O que são microcontos e 7 exemplos para se apaixonar pelo formato
Olá, leitor(a)!
Hoje, começo o texto em primeira pessoa para falar de um assunto que muito me interessa e que ampliou minha perspectiva sobre as possibilidades da literatura. Há alguns anos, participei de uma oficina de microcontos sob orientação do poeta e escritor nordestino Marcelino Freire, responsável pela organização do livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004).
Nela, fui convidada, com um grupo de pessoas, a colocar no papel aquilo que ele compreendia desse formato. Minha invenção foi: “Luto: Ainda cheira, mas acabou o gás”. Se você entendeu essa imagem ou quer saber se eu consegui atender aos critérios desse modelo, este artigo apresenta a definição e 7 exemplos de respeitados(as) escritores(as) do gênero. Confira!
Características do microconto
Miniconto, minificção, microrrelato ou microconto? Não importa o termo utilizado, todos eles descrevem uma escrita literária breve. Aliás, essa característica é o único consenso relacionado ao formato. Afinal, as palavras e a maneira como elas são costuradas em uma narrativa reduzida devem ser precisas a fim de, em poucas linhas, causarem o entendimento ou efeito desejado.
Vemos assim que, apesar de o microconto não possuir uma denominação formal fixa (podendo ser tratado como gênero autônomo ou subgênero), há elementos que estabelecem seu estilo. Um deles, já mencionado, é a concisão — que envolve a quantidade de caracteres usados e, principalmente, a habilidade de sintetizar ideias em espaços pequenos.
Outra característica essencial para o funcionamento do modelo é a narratividade, ou seja, contar algo que faça sentido e tenha, explicita ou implicitamente, movimento: saia de um ponto e chegue a outro. Além disso, e em consonância com esses componentes, viabilizar uma abertura aos leitores e leitoras, pois só a compreensão deles(as) atesta o êxito da história enquanto miniconto.
7 exemplos de microcontos para se apaixonar pelo formato
Com o advento da internet e as possibilidades quase inesgotáveis de consumir conteúdo nela, a necessidade de chamar atenção em poucas palavras aumentou significativamente. Assim, quanto menor o texto e maior o sentido dele, mais chances de ser consumido pelo público. Por essa razão, inclusive, que as microficcções têm feito muito sucesso. Vejamos 7 exemplos que confirmam isso:
Fonte: Reprodução
1. Conto breve de uma artista plástica pernambucana
Caiu da escada e foi para o andar de cima.
Nesse miniconto, a escritora e artista plástica Adrienne Myrtes traz sentido para uma estrutura que gramaticalmente não poderia ser feita, tendo em vista que não é possível cair para cima. Brincando com termos opostos, entretanto, é criada uma narrativa que parece descrever um acidente que leva alguém à morte. Afinal, o “andar de cima” tratado só pode fazer referência ao Céu.
2. O microconto que Ítalo Calvino considerou insuperável
Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.
Esse é um dos contos breves mais famosos do mundo, que fez com que o renomado escritor Ítalo Calvino defendesse a necessidade de organizar um livro apenas com textos no formato. Ele considerou o pequeno grande verso do guatemalteco Augusto Monterroso inigualável. Isso porque as 37 letras contidas nele possibilitam muitas interpretações, como a que defende a existência de uma mensagem que diz que, mesmo depois de um longo processo (dormir), o passado, os problemas e as dores ainda acordarão conosco.
3. Um miniconto do maior contista brasileiro
A velha insônia tossiu três da manhã.
O curitibano Dalton Jérson Trevisan é denominado o maior contista brasileiro contemporâneo. Nesta mininarrativa, o autor transforma o sintoma de uma perturbação do sono em pessoa. Nesse sentido, o enredo se constrói porque a “velha insônia”, que é a personagem — e faz alusão a uma expressão de senso comum que nos remete à ideia de “velha conhecida” ou “aquela que eu conheço tão bem” — tosse às três da manhã. O horário descrito identifica um período do dia, a madrugada, em que pessoas insones costumam ficar acordadas.
4. Microconto do ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura
DISQUE-DENÚNCIA
— Cabeça?
— É.
— De quem?
— Não sei. O dono não tá junto.
O literato Marçal Aquino, que recebeu muitos prêmios nessa função, também trabalhou como repórter policial. Talvez essa atribuição tenha influenciado na escrita deste microconto. Nele, vemos a comicidade mórbida que ocorre quando alguém, que acredita atender uma pessoa cujo apelido é Cabeça, é informado sobre uma decapitação.
5. O pequeno realismo mágico de um escritor mexicano
A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.
Juan José Arreola é um escritor mexicano que se destaca por explorar a corrente literária conhecida como realismo mágico ou fantástico, que mescla a realidade com aspectos imaginários/fantasiosos. Neste miniconto, esse tipo de construção é identificado pelo uso da palavra “fantasma”, por exemplo, para narrar algo que faz referência à lembrança eterna de uma mulher que morreu ou uma maneira de abordar a saudade, já que a mulher amada do narrador aparece “nele”, que se trata como um lugar, mas pode ser “mente”, “coração”, “pensamento”.
6. O minidrama de Luiz Ruffato
ASSIM:
Ele jurou amor eterno.
E me encheu de filhos.
E sumiu por aí.
Luiz Ruffato transita sua escrita por diversos gêneros literários, como o romance, a poesia e o conto. Independentemente do enquadramento de seus textos, o autor mineiro é conhecido por realizar críticas sociais em seus trabalhos. Isso pode ser visto neste microconto, que fala sobre um fato bastante comum na composição da sociedade brasileira: mulheres que engravidam e são abandonadas pelos parceiros. A narrativa faz uma sacada muito sensível e indica que o amor eterno prometido acaba sendo o dos filhos, aludindo à famosa máxima de que “filhos são para sempre”.
7. Um dos 100 menores contos brasileiros
CRIAÇÃO
No sétimo dia, Deus descansou.
Quando acordou, já era tarde.
Para finalizar, a criação de Tatiana Blum. O miniconto recupera uma famosa passagem da Bíblia que diz: “Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou”. Ao acrescentar a continuação contando que “quando acordou, já era tarde”, Blum realiza uma crítica com muito humor, dando a entender que bastou Deus descansar para tudo dar errado e já ser possível consertar.
Conteúdo extra
Agora que você já sabe o que é uma micronarrativa, conheceu ótimos exemplos e viu, a partir do meu breve relato, que qualquer pessoa pode se arriscar a produzir uma, que tal receber orientações de como fazer a sua? Então acesse o podcast RUSGA – Cursos Para Escritores, com técnicas e sugestões sobre escrita e processo criativo.
O programa foi criado pelo escritor Vilto Reis – também responsável pela apresentação dos episódios. Entre os temas abordados, destacamos: como vencer a procrastinação; exemplos de microcontos e como escrever; e como publicar um livro. Para escutar o podcast, clique aqui.
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Boa leitura e até breve!