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Normas Urbanas de Prestígio: você sabe o que é?

Olá,

A língua, e no nosso caso a língua portuguesa, possui diversas maneiras de se apresentar. Podemos dizer a mesma coisa de muitas formas diferentes. E há inúmeros fatores que influenciam tanto em nossa capacidade de expressão quanto na forma em que expressamos. A nossa idade, nossa classe social, nossa profissão, nossa localização geográfica, tudo isso são exemplos de fatores que determinam nossa forma de usar a língua.

Diante disso, percebemos que a língua apresenta variações, que em linguística chamamos de variações linguísticas. Uma dessas variações são as normas urbanas de prestígio.

Normas urbanas de prestígio

Normas Urbanas de Prestígio

Fonte: Reprodução

Segundo o dicionário online Michaelis, normas urbanas de prestígio são “os falares urbanos utilizados por aqueles que desfrutam de maior prestígio social, cultural e político dentro de uma comunidade linguística e geralmente estão associados à escrita e à tradição literária”.

As normas urbanas de prestígio englobam o que chamamos de norma culta da língua. Quando falamos em norma culta da língua, referimo-nos à cultura letrada. Ou seja, geralmente as pessoas que utilizam essa variedade linguística são aquelas que apresentam um maior grau de escolaridade.

Como a língua apresenta inúmeras variações, os indivíduos mais escolarizados falam e escrevem de forma diferenciada se comparados aos indivíduos com baixo nível de escolarização. Aqueles que passaram mais tempo na escola ou fizeram uma faculdade, consequentemente, tiveram mais contato com textos e com pessoas que fazem o uso da norma culta.

Contudo, temos que ser cautelosos para não julgar uma variedade da língua como melhor que a outra, pois a finalidade da linguagem é unicamente a comunicação. Ou seja, se o indivíduo consegue se expressar de maneira que seja entendido pelos outros, isso significa que ele conhece a gramática da língua que usa para se expressar.

Portanto, quando falamos em normas urbanas de prestígio, o termo prestígio não deve ser entendido como qualificador dessa variação em detrimento das outras. Usamos o termo prestígio apenas porque os falantes dessa variedade linguística gozam de prestígio social (escritores, jornalistas, médicos, advogados, etc.).

Vale lembrar também que a língua culta não costuma ser usada o tempo todo mesmo por quem a domina, pois as normas urbanas de prestígio são normalmente usadas em situações formais. Isto é, o indivíduo que tem domínio sobre a norma culta não deve usá-la todo o tempo, mas sim em contextos que o exigirem, como em uma conversa com seu chefe, com alguém de alto cargo no governo, em uma entrevista de emprego, em um discurso, etc.

Além disso, é importante ressaltar que as normas urbanas de prestígio pertencem à variedade ensinada nas escolas devido à sua proximidade à gramática normativa.

Você viu neste texto que as normas urbanas de prestígio são uma variedade linguística da nossa língua. Você viu também que as normas urbanas de prestígio recebem este nome pelo fato de que geralmente as pessoas que a usam são aquelas que de alguma forma têm algum prestígio na sociedade.

Agora que você chegou até aqui, responda os exercícios a seguir para testar seus conhecimentos.

Um grande abraço, e até a próxima!

Exercícios

1 – (UERJ)

O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, nos põe em xeque, paralisa alguns e atiça a criatividade de outros. Uma pessoa em estado de pavor é dona de uma energia extra capaz de feitos incríveis.

Um amigo nosso, quando era adolescente, aproveitou a viagem dos pais da namorada para ficar na casa dela. Os pais voltaram mais cedo e, pego em flagrante, nosso Romeu teve a brilhante ideia de pular, pelado, do segundo andar. Está vivo. Tem hoje essa incrível história pra contar, mas deve se lembrar muito bem da vergonha.

Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, mas na qual também vi meu medo me deixar em maus lençóis.

Estava caminhando pelo bairro quando resolvi explorar umas ruas mais desertas. De repente, vejo um menino encostado num muro. Parecia um menino de rua, tinha seus 15, 16 anos e, quando me viu, fixou o olhar e apertou o passo na minha direção. Não pestanejei. Saí correndo. Correndo mesmo, na mais alta performance de minhas pernas.

No meio da corrida, comecei a pensar se ele iria mesmo me assaltar. Uma onda de vergonha foi me invadindo. O rapaz estava me vendo correr. E se eu tivesse me enganado? E se ele não fosse fazer nada? Mesmo que fosse. Ter sido flagrada no meu medo e preconceito daquela forma já me deixava numa desvantagem fulminante.

Não sou uma pessoa medrosa por excelência, mas, naquele dia, o olhar, o gesto, alguma coisa no rapaz acionou imediatamente o motor de minhas pernas e, quando me dei conta, já estava em disparada.

Fui chegando ofegante a uma esquina, os motoristas de um ponto de táxi me perguntaram o que tinha acontecido e eu, um tanto constrangida, disse que tinha ficado com medo. Me contaram que ele vivia por ali, tomando conta dos carros. Fervi de vergonha.

O menino passou do outro lado da rua e, percebendo que eu olhava, imitou minha corridinha, fazendo um gesto de desprezo. Tive vontade de sentar na guia e chorar. Ele só tinha me olhado, e o resto tinha sido produto legítimo do meu preconceito.

Fui atrás dele. Não consegui carregar tamanha bigorna pra casa. “Ei!” Ele demorou a virar. Se eu pensava que ele assaltava, ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. Insisti: “Desculpa!” Ele virou. Seu olhar agora não era mais de ladrão, e sim de professor. Me perdoou com um sinal de positivo ainda cheio de desprezo. Fui pra casa pelada, igual ao Romeu suicida.

Denise Fraga

A crônica é um gênero textual que frequentemente usa uma linguagem mais informal e próxima da oralidade, pouco preocupada com a rigidez da chamada norma culta.
Um exemplo claro dessa linguagem informal presente no texto está em:

a) O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, (l. 1)

b) Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, (l. 6)

c) De repente, vejo um menino encostado num muro. (l. 8-9)

d) ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. (l. 23)

2 – (ENEM – 2012)

A substituição do haver por ter em construções existenciais, no português do Brasil, corresponde a um dos processos mais característicos da história da língua portuguesa, paralelo ao que já ocorrera em relação à ampliação do domínio de ter na área semântica de “posse”, no final da fase arcaica. Mattos e Silva (2001:136) analisa as vitórias de ter sobre haver e discute a emergência de ter existencial, tomando por base a obra pedagógica de João de Barros. Em textos escritos nos anos quarenta e cinquenta do século XVI, encontram-se evidências, embora raras, tanto de ter “existencial”, não mencionado pelos clássicos estudos de sintaxe histórica, quanto de haver como verbo existencial com concordância, lembrado por Ivo Castro, e anotado como “novidade” no século XVIII por Said Ali. Como se vê, nada é categórico e um purismo estreito só revela um conhecimento deficiente da língua. Há mais perguntas que respostas. Pode-se conceber uma norma única e prescritiva? É válido confundir o bom uso e a norma com a própria língua e dessa forma fazer uma avaliação crítica e hierarquizante de outros usos e, através deles, dos usuários? Substitui-se uma norma por outra?

CALLOU, D. A propósito de norma, correção e preconceito linguístico: do presente para o passado. In: Cadernos de Letras da UFF, n. 36, 2008. Disponível em: www.uff.br. Acesso em: 26 fev. 2012 (adaptado).

Para a autora, a substituição de “haver” por “ter” em diferentes contextos evidencia que

a) o estabelecimento de uma norma prescinde de uma pesquisa histórica.

b) os estudos clássicos de sintaxe histórica enfatizam a variação e a mudança na língua.

c) a avaliação crítica e hierarquizante dos usos da língua fundamenta a definição da norma.

d) a adoção de uma única norma revela uma atitude adequada para os estudos linguísticos.

e) os comportamentos puristas são prejudiciais à compreensão da constituição linguística.

 

 

Gabarito

1 – B

2 – E

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