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O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo

Olá, leitor!

O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo, impresso pela primeira vez em 1982, foi uma forma agradável e diferente de mostrar um pouco do homem dos pampas e da cultura regional do sul brasileiro.

Pouquíssimos personagens da literatura nacional conseguiram alcançar a repercussão e a admiração popular que o analista de Bagé conquistou, já que, apenas 8 meses após seu lançamento, o livro teve mais de 160 mil exemplares vendidos, estabelecendo um recorde editorial difícil de ser batido por textos do mesmo gênero literário.

Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como “freudiano barbaridade”. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.

Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório, a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro (…). Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.

– Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço.

– Ai – diz o paciente.

– Toma um mate?

– Na-não… – geme o paciente.

– Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.

O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:

– Agora, qual é o causo?

– É depressão, doutor.

O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.

– Tô te ouvindo – diz.

– É uma coisa existencial, entende?

– Continua, no más.

– Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico…

– Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.

– E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.

– Pois vamos dar um jeito nisso agorita – diz o analista de Bagé, com uma baforada.

– O senhor vai curar a minha angústia?

– Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.

– Mudar o mundo?

– Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.

– Mas… Isso é impossível!

– Ainda bem que tu reconhece, animal!

– Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.

– Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.

– Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta…

– Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?

– Me alimento.

– Tem casa com galpão?

– Bem… Apartamento.

(…)

– Tá com os carnê em dia?

– Estou.

– Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.

– O Freud não me diria isso.

– O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?

– Não.

– Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.

– Só sei que estou deprimido e isso é terrível. É pior do que tudo.

Aí o analista de Bagé chega a sua cadeira para perto do divã e pergunta:

– É pior que joelhaço?

Caracterização do personagem: O Analista de Bagé

O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo

Fonte: Reprodução

A obra é uma coletânea de crônicas, mas a maioria das histórias é protagonizada pelo analista de Bagé, um psicanalista irreverente e divertido, que criou uma terapia revolucionária e inovadora, mas que acaba fazendo sucesso.

A terapia se chama Terapia do Joelhaço e, assim como a relação do analista com sua secretária, seu divã, sua sala de atendimento e alguns objetos usados por ele, é abordada constantemente no livro.

O psicanalista fica tão famoso e requisitado que resolve criar um método de triagem, aceitando apenas casos graves ou difíceis. Sempre oferece chimarrão a seus pacientes e os convida a se deitarem em seu pelego, que substitui o divã tradicional.

Alguns personagens são estereotipados, o que acaba criando um choque no leitor. Isso, com as piadas machistas e o tom homofóbico usado pelo protagonista, foi o que mais incomodou o público.

Contudo, não se sabe se a obra tinha como objetivo provocar uma reflexão crítica sobre esses assuntos ou se realmente era a opinião do autor. De qualquer forma, trata-se de uma leitura que flui naturalmente, trazendo elementos do sul do país que são pouco conhecidos.

O personagem se autointitula ortodoxo, mas tem uma maneira bem própria de aplicar os fundamentos da psicanálise. Quando o paciente é homem, ele o recebe com um joelhaço, um método que consiste em atingir os pontos fracos do analisado em questão. Assim, o leitor se diverte e se espanta com as histórias exageradas e as relações amorosas deste psicanalista.

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu…

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha…

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas…

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Análise do estilo das histórias presentes na obra

O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo, mostra a franqueza e a rude sinceridade do homem gaúcho. Por isso, os textos são paródicos, desmistificando o regionalismo e a psicanálise.

No livro, o autor retrata as relações analista/paciente de forma debochada e irônica, fazendo alusões ao regionalismo, à intelectualidade e à política nacional de modo irreverente e controverso.

Assim, o analista de Bagé é um dos personagens mais marcantes de Luis Fernando Veríssimo e suas histórias foram reeditadas e atualizadas diversas vezes.

Notas sobre o autor

Luis Fernando Veríssimo, nascido no dia 26 de setembro de 1936, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é filho de Érico Veríssimo, outro autor da literatura nacional. Ele morou com seus pais nos Estados Unidos entre 1943 e 1956 e, quando retornou ao Brasil, começou a trabalhar na editora Globo, em Porto Alegre.

Em 1962, Luis transferiu-se para a sede da editora, no Rio de Janeiro, onde exerceu as funções de tradutor e redator de reportagens comerciais. Após 5 anos, voltou para Porto Alegre, passando a trabalhar como revisor e redator de publicidade no Jornal Zero Hora. Pouco tempo depois, foi promovido a colunista diário e começou a escrever crônicas e tirinhas cômicas, descobrindo então sua vocação literária.

Seu trabalho se popularizou principalmente quando seu livro Comédias da Vida Privada foi adaptado para uma minissérie de TV. O livro O Analista de Bagé foi lançado em 1981 e, em 1995, chegou à centésima edição. Algumas de suas crônicas também foram publicadas nos Estados Unidos e na França, em coletâneas de autores brasileiros.

Luis Fernando Veríssimo é autor das seguintes obras:

  • A Mesa Voadora – 1978
  • Ed Mort e Outras Histórias – 1979
  • Sexo na Cabeça – 1980
  • O Analista de Bagé – 1981 (100 ª edição em 1995)
  • Outras do Analista de Bagé – 1982
  • O Analista de Bagé em Quadrinhos – 1983
  • Ed Mort Procurando o Silva – 1985
  • Ed Mort em Disneyworld Blues – 1987
  • O Jardim do Diabo – 1988
  • Ed Mort com a Mão no Milhão – 1988
  • Ed Mort em Conexão Nazista – 1989
  • Traçando Nova York – 1991
  • Traçando Paris – 1992
  • O Suicida e o Computador – 1992
  • Pai Não Entende Nada – 1993
  • Traçando Roma – 1993
  • Comédias da Vida Privada – 1994
  • Traçando Tóquio – 1995
  • Comédias da Vida Pública – 1895
  • Novas Comédias da Vida Privada – 1996

Atualmente, o autor escreve para os jornais Zero Hora, O Estado de São Paulo e O Globo e as tirinhas de sua autoria, chamadas As Cobras, são publicadas em vários veículos de comunicação.

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

— Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira… Mas acabou concordando.

— Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?

— Bem — disse o home — é que nós tivemos um desentendimento…

— Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

— Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

— Não fala comigo!

— Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

— Ela tem um problema de carência afetiva…

— Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

— Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e…

— Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

— Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

— Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

— O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

— Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

— Eu?

— Ela. Tu espera na salinha.

Sobre a crônica

A crônica é um gênero textual narrativo, que tem por base fatos que acontecem em nosso cotidiano. Assim, o leitor costuma se identificar com as ações dos personagens e as histórias são agradáveis e espontâneas.

O texto geralmente é curto e de linguagem simples. A sátira, a ironia, o coloquialismo, a exposição dos sentimentos e a reflexão também são traços marcantes desse gênero.

Veja de forma esquematizada as características da crônica:

• Texto curto;
• Aborda fatos do cotidiano;
• Pode ter caráter humorístico, crítico, satírico e/ou irônico;
• Tem um recorte temporal bem delimitado;
• Usa a oralidade e o coloquialismo;
• Usa linguagem simples.

O LIXO

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
– Bom dia.
– Bom dia.
– A senhora é do 610.
– E o senhor do 612.
– É.
– Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente…
– Pois é…
– Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo…
– O meu quê?
– O seu lixo.
– Ah…
– Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena…
– Na verdade sou só eu.
– Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
– É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar…
– Entendo.
– A senhora também…
– Me chame de você.
– Você perdoe minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim…
– É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra…
– A senhora… Você não tem família?
– Tenho. Mas não aqui.
– No Espírito Santo.
– Como é que você sabe?
– Alguns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
– É. Mamãe escreve todas as semanas.
– Ela é professora?
– Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
– Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
– O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
– Pois é…
– No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
– É.
– Más notícias?
– Meu pai. Morreu.
– Sinto muito.
– Ele já estava bem velhinho. Lá no sul. Há tempos não nos víamos.
– Foi por isso que você recomeçou a fumar?
– Como é que você sabe?
– De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
– É verdade. Mas consegui parar outra vez.
– Eu, graças a Deus, nunca fumei.
– Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo…
– Tranqüilizantes… Foi uma fase. Já passou.
– Você brigou com o namorado, certo?
– Isso também você descobriu no lixo?
– Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
– É, chorei bastante, mas já passou.
– Mas hoje ainda tem uns lencinhos…
– É que eu estou com um pouco de coriza.
– Ah.
– Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
– É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
– Namorada?
– Não.
– Mas há alguns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
– Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
– Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
– Você já está analisando o meu lixo!
– Não posso negar que seu lixo me interessou.
– Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
– Não! Você viu meus poemas?
– Vi e gostei muito.
– Mas são muito ruins!
– Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
– Se soubesse que você iria ler…
– Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
– Acho que não. Lixo é domínio público.
– Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com as sobras dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
– Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que…
– Ontem, no seu lixo…
– O quê?
– Me enganei, ou eram cascas de camarão?
– Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
– Eu adoro camarão.
– Descasquei, mas não comi. Quem sabe a gente pode…
– Jantar juntos?
– É.
– Não quero dar trabalho.
– Trabalho nenhum.
– Vai sujar a sua cozinha.
– Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
– No seu lixo ou no meu?

Até a próxima!

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