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Resumo de livro: O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo

Olá, leitor(a)!

O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo, foi impresso pela primeira vez em 1981 e mostra, com muito humor e ironia, um pouco sobre o homem dos pampas e a cultura regional do Sul brasileiro.

Pouquíssimos personagens da literatura nacional conseguiram alcançar a repercussão e a admiração popular que o analista de Bagé conquistou. O livro teve mais de 160 mil exemplares vendidos, estabelecendo um recorde editorial difícil de ser batido por textos do mesmo gênero literário.

Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como ‘freudiano barbaridade’. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.

Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório, a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro (…). Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.

(…)

– Tá com os carnê em dia?

– Estou.

– Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.

– O Freud não me diria isso.

– O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?

Caracterização do personagem: o analista de Bagé

O Analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo

Fonte: Reprodução

A obra é uma coletânea de crônicas, mas a maioria das histórias é protagonizada pelo analista de Bagé, um psicanalista irreverente, que criou uma terapia revolucionária e inovadora: a Terapia do Joelhaço. Seu divã e sua sala de atendimento, assim como sua relação com a secretária, são abordados constantemente no livro.

O psicanalista fica tão famoso e requisitado que resolve criar um método de triagem, aceitando apenas casos graves ou difíceis. Sempre oferece chimarrão a seus pacientes e os convida a se deitarem em seu pelego (tapete gaúcho, feito de pele de carneiro ou ovelha, usado em arreios), que substitui o divã tradicional.

Alguns personagens são estereotipados, o que causa certo desconforto nos(as) leitores(as). Além disso, o protagonista faz muitas piadas machistas e apresenta um tom homofóbico. Não se sabe, contudo, se a obra tinha como objetivo provocar uma reflexão crítica sobre esses assuntos ou se realmente era a opinião do autor.

De qualquer forma, trata-se de uma leitura fluida, trazendo elementos do sul do país que são pouco conhecidos. O personagem se autointitula ortodoxo, mas tem uma maneira bem própria de aplicar os fundamentos da psicanálise.

Quando o paciente é homem, ele o recebe com um joelhaço, método que consiste em atingir as partes íntimas do analisado em questão. Assim, o leitor se diverte e se espanta com as histórias exageradas e as relações amorosas deste psicanalista.

O Coojornal foi o jornal da Cooperativa dos Jornalistas do Rio Grande do Sul com sede em Porto Alegre, que funcionou do final dos anos 7O até meados dos anos 8O.

Coojornal – Qual é a sua escola? Segue os ensinamentos de Freud, Jung, Reich ou Honório Lemes?

Analista de Bagé – Pues, sou freudiano de carregar bandeirinha. Mas não desprezo os demás. No meu consultório tenho uma guampa esculpida com as caras de Adler e Jung. A Dona Melanie Klein também, era china de se apresentar pra mãe. Coisa mui especial. Já esse tal de Reich, nem pra tatá bo…

Reich, pra mim, é prenúncio de cuspida.

Análise do estilo das histórias na obra

O Analista de Bagé, de Luis Fernando Veríssimo, destaca-se por retratar a relação analista/paciente de forma jocosa, fazendo alusões ao regionalismo, à intelectualidade e à política nacional. A obra apresenta a identidade do homem gaúcho estereotipado, desde os costumes aos preconceitos, e, ao mesmo tempo, aborda temas de relevância mundial, como é o caso da psicanálise.

O protagonista da obra é o maior representante disso, pois se trata de um psicanalista que se pretende freudiano ortodoxo, mas com hábitos e intervenções marcadas por sua origem, Bagé. Curiosamente, Bagé é um município brasileiro do pampa gaúcho que faz fronteira com o Uruguai, o que, de certa forma, indica a linha tênue entre “regional” e “mundial” apresentada na obra.

Os contrastes tornam a narrativa intrigante, por exemplo, a imagem que se faz de um psicanalista, supostamente sério e intelectual, é quebrada ao encontrar um profissional que usa como técnica o “joelhaço” e como divã, o pelego. Nesse sentido, Veríssimo não só desmistifica a psicanálise como também aproxima o(a) leitor(a) de sua obra.

Ao usar uma linguagem acessível e acontecimentos do cotidiano mesclados ao humor, estrutura característica da crônica, o autor sentencia o próprio sucesso. O Analista de Bagé foi reeditado inúmeras vezes, transformado em quadrinhos e encenado no teatro.

Na sala de espera Lindaura esperou meia hora antes de entrar no consultório.

Tinha ordens do analista de Bagé sobre como agir de acordo com os sons que ouvia. ‘Resfolego, não liga. Gemido, vai pra casa. Grito, te prepara. Mobília quebrada, entra’. Decidiu entrar. Encontrou o megalômano de Carazinho inconsciente embaixo do divã virado, com só metade do bigode. Depois o analista de Bagé explicou:

– Doença é uma coisa. Convencimento é outra.

Sobre a crônica

Marcada por abordar fatos comuns com pequenas reflexões, a crônica é um gênero textual narrativo que prioriza os acontecimentos do cotidiano. Isso faz com que haja uma fácil identificação, por parte do(a) leitor(a), com as ações e as histórias dos(as) personagens apresentados(as).

Tanto na literatura quanto no jornalismo, o gênero estabelece uma linguagem simples e um texto curto. Além disso, é muito comum encontrar em crônicas a sátira, a ironia, o coloquialismo e a exposição dos sentimentos.

De forma esquematizada, as características da crônica são: texto curto; fatos do cotidiano; caráter humorístico, crítico, satírico e/ou irônico; recorte temporal bem delimitado; uso da oralidade e o coloquialismo; e a linguagem simples.

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

Notas sobre o autor

Luis Fernando Veríssimo, nascido no dia 26 de setembro de 1936, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é filho de Érico Veríssimo, outro autor de destaque da literatura nacional. O cronista morou com os pais nos Estados Unidos entre 1943 e 1956 e, quando retornou ao Brasil, começou a trabalhar na editora Globo, em Porto Alegre.

Em 1962, Luis transferiu-se para a sede da editora, no Rio de Janeiro, onde exerceu as funções de tradutor e redator de reportagens comerciais. Após 5 anos, voltou para Porto Alegre, passando a trabalhar como revisor e redator de publicidade no Jornal Zero Hora. Pouco tempo depois, foi promovido a colunista diário e começou a escrever crônicas e tirinhas cômicas, descobrindo sua vocação literária.

Seu trabalho se popularizou principalmente quando seu livro Comédias da Vida Privada foi adaptado para uma minissérie de TV. O livro O Analista de Bagé foi lançado em 1981 e, em 1995, chegou à centésima edição. Atualmente, o autor escreve para os jornais Zero Hora, O Estado de São Paulo e O Globo. Já as tirinhas de sua autoria, As Cobras, são publicadas em vários veículos de comunicação.

Onde anda o analista de Bagé? Não sei. As notícias são desencontradas. Há quem diga que ele se aposentou, hoje vive nas suas terras perto de Bagé e se dedica a cuidar de bicho em vez de gente, só abrindo exceção para eventuais casos de angústia existencial ou regressão traumática de fundo psicossomático entre a
peonada da estância.

(…)

Outros dizem que o analista morreu, depois de tentar, inutilmente, convencer o
marido de uma paciente que banhos regulares de jacuzzi a dois num motel
faziam parte do tratamento.

E há os que sustentam que o analista continua clinicando, na Europa , onde a
sua terapia do joelhaço, conhecida como ‘Thérapie du genou aux boules, ou le
methode gaúchô’, tem grande aceitação e ele só tem alguma dificuldade com a
correta tradução de ‘Pos se apeie nos pelego e respire fundo no más, índio
velho’, no começo de cada sessão. Não sei.

Parece que o interesse pela literatura foi passado de pai para filho, não é mesmo? Comente o que mais chamou sua atenção no nosso resumo!

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Boa leitura e até a próxima!

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