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Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

Olá, leitor!

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é um texto, inicialmente feito para o teatro, que se tornou um dos maiores poemas dramáticos da terceira fase do modernismo brasileiro, tendo sido escrita em 1944 e finalizada em 1945, ano em que foi publicada.

Nessa obra, o autor retrata a vida do sertanejo nordestino brasileiro e a sua constante sina de ter que se mudar constantemente devido à seca para encontrar condições de vida melhores.

Sendo assim, trata-se de um poema que fala sobre os retirantes, utilizando-se de elementos poéticos que se assemelham muito a Literatura de Cordel, bem como utilizando-se de questões folclóricas pernambucanas, sempre a utilizar-se da antítese entre a vida e a morte.

Portanto, Morte e Vida Severina, narra a história de Severino, retirante nordestino, que decide seguir sozinho até à Zona da Mata em busca de condições melhores, bem como, em busca de um sentido a sua vida.

Os versos desse poema dramático possuem rimas em alguns momentos, contudo, o autor não se preocupa em rimar sempre, porém, a métrica dos versos em redondilha maior (com 7 sílabas métricas) é rigorosamente aplicada ao decorrer de todo o poema.

As questões de vida e morte são retratadas de diversas formas ao decorrer da narrativa, em sua viagem, a personagem se depara com a morte de diversas formas diferentes, causadas principalmente pela seca, e mais outras sensações ligadas a esse tema, tais, como: desespero, solidão, miséria, fome, medo, descaso, entre outras.

Assim, essa peça teatral em poema faz críticas sociais acerca do descaso e falta de preocupação do governo quanto essa situação que afeta milhares de vidas no nordeste brasileiro.

João Cabral de Melo Neto utiliza-se de uma poética perspicaz ao construir essa peça teatral através desse poema dramático magnífico, criando assim uma das pérolas da literatura nacional, como também, consagrando esse texto como uma de suas maiores obras.

“— O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mais isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas

e iguais também porque o sangue,

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte Severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte Severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

alguns roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.”

Resumo da obra

morte_e_vida_severina

Em Morte e Vida Severina, deparamo-nos com a história de Severino, um retirante nordestino, que decide viajar sozinho do sertão de Pernambuco em direção à Zona da Mata, litoral do Recife, com a intenção de encontrar um trabalho digno e melhores condições de vida.

Durante a sua trajetória, Severino depara-se com outros nordestinos pelo seu caminho, passando pelas mesmas privações e dificuldades impostas pela seca do sertão.

A morte está implícita durante toda a narrativa, aparecendo de diversas formas durante o enredo, sendo muitas delas causadas principalmente pela seca, mas, também, por outros fatores que logo no início da narrativa nos são confidenciados: doença, fome, desigualdade, violência e injustiças sociais.

Logo no começo de sua jornada, Severino encontra dois homens a carregarem o corpo de um rapaz que havia sido assassinado por ordem de latifundiários, colocando em cheque a questão do coronelismo e impunidade de uma forma sutil, porém, verdadeira.

Então ele assume um dos postos desses coveiros e segue viagem ajudando a carregar o corpo do rapaz assassinado chegando a narrar até mesmo o enterro desse homem.

Após esse episódio, Severino segue o seu caminho, sempre acompanhando pela morte, pois encontra em seu caminho diversos acontecimentos onde a temática da morte é colocada em evidência e, assim, percebe que a própria morte é a maior empregadora do sertão, pois a ela estão envolvidos diretamente muitos empregos, entre eles: farmacêuticos, coveiros, médicos, rezadeiras, etc. Fato que faz com que a morte, ironicamente, seja quem mais dá condições de subsistência para muitas pessoas no sertão.

A certo momento depara-se até mesmo com a própria morte do rio, que vai diminuindo e secando devido à seca. O rio servia como seu guia de viagem, pois ele decidiu seguir o curso do rio para chegar até o litoral de Recife.

Sendo assim, a morte está intrínseca em diversos aspectos da obra, inclusive através dessas metáforas.

Quando chega à Zona da Mara, onde o verde da natureza predomina e tinha esperanças de escapar da morte Severina, percebe que até mesmo ali existe morte, finalmente entendendo que não há maneiras de se fugir dela e que a morte a ninguém poupa.

Entretanto, também tem uma epifania ao perceber que a persistência da vida está por toda parte e que isso faz com que ela possa vencer a morte, pois a vida sempre dá um jeito de existir.

Mesmo assim, sente que para os homens a persistência é inútil, que não vale a pena viver no sofrimento da miséria. Assim, entristecido, não vendo muito sentido na vida, decide-se então por se jogar da ponte do Rio Capibaribe e acabar de vez com o sofrimento de sua vida, pois acredita que viver é um ato sem sentido.

Nesse momento, depara-se com um mestre carpina, ou seja, um carpinteiro, e pergunta a ele sobre a vida, questionando se a melhor saída não seria acabar de vez com o sofrimento.

O carpinteiro por usa vez não consegue responder de fato a ele sobre o sentido da vida e nem responder as suas indagações sobre se vale a pena viver ou não.

Contudo, ao falar sobre o nascimento do seu filho, ele faz Severino perceber que a renovação da vida é a melhor resposta para o próprio sentido da vida, ou seja, a persistência da vida, a dádiva de viver, é a melhor resposta para o próprio ato de viver.

“— Nunca esperei muita coisa,

digo a Vossas Senhorias.

O que me fez retirar

não foi a grande cobiça;

o que apenas busquei

foi defender minha vida

de tal velhice que chega

antes de se inteirar trinta;

se na serra vivi vinte,

se alcancei lá tal medida,

o que pensei, retirando,

foi estendê-la um pouco ainda.

Mas não senti diferença

entre o Agreste e a Caatinga,

e entre a Caatinga e aqui a Mata

a diferença é a mais mínima.

Está apenas em que a terra

é por aqui mais macia;

está apenas no pavio,

ou melhor, na lamparina:

pois é igual o querosene

que em toda parte ilumina,

e quer nesta terra gorda

quer na serra, de caliça,

a vida arde sempre com

a mesma chama mortiça.

Agora é que compreendo

por que em paragens tão ricas

o rio não corta em poços

como ele faz na Caatinga:

vive a fugir dos remansos

a que a paisagem o convida,

com medo de se deter,

grande que seja a fadiga.

Sim, o melhor é apressar

o fim desta ladainha,

o fim do rosário de nomes

que a linha do rio enfia;

é chegar logo ao Recife,

derradeira ave-maria

do rosário, derradeira

invocação da ladainha,

Recife, onde o rio some

e esta minha viagem se fina.”

Estrutura da obra

Morte e Vida Severina é uma peça teatral, em forma de poema dramático, mas classificado pelo próprio autor como um Auto de Natal em forma de Cordel. Sendo assim, não se apresenta em capítulos, mas, sim, em pequenos atos que compõe o enredo da narrativa da trajetória de Severino.

Narrador, foco narrativo e linguagem

A narrativa dessa obra é feita por Severino, personagem principal, que conta a sua jornada pelo sertão pernambucano em busca de melhores condições de vida.

Por se tratar de um texto teatral rimado, a obra é caracterizada através de monólogos da própria personagem com foco narrativo em primeira pessoa (narrador autodiegético) e com os diálogos dele com outras personagens que aparecem em seu caminho.

A linguagem, por sua vez, é caracterizada de forma regionalista, utilizando-se de termos e expressões populares dos nordestinos da região de Pernambuco.

Tempo

Não existem elementos, ou seja, datas, que determinem o tempo específico em que se passa a história dessa obra. Contudo, a narração dos fatos segue em ordem cronológica, respeitando a ordem dos acontecimentos da jornada de Severino.

Espaço

O espaço principal da obra é o sertão pernambucano, fazendo menção a diversos lugares daquela região, tais, como: Zona da Mata, serra da Costela, Pernambuco, Paraíba, Recife, Rio Capibaribe, entre outros.

O espaço está ligado diretamente com a obra, devido a seca, que faz com que essa região seja extremamente árida, um lugar onde a vida dificilmente consegue habitar. Aí encontramos o paralelo entre espaço, que é o sertão nordestino, com a seca e a própria morte.

O espaço dessa obra também tem importância na parte crítica, ao revelar os descasos dos governantes para com aquela região, bem como com as situações de miséria e injustiças sociais.

Principais personagens

As principais personagens da obra Morte e Vida Severina, são:

  • Severino retirante

Personagem narrador que conta sua jornada de retirante, indo do sertão do Pernambuco até a o litoral pernambucano. Representa todos os nordestinos que precisam sair das suas terras natais por causa da seca, procurando lugares com melhores condições de vida e oportunidades para que possam sobreviver e subsistir.

A própria personagem simboliza a luta pela vida, a persistência em viver e a vontade de vencer a morte, mesmo não percebendo isso ao decorrer da narrativa.

A busca pelo sentido da vida e a duvida sobre se vale a pena viver mesmo em meio de tanto sofrimento também caracterizam esse personagem de uma forma bem humana e fiel às provações enfrentadas por todos os retirantes nordestinos.

  • Mestre Carpina (carpinteiro)

Personagem secundário que encontra Severino à beira da ponte do rio Capibaribe prestes a saltar da vida para a morte, ou seja, suicidar-se.

Representa o nordestino perseverante, cheio de esperanças mesmo em meio a uma vida de sofrimento. Não á toa que é esse personagem que tenta fazer com que Severino não se mate, como também, é quem consegue mostrar ao retirante os motivos do porquê continuar a viver.

Representa na peça o pai do menino Jesus, por isso, é carpinteiro.

  • Recém-nascido (filho do carpinteiro)

Personagem secundária que aparece somente no final da narrativa para trazer esperança e salvação à Severino, simbolizando a renovação e a persistência da vida.

Representa o próprio menino Jesus, que vem ao mundo para trazer salvação e expiação dos pecados das pessoas, bem como, esperança e renovação, tal como a vida.

Sobre o autor

Nascido em 9 de janeiro de 1920, na cidade de Recife, Pernambuco, João Cabral de Melo Neto fez parte da terceira geração da fase modernista, sendo um dos poetas mais importantes dessa escola literária, ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Através de sua poética revolucionária, que misturava diversos elementos de diversos tipos de vanguardas artísticas em seus textos, esse poeta era caracterizado pelo seu rigoroso senso estético, ao mesmo tempo em que mesclava tendências surrealistas com a poesia e o cancioneiro popular regionalista brasileiro.

Devido ao seu rigor com a estrutura do poema, passou a ser conhecido como o poeta arquiteto, devido ao imenso cuidado que tinha com a estética e a estrutura dos seus poemas. Contudo, esse apelido também foi propagado pelo fato desse escritor ter se formado em engenharia.

Agraciado com diversos prêmios literários, dentre eles, o único brasileiro a ganhar o Nobel Americano (Prêmio Neustadt) e o Prêmio Camões, o maior prêmio literário em língua portuguesa. Além disso, também chegou a ser cogitado como um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1999, ano em que morreu.

Contexto histórico

O contexto histórico da época dessa obra aborda o desenvolvimentismo eminente proposto pelo governo de Juscelino Kubitscheck, que promoveu um grande entusiasmo cultural e intelectual, que reverberou pelas produções artísticas de diversas áreas.

Além disso, o fim da Ditadura de Getúlio Vargas promoveu uma abertura social maior, possibilitando assim que a literatura pudesse se engajar em reproduzir os aspectos sociais e regionalistas dos Brasil, sempre focando em temáticas sociais para trazer diversos assuntos ignorados ou esquecidos à tona.

Agora, em relação ao fator histórico-cultural, pode-se dizer que Morte e Vida Severina é muito importante ara a terceira fase do modernismo brasileiro (geração de 45), ao abordar a vida miserável dos nordestinos a sofrerem com a seca e com o descaso dos governantes.

Relevância da obra

Morte e Vida Severina é muito relevante para a literatura brasileira devido a construção poética que o autor fez através do drama de vida dos retirantes nordestinos, como também, por fazer uma exaltação à tradição sertaneja.

Nessa peça teatral, escrita para ser um Auto de Natal, João Cabral de Melo Neto utilizou-se de diversas influencias do realismo espanhol – o autor trabalhou e diversas cidades espanholas em sua carreira na diplomacia – o que fez com que ele bebesse muito das inspirações dos ideais realistas da época, que abordavam questões acerca do materialismo e contra as concepções do espiritualismo e do idealismo.

Todas essas vanguardas possibilitaram com que esse poeta conseguisse enxergar com mais clareza a situação do nordeste brasileiro, fazendo-o então perceber que poderia retratar tais problemas sociais através dessa obra e de muitos outros dos seus poemas.

Morte e Vida Severina é considerada como uma espécie de ode ao pessimismo, contudo, bem fiel à realidade de vida dos nordestinos, abordando a indiscutível capacidade desse povo de se adaptar as condições miseráveis de vida dos retirantes.

O realismo retratado através desse poema dramático/peça teatral/auto de natal, demonstra de forma verdadeira e crua a situação miserável em que vivem os retirantes nordestinos, utilizando-se desses fatores para tecer críticas sociais ao descaso do governo com essas pessoas e trazendo à tona a questão da seca e a sua influência na vida do povo nordestino.

Por esses e outros motivos, Morte e Vida Severina é a obra-prima de João Cabral de Melo Neto, como também, um dos melhores representantes dos ideias modernistas brasileiros.

“— Severino, retirante,

deixe agora que lhe diga:

eu não sei bem a resposta

da pergunta que fazia,

se não vale mais saltar

fora da ponte e da vida;

nem conheço essa resposta,

se quer mesmo que lhe diga

é difícil defender,

só com palavras, a vida,

ainda mais quando ela é

esta que vê, Severina

mas se responder não pude

à pergunta que fazia,

ela, a vida, a respondeu

com sua presença viva.

E não há melhor resposta

que o espetáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida,

ver a fábrica que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida;

mesmo quando é assim pequena

a explosão, como a ocorrida;

como a de há pouco, franzina;

mesmo quando é a explosão

de uma vida Severina.”

Até logo!

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