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Nova Antologia Poética, de Mário Quintana

Olá, leitor!

Na obra Nova Antologia Poética, de Mário Quintana, estão reunidos cerca de 200 poemas, incluindo os mais marcantes da carreira do autor que, assim como Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, foi um dos poetas que se destacou na segunda metade do século XX, recebendo grande reconhecimento popular.

Com uma seleção muito cuidadosa, Nova Antologia Poética traz ao leitor um panorama da escrita de Quintana. Os poemas que compõe o livro, seguindo os traços típicos do autor, transitam por temas do cotidiano e sugerem reflexões sobre questões como o passado e a morte.

Mário Quintana se expressa de maneira simples, lírica e afável, criticando o estilo de vida de uma sociedade apressada, que não se permite viver de maneira plena e lamenta o passado quando está perto da morte. O próprio autor faz isso em diversos poemas, sempre em tons críticos e realistas, apesar da beleza e delicadeza constantes em seus versos.

A Rua dos Cataventos

 

Da vez primeira em que me assassinaram,

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha.

 

Hoje, dos meu cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.

Arde um toco de Vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

 

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada!

 

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,

A luz de um morto não se apaga nunca!

Conceito de Antologia Poética

Nova Antologia Poética, Mário Quintana

Foto: Reprodução

Antologia poética é um conceito que se refere a uma coleção selecionada por um autor a partir de critérios pessoais. A palavra “antologia” vem do grego anthologias e significa “coleção de flores”. Então, antologia, do ponto de vista literário e artístico, seria um conjunto formado por várias obras, sejam elas de cunho dramaturgo, cinematográfico ou até mesmo musical.

A questão central das antologias é explorar a mesma temática, período ou autoria, gerando, assim, uma característica similar em todas as produções da coleção.

Espelho

 

Por acaso, surpreendo-me no espelho:

Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (…)

Parece meu velho pai – que já morreu! (…)

Nosso olhar duro interroga:

“O que fizeste de mim?” Eu pai? Tu é que me invadiste.

Lentamente, ruga a ruga… Que importa!

Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre

E os teus planos enfim lá se foram por terra,

Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!

Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste…”

Estrutura da obra

Nova Antologia Poética, de Mário Quintana, é uma obra marcada por grande diversidade de temas, incluindo recortes como infância, passado, lugares especias para o autor, memória, vida, progresso, cotidiano, morte, ironia, crítica social e tristeza. O livro também destaca algumas características da escrita de Quintana, como:

  • Individualidade;
  • Nostalgia;
  • Simplicidade;
  • Praticidade poética;
  • Enigmatismo poético;
  • Sonoridade;
  • Musicalidade;
  • Humanismo;
  • Intimismo;
  • Delicadeza;
  • Senso de humor;
  • Humor irônico;
  • Liberdade poética.

Mário Quintana é considerado um poeta de romantismo tardio. Assuntos como a infância e a nostalgia, por exemplo, são típicos da escola literária romântica. Quanto à métrica, o autor usa versos decassílabos, rimas alternadas e interpeladas, recursos de sonetos clássicos e referências românticas e simbolistas.

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Análise dos poemas de Mário Quintana

Os temas voltados ao cotidiano são abordados por meio de versos delicados e com tênues críticas sociais, feitas de forma lúdica e sensível. Assim, por trás da aparente ingenuidade dos versos esconde-se uma rede de alusões, metáforas e sutilezas que são facilmente entendidas pelos leitores. Essa é, inclusive, uma das razões da popularidade do poeta.

Esperança

 

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E — ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana sempre foi despreocupado com a crítica literária e fazia poesia porque sentia necessidade. A escrita de Quintana é caracterizada por humanismo em seu conteúdo e simplicidade em sua forma. Nos poemas, melancolia, pessimismo, ternura, misticismo, humor e ironia se misturam com sentimentalismo e nostalgia.

Atraído pelo realismo fantástico, ou mágico, e pelo surrealismo, Quintana procura interligar essas ideias com o mundo  em que vive, fazendo-o por meio de metáforas, imagens, sinestesias, associações improváveis e vários outros recursos da poesia moderna. Sua obra se destaca por seu aspecto sintético e mostra a influência de autores como Alberto de Oliveira, Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo.

Segunda canção de muito longe

 

Havia um corredor que fazia cotovelo:

Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…

Mas vamos fechar os olhos

E pensar numa outra cousa…

 

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,

Puxando a água fresca e profunda.

Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.

Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,

E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.

 

Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.

Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo,

Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas…

Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos…

As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,

O chiar das chaleiras…

 

Onde andará agora o pince-nez da tia Tula

Que ela não achava nunca?

A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho,

Que saía em folhetim no Correio do Povo!…

A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.

Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.

E ela nem se voltou para trás!

A obra Nova Antologia Poética mostra um escritor com lembranças da infância, que variam entre a melancolia e a ironia. A poesia de Mário Quintana também traz um humor típico do homem comum, sem traços racionais e intelectualizados.

Canção para uma valsa lenta

 

Minha vida não foi um romance…

Nunca tive até hoje um segredo.

Se me amas, não digas, que morro

De surpresa… de encanto… de medo…

 

Minha vida não foi um romance…

Minha vida passou por passar.

Se não amas, não finjas, que vivo

Esperando um amor para amar.

 

Minha vida não foi um romance…

Pobre vida… passou sem enredo…

Glória a ti que me enches a vida

De surpresa, de encanto, de medo!

 

Minha vida não foi um romance…

Ai de mim… Já se ia acabar!

Pobre vida que toda depende

De um sorriso… de um gesto… um olhar…

A poesia de Mário Quintana mistura ingenuidade e simplicidade com pessimismo e ironia, construindo  uma tensão entre sentimentos opostos. Alguns temas recorrentes na obra de Quintana são a morte, a vida, um certo desprezo pelas grandes metrópoles, a defesa da boemia e a falta que sentia das pequenas cidades e vilas.

Os poemas

 

Os poemas são pássaros que chegam

não se sabe de onde e pousam

no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo

como de um alçapão.

Eles não têm pouso

nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhoso espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti…

Notas sobre o autor

A obra poética de Mário Quintana interpreta cada momento de um jeito muito pessoal. Ele costumava dizer que sua vida estava em seus poemas e que nunca escreveu uma vírgula que não fosse uma confissão.

Com o nome de batismo de Mário Miranda Quintana, o autor nasceu na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906. Ele estreou na literatura em 1940, com seus sonetos, e foi elogiado por autores como Carlos Drummond de Andrade, que falou que amava os poemas de Quintana, e Manuel Bandeira, que escreveu que a poesia de Mário retratava o frêmito e o mistério da vida.

Contudo, Mário Quintana era irônico diante de sua obra e de si mesmo, mantendo uma postura tímida e introspectiva. O poeta veio a falecer em 5 de maio de 1994, tendo publicado uma dezena de livros no Brasil e no exterior.

Por sua linguagem simples, Mário Quintana é uma porta de entrada para os leitores que querem ter contato com a poesia moderna. Nova Antologia Poética, por exemplo, é uma obra de valor literário que possui, ao mesmo tempo, um caráter simples e popular.

O Silêncio

O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres, peixes abrindo e fechando a boca num aquário
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios…
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneiros, procissões, tudo isso…
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro…

Até a próxima!

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