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Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo

Olá, leitor!

Publicada em 1855, Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, foi publicada apenas após três anos de seu falecimento, sob o pseudônimo de Job Stern.

Nesta obra, o jovem escritor Manuel Antônio Álvares de Azevedo, nascido no ano de 1831 em São Paulo, descendente de uma ilustre família, tornou-se um escritor e poeta adepto do romantismo, mais especificamente, da segunda fase do romantismo brasileiro – geração Mal do Século –, sendo considerado por muitos um gênio precoce.

Noite na Taverna logo se tornou um clássico da literatura brasileira, mesmo contendo contos fantasiosos, macabros e escabrosos.

O livro trata-se de uma tempestuosa e escura noite, onde jovens boêmios se encontram com mulheres mundanas e bêbadas, que de tão bêbadas adormeceram por sobre as mesas.

Por causa de um desafio, cada um deles conta uma narrativa verdadeira e estranha que tenha vivido. Portanto, dessas narrativas a obra é composta, é dividida em sete capítulos.

Álvares de Azevedo viveu um sucesso do qual pouco pôde desfrutar, foi um sucesso relâmpago, pois, faleceu aos vinte e um anos de idade, vítima de tuberculose, ele foi um dos escritores mais jovens a fazer sucesso tão representativo, tão precoce foi seu sucesso quanto sua partida.

Noite na Taverna é uma narrativa (conto ou novela) constituída em sete partes, contendo os nomes de cada personagem e suas epígrafes, como subtítulos que antecedem as narrativas, que são contadas em uma taverna.

Na última parte há o entrelaçamento da história de Johann e de alguns personagens.

“— Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma!? pobres doidos! e porque a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal posse tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por que também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! Não mil vezes! a alma não é como a lua, sempre moça, nua e bela em sue virgindade eterna! a vida não e mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso eu vo-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu a creia um pouco; pelo platonismo, não!”

Resumo da obra

Noite na Taverna

Fonte: Canal do Ensino

Mais do que os elementos satânicos e romanescos que condimentam, existem também muitos outros elementos que tornam a história mais envolvente, a corrupção, adultério, incesto, necrofilia, traição, assassinato por vingança, antropofilia.

A obra se impõe pela sua estrutura, o narrador introduz o cenário, sendo ele em terceira pessoa, a situação, as personagens praticamente desaparecem dando lugar a outros narradores, que são as próprias personagens, que contam em primeira pessoa, uma a uma os episódios de suas vidas de aventuras.

Na última narrativa, na roda dos moços, a presença física de personagens mencionados numa narrativa anterior faz com que todo o ambiente irreal e fantástico dos contos de legitime como real ou verídico.

Obra escrita em tom muito emotivo, Noite na Taverna, antecipa em muitos aspectos a narração da prosa moderna: a dupla narração e suas influências, a liberdade cênica, a mistura do fantástico ao real conferem a atualidade da obra, mesmo com toda a atmosfera da época.

1ª Parte – Uma Noite do Século

Essa primeira parte da obra pode ser considerada como uma espécie de apresentação das personagens, do ambiente da taverna, do clima boêmio da época em que viviam.

Iniciam-se debates acerca de suas opiniões sobre as mulheres, Deus e liberdade. É notório o clima vampiresco e sombrio que, não bastasse ao próprio ambiente, as personagens sempre incitam ainda mais.

Dessa forma, desafiam-se a contar as histórias mais macabras que cada um deles já havia testemunhado dando início a relatos sobre incesto, necrofilia e várias outras atrocidades.

2ª Parte – Solfieri

Jovem alcoólatra, seu relato começa em Roma, ele contou que viu um vulto de uma mulher que o atraiu instantaneamente. Sem pensar em nada começa a seguir o vulto, mesmo sem saber para onde ele vai, ele perde suas memórias por um tempo e na manhã seguinte acorda em um cemitério, onde passou a noite debaixo de chuva e frio.

Intrigado com o acontecido, ele parte e retorna a sua rotina. No entanto, nenhum amor, nenhum beijo o satisfazia, sentia a necessidade de encontrar a mulher do vulto.

Durante um ano ele foi atormentado por essas lembranças, um certo dia, após uma longa orgia e extremamente bêbado ele foi parar novamente no cemitério, diante de um caixão aberto.

Olhou para dentro do caixão, recolheu a defunta, percebeu que era a mulher cujo vulto o perseguia. Ele tomou-a em seus braços, a despiu e fez amor com ela.

Levou a mulher para sua casa e descobriu que na verdade ela não estava morta, ela era uma mulher depressiva e sofria de catalepsia. Depois que ela acordou teve alguns delírios, após dois dias veio a falecer.

Solfieri fez em sua própria casa um túmulo para ela e ainda mandou que fizessem uma estátua de cera da mulher que tanto amou.

3ª Parte – Bertram

Bertram era um dinamarquês, o relato dele girava em torno de uma mulher chamada Ângela que, segundo ele mesmo, o teria levado a bebedeira e a matar seus próprios amigos.

Mesmo com muitos desencontros eles sempre tentavam manter um caso amoroso, mesmo quando Ângela casou-se com outro homem e tornou-se mãe.

Certa vez, Bertram recebe um chamado de sua amada Ângela, chamado por sinal, desesperado, chegando até ela, percebe que a mulher havia matado seu marido e filho, o motivo seria que ele tinha descoberto as traições da mulher, então, ela queria fugir com Bertram.

Eles fogem juntos, mas Ângela por sua vez, se envolve em várias orgias e o abandona, então, eles seguem caminhos diferentes. Bertram tenta se matar, mas acaba sendo salvo por um navio e acaba se apaixonando pela mulher do comandante.

Em meio a uma tempestade, o navio naufraga e apenas os três sobrevivem, o comandante, sua esposa e Bertram, o comandante e sua mulher tiram a sorte para decidir quem morrerá.

O comandante perde e acaba servindo de alimento por dias para seus próprios traidores, até que a mulher enlouquece e acaba morta por Bertram, que seria posteriormente salvo mais uma vez, agora por um navio inglês.

4ª Parte – Gennaro

Um jovem belo e também um pintor talentoso, mas incapaz de respeitar os sentimentos alheios. Tornou-se um aprendiz do pintor Godofredo Wlash, que o levou para sua própria casa e criou como um filho.

Godofredo era casado com uma bela mulher chamada Nauza, ela tinha apenas 20 anos, morava também com sua filha de 15 anos, Laura, que era fruto de seu primeiro casamento.

Laura sendo pura e inocente, se apaixonou por Gennaro, ele a desonrou em três meses, então, Laura implorou que ele se casasse com ela, mas ele se negou, pois, estava apaixonado por Nauza.

Muito triste, Laura sente que perdeu a razão de viver, fica fraca e morre. Gennaro, então, se torna amante de Nauza, certa noite, Godofredo o convida para sair e partem rumo a um penhasco.

O pintor que era muito experiente deixa claro que sabia das traições que Gennaro havia feito por duas vezes, tanto com Laura quando com Nauza.

Gennaro é jogado do despenhadeiro, mas é salvo por ter ficado preso a uma árvore. Foi socorrido por camponeses, decide voltar pra se vingar de Godofredo, mas o encontra morto em sua casa junto com Neuza, ele a havia matado e se suicidou em seguida.

“Quando cheguei a casa do mestre achei-a fechada. Bati… não abriram. O jardim da casa dava para a rua: saltei o muro: tudo estava deserto e as portas que davam para ele estavam também fechadas. Uma delas era fraca: com pouco esforço arrombei-a. Ao estrondo da porta que caiu só o eco respondeu nas salas. Todas as janelas estavam fechadas: nem uma lamparina acesa. Caminhei tateando até a sala do pintor. Cheguei lá, abri as janelas e a luz do dia derramou-se na sala deserta. Cheguei então ao quarto de Nauza, abri a porta e um bafo pestilento corria daí. O raio da luz bateu em uma mesa. Junto estava uma forma de mulher com a face na mesa, e os cabelos caídos: atirado numa poltrona um vulto coberto com um capote. Entre eles um copo onde se depositara um resíduo polvilhento. Ao pé estava um frasco vazio. Depois eu o soube – a velha da cabana era uma mulher que vendia veneno e fora ela decerto que o vendera, porque o pó branco do copo parecia sê-lo…”

5ª Parte – Claudius Hermann

Um homem persistente e obstinado, e agiu de forma condizente a sua personalidade quando viu uma bela mulher cavalgando diante dele, trata-se da duquesa Eleonora.

A partir de então, passou a persegui-la, comprou de um de seus criados a chave de seu castelo, e todas as noites passava em seus lábios uma droga para que ela não acordasse enquanto ele a possuía.

Isso ocorreu durante um mês, até que ele resolveu raptá-la. A duquesa acordou, entrou em desespero para voltar a seu castelo, mas desonrada ninguém a perdoaria.

No entanto, chegando certo dia em sua casa, a encontrou morta junto a seu marido traído e abandonado, que ela havia encontrado com finalidade de dar fim a vida dos dois.

6ª Parte – Johann

Era uma jovem que tinha vicio em jogatina e em álcool, sua história começa em Paris, quando por atritos por conta de jogo, decide duelar com seu amigo Arthur.

O amigo Arthur pede que, caso ele morra, Johann entregue a sua mãe uma carta que ele tem em seu bolso, e retira um bilhete com os dados para um encontro marcado.

Como era previsto, Arthur morre e Johann decide se passar por ele nesse encontro. Johann vai ao encontro bêbado, como sempre, e leva a namorada de Arthur para cama, mas ao sair do quarto no escuro ele é atacado por um homem.

Ele mata o homem e o leva para a luz para saber de quem se tratava. Em desespero ele nota que matou seu próprio irmão. Quando ele acende as luzes percebe que havia feito amor com sua própria irmã.

7ª Parte – Último Beijo de Amor

Após cada um deles contar seus relatos, todos caem no sono. Entra uma mulher vestida de preto com uma lanterna na mão, parecia procurar alguém. Quando ela avista Johann crava um punhal em seu pescoço e o mata.

Era sua própria irmã, que havia sido desonrada por ele, desde então, tornou-se prostituta e resolveu se vingar dele por destruir sua vida. A moça desperta Arnold, ele a reconhece rapidamente, lhe pede um beijo de despedida e se mata ao lado do corpo de Johann.

Em desespero e horrorizado, Arnold crava um punhal em seu próprio peito e cai em cima do corpo da prostituta.

“Uma luz raiou súbito pelas fisgas da porta. A porta abriu-se. Entrou uma mulher vestida de negro. Era pálida; e a luz de uma lanterna, que trazia erguida na mão, se derramava macilenta nas faces dela e lhe dava um brilho singular aos olhos. Talvez que um dia fosse uma beleza típica, uma dessas imagens que fazem descorar de volúpia nos sonhos de mancebo. Mas agora com sua tez lívida, seus olhos acesos, seus lábios roxos, suas mãos de mármore, e a roupagem escura e gotejante da chuva, disséreis antes — o anjo perdido da loucura.”

Estrutura da obra

A obra é uma espécie de continuação da peça Macário, que, ao seu término, apresenta a personagem Macário olhando para uma janela de uma taverna, com alguns jovens conversando. Portanto, assim se inicia o Noite na Taverna.

A estrutura desse livro de contos assemelha-se a outras obras em prosa que se constituem com histórias dentro da própria história narrada, ou seja, cheio de elementos de metalinguagem, tais, como: Decameron, de Bocaccio; os Contos de Canterbury, de Chaucer; e famosa obra As Mil e Uma Noites, de diversos autores.

Sendo assim, a obra é dividida em sete partes, ou seja, sete capítulos, onde cada um deles apresenta-se com os jovens na taverna a contarem histórias estranhas que tenham vivenciado.

Tempo e Espaço da obra

Noite na Taverna apresenta-se em três tempos narrativos diferentes, eles são:

  • A conversa entre os jovens na taverna, que acontece no tempo presente do passado da narrativa de todos os capítulos (do 1 ao 7);
  • Contudo, as histórias narradas nos capítulos 2, 3, 4, 5 e 6, variam entre o presente da narrativa, que já está sendo contado no passado, mas com voltas ao tempo por meio de flashbacks, que se caracterizam em passado dentro do presente do passado.
  • O terceiro tempo se caracteriza por meio dos diálogos, que se caracterizam no presente da narrativa, sendo falados pelas personagens no momento em que conversam entre uma história e outra, ou seja, no tempo presente em que tudo acontece, mesmo sendo uma história narrada no passado.

Pode parecer confuso, então, para simplificar, pode-se caracterizar como presente, presente do passado e passado.

A única menção ao tempo e espaço da narrativa acontece por meio de uma referência a um dia de 18 de junho de 1815, em Waterloo, numa menção à Napoleão e suas batalhas.

Contudo, não existe data ou localização precisa para se caracterizar o tempo e espaço dessa obra.

Em relação ao tempo da narrativa, pode-se destacar que a relação de tempo dos fatos narrados se caracteriza através do tempo cronológico impreciso – o tempo em que os jovens estão na taverna contando suas histórias que, como já dissemos, é impossível de se caracterizar – e o tempo psicológico, retratado através da memória e dos flashbacks.

O espaço principal, por sua vez, é caracterizado pela taverna, onde os jovens se encontram para conversar e começam a contar suas histórias medonhas. Sendo assim, o espaço físico principal é a caverna.

Contudo, em relação ao espaço psicológico, os espaços se tornam múltiplos, pois cada história é narrada em um espaço diferente. Os espaços das histórias dentro da obra, são: Waterloo, Bélgica, taverna em Portugal, túmulo de Dante na Itália, Inglaterra, Grécia e muitos outros não especificados.

Sendo assim, pode-se dizer que o tempo e o espaço dentro da obra Noite da Taverna, são guiados pelas questões sociais, econômicas, psicológicas e morais das próprias personagens que estão contando as histórias.

Foco narrativo, narrador e linguagem

O foco narrativo da obra é caraterizado em terceira e primeira pessoa, ou seja, o início da história nos é apresentado através de um narrador que presencia os jovens reunidos na taverna, contando isso em terceira pessoa.

Quando a narrativa passa para cada um dos personagens, o foco narrativo passa para a primeira pessoa, ou seja, cada um dos personagens conta seus relatos através da sua própria voz.

Isso faz com que a obra tenha diversos narradores, o que influencia diretamente na linguagem que, apesar de se caracterizar por uma linguagem mais difícil e culta, cheio de referências, metáforas e nuances da segunda fase do romantismo pessimista e macabro, cada personagem coloca um pouco de si mesmo quando conta a sua história, decido a miscigenação cultural dos jovens na taverna, pois cada um deles possui diferentes aspectos de diferentes países.

Relevância da obra

Noite da Taverna é a obra que melhor representa a segunda fase do romantismo brasileiro – geração Mal do Século – na literatura brasileira.

As influências byronianas são claramente percebidas dentro do contexto desse livro, portanto, Alvares de Azevedo toca em diversos tabus e critica algumas questões sociais brasileiras, sempre se utilizando de personagens egoístas e narcisistas, que buscam a satisfação dos seus desejos acima de tudo, ou seja, caracteriza a principal característica da sociedade: a de um passar por cima do outro seja por quais forem os motivos.

As histórias desse livro são carregadas de fantasia, contudo, sempre regadas a coisas medonhas, tais, como: necrofilia, canibalismo, fratricídio, incesto, traição, morte, assassinato, dentre outros. Isso traz à tona a questão do abismo humano, os abismos da moral humana.

Devido a tudo isso, Noite da Taverna é um dos maiores representantes da segunda geração do romantismo brasileiro em prosa, bem como, por ter sido uma obra que repercutiu e chamou à atenção dos leitores da década de 1850.

Sendo assim, através dessa obra, Álvares de Azevedo consagrou-se ainda mais no Hall de grandes escritores nacionais, com seu talento e maestria na poesia romântica e pela sua prosa repleta de pessimismo, ceticismo, melancolia e morbidez, ao mesmo tempo em que brinca com o macabro e o sublime, com o divino e o demoníaco, com o sagrado e o profano.

“Entre aquele homem brutal e valente, rei bravio ao alto mar, esposado, como os Doges de Veneza ao Adriático, à sua garrida corveta — entre aquele homem pois e aquela madona havia um amor de homem como palpita o peito que longas noites abriu-se às luas do oceano solitário, que adormeceu pensando nela ao frio das vagas e ao calor dos trópicos, que suspirou nas horas de quarto, alta noite na amurada do navio, lembrando-a nos nevoeiros da cerração, nas nuvens da tarde… Pobres doidos! Parece que esses homens amam muito! A bordo ouvi a muitos marinheiros seus amores singelos: eram moças loiras da Bretanha e da Normandia, ou alguma espanhola de cabelos negros vista ao passar sentada na praia com sua cesta de flores, ou adormecida entre os laranjais cheirosos, ou dançando o fandango lascivo nos bailes ao relento! Houve-as… junto a mim, muitas faces ásperas e tostadas ao sol do mar que se banharam de lágrimas…”

Até logo!

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