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Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu

Olá, leitor!

Morangos Mofados é a quinta obra de Caio Fernando de Abreu, escrita em 1982, e ganhou o prêmio de melhor livro do ano pela Isto É. A narrativa é dividida em três partes: O Mofo, Os Morangos e Morangos Mofados.

Por vezes, é confuso de entender, quase como se o escritor contasse uma história com partes que se desenvolvem apenas em seu íntimo. Com estilos de escrita diverso, passa pelo fluxo de pensamento, narrativa ora em primeira pessoa ou terceira pessoa e diálogos.

A maior parte de seus personagens não tem nome, quase como se fossem projeções do próprio autor.

A tragédia crua do mundo hostil e a ansiedade constante são pontos frequentes por toda a obra.

Sri Lanka, quem sabe? ela me pergunta, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável ela continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade, e você em Sri Lanka, bancando o Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras & abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodca nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha-de-centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trept, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sociopolíticos existenciais e bababá em comum só podiam era dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta.

Resumo da Obra

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu

Fonte: Reprodução

Parte I – O MOFO

DIÁLOGO

Duas personagens desconhecidas conversam. O diálogo começa com a primeira afirmando que a segunda é sua companheira. Toda a conversa se desenrola com a segunda personagem inquirindo se havia um significado oculto por trás dessa afirmação. A primeira personagem nega durante toda a conversa. A discussão perdura e parece não ter fim, estendendo-se até mesmo depois do final do conto.

SOBREVIVENTES

O segundo canto relata a despedida de um casal em crise. É escrito em forma de fluxo de pensamento, misturando os pensamentos de ambos, sobretudo da mulher. Após mais uma tentativa de sexo frustrada, eles recordam toda sua vida a dois, tentando ver onde erraram. Ela chega à conclusão que foi o excesso. Excesso de cultura. Excesso de experiências, ditas edificantes, que foram, pouco a pouco, minando o desejo de um pelo outro.

O texto deixa a entender que ambos levam uma vida confortável, tendo viajado pelo mundo e morando em uma casa bem aparelhada. O homem chega a cogitar deixá-la para ir morar no Sri Lanka, fato que ela apoia, conclamando que talvez seja a solução. Porém, ele parece se arrepender e fica o tempo todo tentando reverter o que disse. A mulher diz que o desejo arrefeceu, mas não foi por falta de esforço. Eles tentaram de tudo. Todas as crenças, terapias e soluções propostas. Desde simpatias até relacionar-se com outras pessoas de ambos os sexos. Porém, nada funcionou. Ela pede que ele coloque Ângela Ro Ro para tocar e ambos partem para o banheiro vomitar a vodka barata que tomavam. Ela o põe para fora do apartamento, para que vá para o Sri Lanka. E deseja que ele encontre algum sentido na viagem. Ela mergulha nos próprios sentimentos e a música continua.

O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO

O conto se passa em um apartamento, dividido por quatro amigos de longa data. Nenhum dos personagens é apresentado ao leitor, que não sabe nem os nomes deles. Os quatro haviam desistido de sair naquele sábado, devido à falta de dinheiro.

Um deles (identificado como rapaz da blusa vermelha) entra na sala alardeando que Urano havia entrado em Escorpião. Nenhum dos outros três parece dar muita atenção a ele. Um deles alterna entre a janela e a coleção de discos (que escutam no volume baixo, para não atrair a atenção do síndico). A mulher ler livros e os menciona diversas vezes na conversa. O outro foca sua atenção nos restos da galinha que sobrou do almoço.

O rapaz da blusa vermelha não se faz de rogado e cita diversas referências de astrologia para mostrar a importância do evento. Como seus amigos resolvem não lhe dar atenção, o rapaz tenta se jogar da janela. Seus amigos o acodem e resolvem fazer algo para acalmar seus ânimos. Deitam-no na cama e preparam um chá. Desta vez, colocam o disco que ele gosta em volume alto. Enquanto os quatro dividem um cigarro de maconha, o síndico berra à porta, mandando abaixar o som. Nisso, a mulher retruca, dizendo que não poderá abaixar porque é um dia especial: Urano tinha entrado na casa de Escorpião.

PELA PASSAGEM DE UMA GRANDE DOR

Lui está sozinho em seu apartamento, experimentando os efeitos estuporantes que sucedem um pico de cocaína. Ele recebe a ligação de uma velha amiga. Ela tenta a todo custo convidá-lo para sair ou, de alguma forma, juntar-se a ela. Lui desconversa e muda de assunto o tempo todo. Por fim, ela, frustrada, desliga e Lui experimenta o arrependimento por não ter aceitado o convite.

ALÉM DO PONTO

Narrado pelo protagonista, em forma semelhante a um fluxo de pensamento. Porém um pouco mais organizado. O protagonista fora chamado por outro homem para ir à sua casa. O conto começa com ele andando na chuva, portando uma garrafa de conhaque e um maço de cigarros. Segundo ele, não chamou um táxi porque, assim, não teria como comprar o maço ou a garrafa. Também não levava um guarda-chuva, pois tinha o hábito de perdê-los sempre.

Enquanto andava, seus pensamentos bifurcavam em duas direções. Imaginava como seria sua chegada, sendo recebido com jazz e uma mesa posta, num ambiente agradável. A outra direção apontava para uma autoimagem que ele teimava em esconder. Não queria demonstrar sua falta de sono e de dinheiro. Ou seu descuido com a própria saúde. Também pensava em um ponto da caminhada em que esqueceria do esforço necessário para manter o passo. Tinha a necessidade de superar esse ponto.

Em meio à caminhada, cai e quebra a garrafa, encharcando-se de conhaque e sujando-se de lama. Chega na casa do outro homem. Bate por diversas vezes na porta e não é atendido. Tenta chamar pelo dono da casa, mas se esquece do nome.

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse o táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos, beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pelos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d’água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.

OS COMPANHEIROS (UMA HISTÓRIA EMBAÇADA)

Uma história que se passa num momento em suspenso. O próprio narrador esclarece que ir direto aos fatos, os faria perder o próprio sentido. A história tem lugar dentro de uma casa rodeada por morcegos, apesar de ninguém saber porque eles a rodeiam. Somos apresentados aos personagens De Camisa Xadrez, Moreninha Brejeira, Médica Curandeira, Jornalista Cartomante e Ator Bufão. O texto passa boa parte do tempo narrando os encontros destes personagens, cada vez mais distantes e desinteressantes uns para os outros. Junta-se a eles o Marinheiro Frustrado. O texto vai listando alguns dos pequenos orgulhos pessoais de cada personagem. Essas descrições transcorrem até o momento em que, em pleno verão, um vento frio sopra. E todos parecem preparar-se para algum tipo de ação que está por vir.

TERÇA-FEIRA GORDA

A história se inicia numa terça-feira de Carnaval, onde o personagem principal e narrador encontra outro homem, enquanto bebia, durante as comemorações. Ele tem a impressão de conhecê-lo de algum lugar.

Envolvem-se, beijam-se e tomam algum entorpecente sintético. Em meio às hostilidades das outras pessoas, resolvem sair de onde estão e ir à praia.

Lá, retomam a ação. Porém, em meio ao sexo, são surpreendidos por uma turba enfurecida. Talvez formada pelas mesmas pessoas de antes. O protagonista consegue fugir. Mas seu par não tem a mesma sorte.

EU, TU, ELE

A narrativa, ao que parece, começa com uma despedida. Narra os encontros da segunda e terceira pessoa com outro homem e parece sentir inveja ou ciúmes deles.

Conforme o conto avança, percebemos que as duas primeiras pessoas são duas facetas do narrador. Fica um pouco confuso se o homem e a terceira pessoa são a mesmas personagens.

Durante a despedida, notamos que a primeira pessoa é a personalidade que ele mantém para si. A segunda, a que usa dentro de sua casa, com as pessoas com as quais se abre. E a terceira, mais dura, é empregada na rua. Descobrimos que ele é um ator. E sua partida é para disputar um papel em uma peça.

LUZ E SOMBRA

No último conto da primeira parte, o narrador parece estar em uma espécie de prisão. Não conseguimos decifrar se parte é narrativa ou se são devaneios. Ou se tudo é delírio. Ele escreve uma espécie de súplica em forma de carta para alguém que não identificamos. Talvez seja um apelo do inconsciente para a consciência o libertar daquela existência sem sentido.

Lhe são fornecidos cigarros, pão e água diariamente. Por vezes, vomita sobre os suprimentos e não os consome. Existem três cenários: a sala-prisão, uma escadaria, onde ele se senta, ainda adolescente, e um quarto, quando ainda bebê é atacado por morcegos. O conto termina com a mesma súplica por libertação com que começa, dessa vez misturada com um pouco de esperança.

Queria pensar que é esse o sentido, que será esse o depois. Não sei se posso. Há dias, como hoje, em que por mais que minta sequer con – Dá-me mais vinho, porque a vida é nada – sigo ver você, seus membros longos que o vento rouba dos panos. Só Fernando Pessoa: “Cancioneiro” escuto os dentes rangendo e os ruídos internos do meu próprio corpo. Tudo isso me cega. Leva-me daqui, eu peço. E cruzo as duas mãos sobre o peito, como se sentisse frio ou afastasse demônios. Aperto o rosto contra o vidro. Duas pombas, cada uma delas bica um de meus olhos. Tal – Quem conhece Deus – vez um dia consigam quebrar o vidro. Sem querer, lembro de uma antiga sente as coisas internas história de fadas: duas pombas furavam os olhos de duas irmãs más, você e é amigo dos morangos lembra? Havia fadas, naquela história. Não há ninguém dançando sobre que nunca morrem. Os telhados. Nunca houve. Para não ver o cinza que se transforma em Henrique do Vaile:

“Os morangos são eternos” verde, olho para além deles.

PARTE II – OS MORANGOS

TRANSFORMAÇÕES (UMA FÁBULA)

A fábula parece toda uma alegoria para a depressão. O personagem está lá, mas não está. Em seu lugar, encontra-se a Grande Falta, com seus olhos verdes. Ele mantém uma casca, mas sabe que as pessoas conseguem ver a Falta. Existem momentos, sim, que a esperança retorna. Uma chama que arde dentro da casca e anima o ser. Mesmo assim, ele sabe que a Falta vai perdurar por toda a sua vida. O narrador tenta dar vários nomes para a Grande Falta, na tentativa de controlá-la. Não consegue. Mas aprende que pode estabelecer uma convivência complexa com ela.

SARGENTO GARCIA

Começa com uma sala de um quartel, onde está o protagonista, Hermes. Ele e outros estão nus, para o exame médico. No entanto, quem os examina não é um médico. Mas o sargento Garcia do título. Sua figura é aterrorizante para Hermes, com apenas dezessete anos. Após uma sessão de abuso psicológico, o garoto é dispensado, por conta de um atestado médico forjado e o fato de ser arrimo de família (também mentira) e estudar para entrar numa faculdade de Filosofia (essa, sim, uma verdade).

Após sair do quartel e antes de tomar o bonde para ir para casa, é alcançado pelo sargento. Este oferece carona e Hermes aceita. No caminho, começam a conversar e Garcia fala que Hermes é diferente dos demais garotos. Hermes não entende e o sargento começa a acariciá-lo, no que o garoto corresponde. Garcia o convida para irem para outro lugar e Hermes aceita.

Lá chegando, Hermes conhece Isadora, gerente do lugar: um hotel da pior qualidade, usado habitualmente pelo sargento. Os dois se dirigem a um quarto cheirando a mofo, onde fazem sexo apressadamente.

Vestem-se e separam-se. Hermes toma o primeiro bonde que vê. Percebe que não sentiu dor ou desconforto. Pelo contrário, está mais seguro de si. Diferentemente, do garoto assutado do começo do conto.

FOTOGRAFIAS

O texto é dividido em duas partes (18 x 24: Gladys e 3 x 4: Liége). Cada parte é o relato e descrição de duas mulheres muito diferentes entre si. Gladys tem 30 anos e é uma mulher experiente. Frequenta, quase diariamente, coquetéis em busca de homens que possam satisfazê-la. Liége, mais jovem e inexperiente, só havia tido uma experiência sexual, traumática.

Em algum ponto de ambos os relatos, as duas se consultam com uma cigana. A mulher revela, para cada uma, em momentos diferentes, que em suas vidas existem dois amores. Um no passado e um no futuro.

Gladys lembra-se de um rapaz inexperiente que tivera e deixara partir. Isso reacende na loira seu desejo por encontrar aquele seu amante perfeito, a quem chama de Grande Descobridor. Liége recorda-se de sua experiência traumática e espera, pacientemente por um príncipe encantado. Duas reações completamente diferentes à mesma vaticinação forjada.

Por vezes raras, num misto de temor e júbilo, julgo escutar o ruído dos ramos secos sob a janela esmagados por suas negras botas reluzentes, enquanto se aproxima entre folhagens, e pelas madrugadas ardidas me engano supondo divisar nas sombras a massa escura e áspera da barba que lanhará meus seios intumescidos de desejo. É quando odeio a cigana por ter me enlouquecido assim, e custo a dormir, enredada em ódio, os dedos arquitetando delícias imaginárias nos lábios mais recônditos, mas na manhã seguinte não deixo de considerar o noturno coquetel de cada dia e então escovando cem vezes meus louros cabelos, sempre penso que pode ser Hoje. Escolho com cuidado os tules, as pedras, os organdis, os brilhos e brincos, e é tão luminosa e devastadora que enfrento o dia nascente que, apesar das sombras da madrugada, a cada nova manhã os que me vêem passar soberba e apocalíptica, pisando ereta no topo dos saltos, devem pensar qualquer coisa assim: lá vai uma loura trintona e gostosa, ao certeiro encontro de seu Grande Descobridor.

PERA, UVA OU MAÇÃ?

Narrado por um analista, que conta a sessão que teve com uma paciente. Esta, assim que entra, diz que acreditava que o psicólogo estava com as meias trocadas. Fato que ela afirma não ser importante. Mas que não sai dos pensamentos dele por nenhum minuto.

Ela conta que, quando estava vindo para a sessão, resolve comprar ameixas maduras e comê-las durante o trajeto. Na esquina do consultório, esbarra em um caixão, saindo de um velório e derruba as ameixas. As recolhe, uma a uma e então o cortejo pôde prosseguir. Ela tenta despertar no analista a gravidade do acontecido. O que não consegue.

A moça sai e se despede, sem que o analista dê a sessão por encerrada. Deposita uma ameixa madura na escrivaninha e deseja um feliz ano novo a ele, em pleno setembro.

Ele corre para encontrá-la, mas ela já estava fora do prédio. Percebendo que sua condição se deteriorara, decidiu ligar para os pais, no intuito de interná-la novamente. Mas isso teria de esperar, pois o outro cliente logo chegaria.

NATUREZA VIVA

O conto é um ensaio sobre a ansiedade. Ele relata, em detalhes, como os seres humanos se distanciam por não saberem o que se passa no íntimo uns dos outros. Ainda diz que as pessoas seriam muito mais próximas se não tivessem qualquer emoção, pois elas são a raiz de toda a ansiedade r escondê-las, por medo da explosão que possam causar, nos distancia. O ensaio termina dando a certeza de que, um dia, essa ansiedade passará. Mas esse dia é incerto.

CAIXINHA DE MÚSICA

A história começa com a protagonista acordando de um sonho e vendo seu companheiro pondo uma caixinha de música para tocar. Ela pergunta o que há de errado e ele, após certa insistência, relata que tivera um sonho, dividido em três atos.

No primeiro ato, ele vira uma árvore muito bela, de flores roxas e amarelas. Se aproximou e entrou por um vão no tronco. Dentro da árvore. Tudo era escuro, espinhoso e podre. Quando saiu, viu novamente a beleza. Entendeu isso como uma referência às angústias internas que liberam belezas.

No segundo ato, retorna no dia seguinte e vê que eram duas árvores. Uma primavera e um salgueiro. Lado a lado. O homem diz à mulher que talvez fosse um caso de amor entre as árvores. Nesse momento, ele avança sobre a mulher e os dois quase começam a fazer sexo. Mas ele pára e inicia o terceiro ato.

Na última parte, ele vê o salgueiro morto. Foi a primavera que o matou e sugou toda a sua vida para ser bela e florida. A mulher, então pergunta se ele se sentia sugado.

Não teve resposta. O homem avançou mais uma vez sobre ela. Dessa vez, para sufocá-la até a morte.

O DIA QUE JÚPITER ENCONTROU SATURNO (NOVA HISTÓRIA COLORIDA)

A narrativa começa do ponto de vista de uma moça, que havia resolvido ir a a uma festa, num sábado à noite, em São Paulo. Lá, encontra um rapaz e passa a olhar tímida para ele. Senta-se na janela para admirar o céu. Vê uma conjunção entre os planetas do título.

O rapaz se senta ao seu lado para também contemplar. Ele pergunta se ela gosta de olhar as estrelas. Ao que ela aquiesce, ambos passam a travar um diálogo, que se inicia com astrologia. Entre vários assuntos e silêncios contemplativos, o leitor é levado por várias linhas de pensamento. Os dois parecem estar loucos, entorpecidos ou mesmo mortos, encontrando-se num pós-vida.

A narrativa se encerra do ponto de vista do rapaz, que se mostra tão tímido quanto a moça. Se despede dela e vai embora.

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. A noite clara lá fora estendida sobre a Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodca tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se tensa ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.

Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

AQUELES DOIS

Conta a história de dois colegas de trabalho: Raul e Saul. Ambos passaram para o mesmo concurso público, para a mesma repartição. Tinham idades próximas e nomes parecidos. Gostavam de cinema e tinham frustrações semelhantes. Raul terminara um casamento de três anos e não tivera nenhum filho. Saul terminara um noivado muito longo e não concluíra a faculdade de arquitetura.

Apesar de distanciarem-se no início, logo aproximaram-se. O motivo foi o fato de sentirem-se deslocados do resto da repartição, a qual chamavam de “deserto de almas”.

O texto continua descrevendo os colegas e suas vidas. Nenhum deles era da cidade que trabalhavam. E também não tinham parentes na cidade ou, mesmo, no geral.

Raul tinha paixão por música. E suas poucas posses realçavam esse interesse. Da mesma forma que Saul pelo desenho. Eles são descritos pelo narrador como bonitos; com belezas opostas, porém complementares. E todas as mulheres da repartição parecem concordar com a descrição.

Em seguida, nos é mostrado como eles se aproximaram. Saul chegara atrasado, porque tinha ficado assistindo um filme até tarde. Raul pergunta sobre a película e ambos travam uma conversa sobre o assunto. Em seguida, o diálogo fica mais constantes. E os assuntos mais pessoais.

Eram sempre convidados para reuniões sociais. Compareciam, mas ficavam nas festas conversando entre si, sobre os problemas que estavam enfrentando com as mulheres em suas vidas e de como a amizade de ambos parecia mais simples.

Percebiam, toda segunda-feira, que sentiam falta um do outro. Sem, contudo, falarem sobre isso. Um dia, Saul faltou, e Raul parecia perdido.

Eles, agora, estavam mais próximos. Trocaram telefones e passaram a frequentar a casa um do outro nos finais de semana. Almoçavam ou jantavam juntos. Bebiam, fumavam, assistiam filmes, cantavam, discutiam arte, jogavam. Os comentários e piadas maldosas aumentavam, sobretudo no dia em que chegaram juntos da repartição, com os cabelos molhados, pois Saul havia dormido no sofá de Raul por causa da chuva.

Nos aniversários de cada um, trocaram presentes. Cada um dando o que tinha de mais valioso. A mãe de Raul falecera e este tirara a semana de folga. Desta vez, Saul quem se sentiu perdido.

Quando Raul voltou, ambos passaram a noite juntos. Ficaram abraçados por bastante tempo, num sentimento que confundiu os dois. Saul se despediu e, quando chegou em casa, chorou por conta de sua solidão.

No Natal e o Ano-Novo, ambos trocaram presentes e passaram a virada juntos. Dormiram nus, sem se importar, e trocando elogios sobre a beleza um do outro.

Chegou janeiro e eles planejavam tirar férias juntos. O chefe os chamou e os mandou embora. A alegação foi de que o relacionamento de ambos era considerado imoral.

Juntaram suas coisas e partiram no mesmo táxi, com os olhares de todos sobre eles. E a repartição pareceu vazia, de novo. Desta vez, para sempre.

PARTE III – MORANGOS MOFADOS

PRELÚDIO

O protagonista sente-se angustiado com alguma coisa. Algo que o consome e o sufoca.

No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas é o final-que-importa.

E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta.

ALLEGRO AGITATO

O personagem se consulta com o médico. O bom doutor, em seu consultório impecável, atesta a perfeita saúde do rapaz. Mas este se queixa dessa sensação estranha. O gosto estranho na boca. Como se comece morangos mofados. O médico suspeita de ansiedade e lhe receita um tranquilizante.

ADAGIO SOSTENUTO

O remédio faz efeito. Bem demais. A letargia toma conta dele. Vê-se perdido em um fim de semana, tomado pelo tédio.

Lembra-se de sua ex. Tenta se masturbar, sem sucesso. Vomita por conta do remédio. Sabe que é bem-sucedido na carreira. Mas a sensação de estar comendo morangos mofados persiste.

ANDANTE OSTINATO

Seus sonhos se tornam febris e alucinados. Acorda com a mesma sensação na boca. A realidade começa a se misturar com as lembranças e os sonhos. A casa começa a ficar descuidada. A sensação na boca persiste. Corteja o suicídio.

MINUETO E RONDÓ

Senta-se no parapeito da janela, olhando para a calçada, logo abaixo. Pensa já ter morrido, vítima de uma hecatombe nuclear. Afasta a ideia e questiona a própria veracidade do mundo.

Sente-se melhor. Sente esperança. Sente que o gosto ruim na boca havia passado. Sente-se disposto. Talvez o remédio estivesse fazendo efeito. Desiste da ideia de suicídio e passa a fazer planos: resolve plantar morangos.

Quando ele estendeu a mão para o rolo de papel higiênico, consegui deslizar o corpo pela beirada da cama, e de repente estava no meio do quarto enfiando a roupa, abrindo aporta, olhando para trás ainda a tempo de vê-lo passar um pedaço de papel sobre a própria barriga, uma farda verde em cima da cadeira, ao lado das botas negras brilhantes, e antes que erguesse os olhos afundei no túnel escuro do corredor, a sala deserta com suas flores podres, a voz de Isadora ainda mais remota, se até o pranto que chorei se foi por ti não sei, barulho de copos na cozinha, o vidro rachado, a madeira descascada da porta, os quatro degraus de cimento, o portão azul, alguém gritando alguma coisa, mas longe, tão longe como se eu estivesse na janela de um trem em movimento, tentando apanhar um farrapo de voz na plataforma da estação cada vez mais recuada, sem conseguir juntar os sons em palavras, como uma língua estrangeira, como uma língua molhada nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca, que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros nem gostos nem tatos, uma coisa que deveria permanecer para sempre surda cega muda naquele mais de dentro de mim, como os reflexos escondidos, que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez, porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim, feito bicho numa jaula fedida, entre grades e ferrugens quieta domada fera esquecida da própria ferocidade, para sempre e sempre assim.

Embora eu soubesse que, uma vez desperta, não voltaria a dormir.

Até a próxima!

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