimento. Ela representa as pessoas que, apesar de possuírem boas condições de vida, também são afetadas pela seca.

Cordulina

Cordulina expressa a garra e força de vontade das mulheres nordestinas. Por isso, ela é uma das personagens mais impactantes da obra, mesmo estando quieta, abatida e cansada em alguns trechos do enredo.

Vicente

Representa o pequeno detentor de terras e produtor rural. Ao longo da narrativa, Vicente se mostra uma pessoa egoísta e mesquinha, que sempre está em busca de melhorar sua condição financeira.

“Chico Bento fitava o navio, escuro e enorme, com sua bandeira verde de bom agouro, tremulando ao vento do Nordeste, o eterno sopro da seca. Sentia como que um ímã o atraindo para aquele destino aventuroso, correndo para outras terras, sobre as costas movediças do mar…

Conceição, chegando, precisou lhe tocar no ombro para o acordar da fascinação. O vaqueiro virou-se para ela, que vinha toda de branco e risonha, e murmurou lentamente:

– Já estava com medo de que não viesse… Quando o bote encostou à escada, dando guinadas violentas, indo e vindo, numa dança, Conceição chamou:

– Está na hora…

Chico Bento estendeu-lhe a mão:

– Adeus, comadre…

Uma comoção profunda a pungiu, ante aquela calma sofredora, suave, que escondia tanta reserva de resistência.

– Adeus, adeus, seja feliz!

Depois foi Cordulina. Numa efusão repentina abraçou a moça, beijando-lhe as mãos, articulando por entre o choro que à última hora irrompera:

– Deus lhe pague! Nossa Senhora lhe proteja! E tenha sempre caridade com o pobre do meu filhinho! Gravemente, um dos pequenos estendeu também a mão:

– Adeus!

O catraieiro chegou, agarrou um menino em cada braço e desceu a escada correndo. Assombrados, os pobrezinhos principiaram a dar gritos agudos. Já Cordulina descia também, vagarosa e trêmula, rebocada por outro catraieiro que lhe gritava:

– Vamos, dona, depressa! Olhe quando o bote encosta, para pular!

E ela pulou, sem jeito, empurrada. Depois Chico Bento, numa agilidade inesperada, transpôs sozinho o espaço entre a escada e o bote. Lá de cima, a Moça os ficou vendo ir, novamente agarrados, sempre fitando o mar, com os mesmos olhos de ansiedade e de assombro.

Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos… Iam para o destino, que os chamara de tão longe, das terras secas e fulvas de Quixadá, e os trouxera entre a fome e mortes, e angústias infinitas, para os conduzir agora, por cima da água do mar, às terras longínquas onde sempre há farinha e sempre há inverno…

O bote já era um pequeno ponto, uma verruga negra aderida ao navio. Conceição lentamente deu as costas, e enxugou os olhos molhados no lenço com que acenara para o mar.”

Até a próxima!

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