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O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho

Olá, leitor!

O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, é a obra-prima desse autor e um dos livros mais importantes do regionalismo fantástico da literatura brasileira. Publicado em 1964, o romance conta com uma linguagem inovadora e original, usando o regionalismo e a fantasia para trazer à tona questões acerca do ser humano, como amizade, ambição, coragem e loucura.

O livro narra a ascensão e queda do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, em uma estrutura que lembra as aventuras de Dom Quixote, repleta de episódios divertidos, referências a lendas brasileiras e resquícios da literatura de cordel. Assim, a obra traça um retrato da sociedade brasileira patriarcalista, explorando situações satíricas para tecer críticas sociais.

Como disse, rolava eu no capim, pronto a dar ao caso solução briosa, na hora em que o querelante apresentou aquela risada de pouco-caso e deboche:
– Quá-quá-quá…
Não precisou de mais nada para que o gênio dos Azeredos e demais Furtados viesse de vela solta. Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:
– São Jorge, Santo Onofre, São José!
Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado. Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquice que nunca cuidei que um lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria é que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei. Diante de tão firme deliberação, o vingativo mudou o rumo da guerra. Caiu de dente no pé de pau, na parte mais afunilada, como se serrote fosse:
– Raque-raque-raque.
Não conversei – pronto dois tiros levantaram asa da minha garrucha. Foi o mesmo que espalhar arruaça no mato todo. Subiu asa de tudo que era bicho da noite e uma sociedade de morcegos escureceu o luar. No meio da algazarra, já de fugida, vi o lobisomem pulando coxo, de pernil avariado, língua sobressaída na boca. Na primeira gota de sangue a maldição desencantava, como é de lei e dos regulamentos dessa raça de penitentes. No raiar do dia, sujeito que fosse visto de perna trespassada, ainda ferida verde, podia contar, era o lobisomem.

Resumo da obra

O Coronel e o Lobisomem, José Cândido de Carvalho

Fonte: Reprodução

O texto começa com a infância do coronel Ponciano, que foi criado pelo avô Simeão depois da morte dos pais. Pelo fato de o menino se interessar muito por política, mais do que seu avô gostaria, ele o coloca aos cuidados de Sinhá Azeredo. Mas, quando Ponciano completa 15 anos, a sinhá adoece e morre, o que dá início ao contato do menino com o sobrenatural, que passa a ver o fantasma da falecida.

Pouco tempo depois, o moço recebe do avô a patente de alferes. Logo em seguida, Ponciano se apaixona por Branca dos Anjos, porém o pai da moça a despacha para longe, com receio da má fama do rapaz. Num circo, ele acaba se envolvendo em uma luta com um valentão local, mas vence o adversário e é promovido a capitão. Ponciano, agora já um homem, é extremamente religioso, mas leva uma vida boêmia. Quando seu avô, que era coronel da Guarda Nacional falece, o jovem herda o título e as terras do senhor.

Ponciano muda-se para Sobradinho, fazenda que era do avô. Ele vence seus vizinhos em uma disputa territorial, com a ajuda do advogado Pernambuco Nogueira, e tem como empregados Antão Pereira, Saturnino, Janjão Caramujo e Juquinha Quintanilha, que atua como administrador da propriedade.

Devido a suas obrigações, o coronel não mantém mais residência fixa e anda cercado de seguranças, entre eles Sinhozinho Manco. Um de seus desafetos, Cicarino Dantas, contrata o pistoleiro José Mateus, que é preso pelo delegado Totonho Borges. Ponciano intercede pelo pistoleiro e, com o auxílio do tabelião Pergentino de Araújo, faz as pazes com Cicarino. O coronel também toma parte na compra do engenho de Paus Amarelos por seu primo Juca Azeredo.

Quando a aparição de uma onça passa a ameaçar a região, Ponciano se depara com o sobrenatural novamente, vendo o fantasma de seu avô. Logo que a onça é morta por um caboclo, o coronel o expulsa e fica com o êxito em seu lugar. Após curar seu primo de uma enfermidade, a fama de curandeiro também passa a fazer parte da reputação de Ponciano.

O prestígio do coronel aumenta, juntamente com sua barriga e sua barba branca, que lhe dá o aspecto de um lobisomem. Juju Bezerra, o dono da farmácia do local, sugere que Ponciano arranje uma amante, ideia que ele rejeita. Na cidade de Mata-Cavalo, o coronel conhece Isabel Pimenta. Incapaz de seduzi-la, Ponciano tenta se aproximar fazendo perguntas sobre a veracidade ou não das crendices do povo da região.

Quando, finalmente, toma coragem para pedir a moça em casamento, ela diz que precisa consultar sua família em Caju, que nega o pedido. Ponciano passa a ter pesadelos com animais e figuras religiosas, contrai malária e cai de cama por 2 meses. O coronel resolve passar alguns dias em Paus Amarelos, seu engenho, e, durante uma caçada noturna, encontra uma sereia no mar. Ele dispensa a criatura fantástica, mas resolve manter uma mecha do cabelo da moça.

De volta à fazenda, o coronel ganha de Serapião Lorena um galo de briga, a quem dá o nome de Pé de Pilão. Numa viagem para levar o galo a uma disputa, em Ponta Grossa dos Fidalgos, o coronel parte com a esperança de conhecer Dona Bebé, uma moça muito bonita que morava na região. A menina não aparece, mas o galo ganha a briga, numa reviravolta surpreendente.

Enquanto enfrenta mais desilusões amorosas, Ponciano fica sabendo das aparições de um lobisomem. O coronel acaba se encontrando por acaso com o monstro e o vence com as próprias mãos. Porém, ele jura se endireitar e Ponciano o deixa ir embora. Também vemos aqui a morte de Juju Bezerra, o que deixa o coronel muito abatido.

Digo, sem querer mostrar avantajados, que a desavença nem teve graça. Acabou nem bem era nascida. Montado em ódio de cobra velha, o gigantão avançou em salto traiçoeiro. Sou de dobradiça macia e ainda agora, tantos anos vividos, boto o dedão do pé bem avizinhado da barba, o que muito menino novo não faz. Com uma quebra de corpo, saí da marrada e lá seguiu o valente em carreira sem governo. Vi que era chegada a hora de despachar o bichão. Espalhando uns agregados do circo que infestavam o picadeiro, liberei o meu rabo de arraia, dos bem aprendidos no largo do Mercado. As botinas de Ponciano subiram no ar e sobreveio aquela batida seca acompanhada de berro descomunal. Quando abri o olho, escurecido pela cambalhota do rabo de arraia, o querelante, como galinha nas agonias, esperneava no chão do picadeiro. Mais de uma admiração rebentou na praça:
— Virgem Maria! O pé do alferes é pior do que coice de mula.
Não é preciso dizer que o circo veio abaixo. Era quem mais pulava e vivava o moço alferes. Fui levado em ombro aos confins da rua da Jaca. Meu avô, de sono pregado, acordou na algazarra de tanta boca. Tive de explicar ao velho o acontecido. Nem terminei o relato — Simeão correu comigo varanda afora. Lampião no alto, gritou que eu era um perdido:
— Vosmecê só aprende o que não presta. Letra de padre mesmo não entra em sua cabeça.
Levei reprimenda grossa. Mas na guerra do circo de cavalinhos, com elogios e cortesias, ganhei a patente de capitão, do que muito tive orgulho e fiz alarde.

Mudando-se para Campos, Ponciano torna-se um homem de negócios ambicioso, cada vez mais interessado por Dona Esmeraldina, esposa de seu advogado Pernambuco Nogueira. O sucesso no comércio aumenta e o coronel é forçado a deixar a fazenda sob responsabilidade de Juquinha. Dona Esmeraldina começa a ser assediada por Selatiel de Castro, o que provoca ciúmes em Ponciano que, para disfarçar, aproxima-se de Mocinha Cerqueira.

O galo do coronel desaparece, após ser visto em briga com uma cobra surucucu. Quintanilha deixa a administração da fazenda e muda-se para Capão, para trabalhar como comerciante. Baltasar da Cunha, por indicação de Esmeraldina, é posto em seu lugar. Ele, que era engenheiro, passa a gastar muito dinheiro para implantar melhorias na fazenda, que Ponciano consente sem hesitar, totalmente focado na mulher de Nogueira.

A situação se agrava quando Nogueira resolve se candidatar a deputado, o que leva mais dinheiro de Ponciano embora. Essas intrigas aumentam com a suspeita do caso de Dona Esmeraldina com Selatiel. Apesar de todo o dinheiro investido, Pernambuco perde as eleições. Desrespeitado e abandonado pelos amigos, Ponciano pensa em se afastar dos Nogueira, mas recebe um convite de Esmeraldina para visitá-los.

Chegando na casa dos amigos, ele descobre que estes viajaram, o que o leva a cair em tristeza profunda. Titinha, funcionária do primeiro hotel em que Ponciano se hospedara, faz mandingas para curá-lo e acaba se deitando com ele, sendo esta a primeira vez na história em que Ponciano consegue ter alguma sorte com as mulheres.

Sorte essa que não se repete em seus negócios. Sua fazenda é acometida por uma grande enchente e ele perde dinheiro no mercado de açúcar. Para pagar sua dívida com o banco, Ponciano vê-se obrigado a vender as terras de Mata-Cavalo. Ele também se afasta dos Nogueira.

Quase sem dinheiro, Ponciano vende seu relógio e corrente de ouro para cobrir as despesas do velório do amigo, João Fonseca. Em agradecimento, a viúva de João lhe dá um sabiá-laranjeira, o que leva o coronel às lágrimas. Ponciano é obrigado a deixar seu quarto no hotel e Titinha se volta contra ele.

O coronel muda-se para a casa de Juquinha e precisa penhorar seus anéis para pagar as últimas dívidas. Ele compra passagens de trem para voltar à fazenda do Sobradinho e é recebido por seus empregados mais fiéis. O coronel começa a delirar e morre, com cerca de sessenta anos. No além, ele se vê jovem novamente e encontra-se com outros que já faleceram. Está montado na mula de São Jorge e recebe a tarefa de enfrentar o próprio demônio, missão que aceita sem qualquer temor.

Fiquei cativado dela, enquanto a dona de casa (…) corria na caça do leque esquecido nos confins do quarto. Digo que não saí da Rua dos Frades de olho abanando. Foi Dona Esmeraldina sumir no corredor e eu firmar jurisprudência num certo estofado da menina Cerqueira. De cima dos meus dois metros, eu levava todas as vantagens. Era deixar escorrer a vista pela folga das rendas e disso tirar proveito. Como jacaré velho, choquei as partes expostas, a ponto da moça, tomada de encabulamento, retirar da brasa de Ponciano o naco infestado.

Estrutura da obra

O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, é uma obra com cerca de 300 páginas, divididas em 13 longos capítulos. A estrutura do romance é linear, mas o tempo da narrativa é psicológico, já que o protagonista conta suas histórias em primeira pessoa. Os acontecimentos remetem às primeiras décadas do século XX e ocorrem na região de Campos de Goytacazes e Rio de Janeiro.

O foco narrativo é em primeira pessoa do singular, com um narrador autodiegético, que conta os fatos de forma parcial. Além disso, o título da obra se refere a diversos assuntos abordados durante a narrativa. O termo “Coronel”, por exemplo, é utilizado propositalmente para remeter ao coronelismo e aos costumes provincianos de uma sociedade conservadora. O termo “Lobisomem”, por sua vez, tem  relação com a misticidade, o folclore e as lendas regionais.

Pelas prendas e esmerada guarnição traseira da menina Branca dos Anjos lá cheguei em trenzinho de ferro e lombo de canoa. Vi que o amigo capitão não foi exagerado no parecer.
Gargaú era bicho do mato, sem nenhuma aptidão para a cortesia. Fechei a cara e procurei a moça do meu bem-querer. A beleza dela morava em casa avarandada, com um jardim de bogari que ainda hoje, tantos anos passados e rolados, remexe em minhas lembranças. Mas foi o pai saber que o neto de Simeão estava na praça, para arrumar ligeirinho o baú e esconder a donzelice de dona Branca no fundo do sertão restinguento. Levou a filha e deixou aviso:
— Esse Ponciano de Azeredo Furtado é ladrão de moça solteira. Fogo nele.

Contexto Histórico

O contexto histórico da obra é incerto, já que a narrativa não ocorre em um recorte temporal específico. Contudo, analisando os detalhes da história, pode-se definir que o romance se passa nas primeira décadas do século XX. Assim, o final da obra acontece nos anos 1930, quando o coronelismo foi extinto após a Revolução de 1930.

Outro fator que comprova isso é o título de Guarda Nacional, que também foi extinto e absorvido pelo exército pouco antes da revolução, em 1922. Dessa forma, é possível determinar que a obra se passa nos primeiros anos da República, na época do coronelismo e do patriarcado, que eram os pilares de uma sociedade extremamente conservadora.

Relevância da obra

O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, destaca-se na literatura brasileira por sua originalidade, apresentando uma história cheia de superstições e crenças populares com críticas à estrutura social patriarcal e desigual do início do século XX. O romance também é uma das principais referências de obras modernistas que utilizam o regionalismo fantástico.

A linguagem e o estilo são outros fatores que fazem com que o livro seja de extrema importância para a literatura brasileira. No enredo, a linguagem é a principal arma do Coronel, que não possui tanta coragem e utiliza suas palavras para contar seus feitos e espalhar seu nome. Além disso, é a própria linguagem, ou seja, suas histórias, que resta ao protagonista após seu declínio amoroso, econômico e social.

Os lados épico e lírico da obra também são definidos pela linguagem, que mescla trechos pomposos e metáforas com humor e episódios cômicos. Os neologismos, as expressões populares e as marcas da oralidade também estão presentes, como é típico dos livros modernistas.

Enfim, O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, é considerado único na literatura brasileira, chegando a ser comparado com trabalhos de grandes nomes internacionais do realismo fantástico, como Mario Vargas Llosa e Gabriel Garcia Márquez.

A bem dizer sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da infância, com uns padres-mestres a dez tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, de palavra educada. Já morreu o antigamente em que Ponciano mandava saber nos ermos se havia um caso de lobisomem a sanar ou pronta justiça a ministrar. Só de uma regalia não abri mão nesses anos todos de pasto e vento: a de falar alto, sem freio nos dentes, sem medir consideração, seja em compartimento do governo, seja em sala de desembargador. Trato as partes no macio, em jeito de moça. Se não recebo cortesia de igual porte, abro o peito:
— Seu filho de égua, que pensa que é?
Nos currais do Sobradinho, no debaixo do capotão de meu avô, passei os anos de pequenice, que pai e mãe perdi no gosto o coronel do primeiro leite. Como fosse dado a fazer garatujações e desabusado de boca, lá num inverno dos antigos, Simeão coçou a cabeça e estipulou que o neto devia ser doutor de lei:
— Esse menino tem todo o sintoma do povo da política. É invencioneiro e linguarudo.

Até a próxima!

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