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Minha Vida de Menina, de Helena Morley

A obra Minha Vida de Menina, de Helena Morley, é um diário escrito pela autora quando ela estava com a idade de 13 a 15 anos (entre os anos de 1893 e 1985), porém, publicado apenas no ano de 1942.  Isso porque Helena disse que queria deixar para as suas netas e outros parentes as suas lembranças e experiências do tempo da meninice, para que fosse possível a identificação das diferenças da vida da sua época para a época atual de sua família, através das narrativas do seu cotidiano no seu diário no tempo de menina.

A história, como se trata de um diário, é narrado em primeira pessoa que mostra a sua visão da sociedade e do seu cotidiano em Diamantina no final do século XIX. Assim, a autora nos relata os costumes, sobre as festas populares, sobre a sociedade da época, sobre a escravidão, sobre o sue convívio familiar, sobre seus medos, anseios e esperanças para o futuro, organizados numa narrativa cronológica, contudo, não apresentando grande conexão entre os eventos e acontecimentos em si, ou seja, sem apresentar um enredo coeso.

Helena alterou os nomes dos personagens da sua narrativa quando decidiu publicar seu diário em livro, mudando o nome de diversas figuras para que não houvesse problemas com desentendimentos ou mal-entendidos, até mesmo os nomes dos seus pais foram alterados.

A narrativa da jovem autora chama a atenção devido a sua escrita considerada muito avançada para a idade em que ela escrevera, pois ela tece comentários afiados e críticas às sociedade e acontecimentos daquela época, mostrando assim que possui uma visão de mundo, uma opinião crítica própria e sabe observar o mundo ao seu redor.

“Domingo, 9 de dezembro. Eu ainda me lembro de quando chegou a notícia da lei de treze de maio. Os negros todos largaram o serviço e se ajuntaram no terreiro, dançando e cantando que estavam livres e não queriam trabalhar. Vovó com raiva da gritaria chegou a porta ameaçando com a bengala dizendo: pisem já da minha casa pra fora, seus tratantes! A liberdade veio não foi para vocês não, foi para mim! Saiam já! Os negros calaram o bico e foram para a senzala.”

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Resumo

Minha Vida de Menina começa a narrar o cotidiano de Helena Morley, uma pré-adolescente que narra os eventos da sua rotina através de um diário em meados do final do século XIX, falando sobre a relação familiar conflitante – devido a extensão de parentes que possuía – e o seu amor pela vida entre o meio urbano e o meio rural – o qual prefere mais do que a cidade, principalmente pelo fato de que o convívio com a sua avó, Dona Teodora, que possui uma chácara afastada da cidade.

A relação próxima com avó, causa ciúmes e intrigas entre os outros familiares, pois Helena conta com a superproteção de Dona Teodora, o que faz com que a relação delas seja muito especial.

Assim, a menina vai contando os fatos de sua vida, sempre a narrar em seu diário aspectos das tradicionais festas religiosas e populares, falando sobre os eventos sociais, bem como questões acerca da sua infância, sobre sua paixão pelas comidas do meio rural e dos vestidos que tanto adora.

Em meio a suas brincadeiras, os estudos e a escola acaba passando batido ao decorrer da narrativa, sendo deixada de lado pela garota. Suas amizades são questionáveis para a época, pois Helena faz amizade com as garotas mais malvistas da região, que são consideradas vadias, contudo, mesmo a andar com essas garotas, Helena não é corrompida para o estilo de vida dessas garotas.

A garota é considerada como a mais inteligente da família, o que a faz ter uma visão diferente do mundo, que coloca em seu diário que, por sua vez, é um hábito influenciado pelo seu pai. Assim, Helena caba sendo considerada como uma garota rebelde, diferente das demais da sua idade, principalmente em relação à sua irmã, Luisinha, que era um modelo de menina da época, sendo que mal saía de casa e sempre obedecia aos pais, ou seja, uma figura totalmente oposta à de Helena, que saía bastante e gostava de aventuras.

Com o passar do tempo, percebe-se que a menina da narrativa começa a se tornar uma moça, o que faz com que os olhares dos homens começassem a cair sobre ela, espantando de uma vez o medo de Helena de se tornar uma solteirona. Nessa parte do livro, a personagem da tia Madge ganha destaque, pois passa a aconselhar Helena e, mesmo sendo super protetora – fato que chega a incomodar um pouco a menina – acaba sendo uma personagem fundamental no desenvolvimento e maturidade da sobrinha.

Entretanto, o cotidiano alegre e jovial de Helena acaba sendo afetado drasticamente pelo falecimento de sua avó, Dona Teodora, o que faz com que os relatos diários de Helena passem a ser mais tristes, melancólicos e sombrios. Outro evento que a afeta bastante a vida da menina é a disputa da família pela partilha da herança de Dona Teodora.

Quando esse conflito de herança chega ao fim, Helena nos revela que a parte da herança que chegou à sua família foi usado para pagar as dívidas da família, que estavam consideravelmente grandes. Assim, o diário é encerrado abruptamente e a narrativa da vida de menina da autora chega ao fim.

“Sábado, 10 de março. Hoje foi dia de festa em casa. Meu pai foi segunda-feira para o Bom Sucesso onde ele está fazendo um serviço. Era semana de lavra e ele estava com muita esperança na apuração. Meu pai anda tão caipora que ninguém mais espera sorte aqui em casa. Só ele é que diz sempre: ‘Esperem. Nem sempre o infeliz chora. O dia há de chegar’. Mas não chega nunca.”

Estrutura da obra

Devido ao fato de se tratar de uma narrativa feita através de um diário, Minha Vida de Menina é caracterizado por relatos cotidianos da vida de uma garota no final do século XIX, ou seja, é uma reconstituição fidedigna da vida da narradora do diário.

Pelo fato da narrativa ser em forma de diário, as ações não se apresentam em um enredo coeso, ou seja, são fragmentações da vida da garota, sendo que muitas das histórias podem não apresentar uma ligação ou até mesmo um final correto, ou seja, alguns acontecimentos não nos apresentam mais informações ou detalhes do desfecho de alguns eventos.

O diário e uma espécie de personagem onde a menina confidencia os fatos da sua vida, sendo assim, ele pode ser retratado como interlocutor para a narradora-personagem.

Narrador e foco narrativo

A narrativa dessa obra pode se dá através da narradora personagem protagonista dos acontecimentos, ou seja, narrador autodiegético. O diário se torna um confidente da garota após o pai incentivá-la a contar as coisas da sua vida para si mesmo, em vez de contar para as amigas. No começo, Helena reluta, contudo, depois de sofrer algumas decepções com as amigas ao confidenciar seus segredos, acaba por dando razão ao pai e o diário torna parte fundamental de seu cotidiano.

A narradora mostra-se uma garota à frente da sua época, mostrando uma menina de forte opinião, com visão crítica de mundo e muito observadora, o que faz com que ela seja malvista e considerada uma rebelde.

A própria narrativa dos seus dias mostra a evolução da personagem, ou seja, um rito de passagem entre a infância, adolescência e até mesmo à vida adulta, tendo em vista que ela amadurece rapidamente ao decorrer dos acontecimentos de sua vida.

Tempo e Espaço

O tempo e espaço dessa obra tem como pano de fundo o Brasil entre os anos de 1893 e 1895, na cidade de Diamantina, Minas gerais, num período precedido pela recente abolição da escravidão no Brasil, Proclamação da República e outros aspectos importantes da mudança do cenário nacional.

Por se tratar de um diário, a narrativa é totalmente cronológica, sendo respeitado os fatos da forma que ocorreram com a vida e a passagem de tempo presente na narrativa.

“Quarta-feira, 15 de fevereiro. Graças a Deus o carnaval passou. Não posso dizer que passou bem porque apanhei de vovó, coisa que ela nunca fez. É sina minha todo o mundo que gosta de mim me infernar a vida. Todas as minhas primas são governadas só pelos pais. Ah, se eu também fosse assim! Meus pais é que menos me amolam. Não tivesse eu o governo de vovó e tia Madge, teria ido ao baile de máscaras do Teatro. Desde os sete anos eu sonhava fazer doze para ir ao baile. Agora estou com treze e apanhando para não ir!”

Principais personagens

Os principais personagens de Minha Vida de Menina, de Helena Morley, são:

  • Helena

Personagem narrador e protagonista da obra, ou seja, é ela quem escreve ao diário, falando sobre sua vida e seu cotidiano. Representa uma menina que não segue os padrões sociais determinantes para a época, pois é muito independente, crítica e irônica, desafiando constantemente a ordem natural imposta pelo patriarcado da época. Não passa uma visão boa de si, mostra-se como uma garota qualquer, com seus defeitos e sua perversidade ou tratar com ironia e acidez muitas coisas que considera errado, desde alguns aspectos da sua relação familiar até mesmo a igreja, com os padres e devotos hipócritas e descritos por ela como fofoqueiros.

  • Dona Teodora

É a avó de Helena, um dos principais personagens presentes no diário, que cria uma relação de superproteção e afeto com a protagonista, mesmo sendo uma senhora rígida e autoritária em certas vezes. Ela possui 83 anos no período do início da narrativa do diário, sendo proprietário rural que possui muitas posses e dinheiro, contudo, vivia ajudando os pobres e os menos favorecidos. É uma senhora obesa e tem certas dificuldades para se locomover, assim, possui vários benefícios, como, por exemplo, acompanhar de sua casa os sacramentos, o que nos revela os benefícios a importância social da personagem na época, mas, também, as vantagens que as pessoas de posse conseguiam na sociedade.

  • Tia Madge

Tia de Helena, sendo irmã do pai da menina, sendo uma personagem de bastante influência na vida da menina, sempre a incentivando a dar livros a garota, bem como conselhos. Contudo, é super protetora, fato que incomoda bastante a protagonista, mas, no fundo Helena sabe que a tia faz tudo isso por amor e sempre acaba por perdoá-la. Personagem importante para o desenvolvimento da maturidade de Helena.

  • Luisinha

Irmã de Helena, sendo totalmente o oposto da protagonista, uma personagem sem voz que é chamada de pamonha por Helena. Luisinha representa o modelo de garota tido como exemplar, moldada como as convenções sociais exigia, sendo extremamente submissa.

Relevância da obra

A relevância dessa obra dá-se ao fato de ela retratar períodos históricos importantes do Brasil, como o caso da recente abolição da escravatura e a recente Proclamação da República.

Por mais que essa não seja a intenção de Helena ao escrever em seu diário, pode-se perceber que as experiências da menina daquela época estão ligadas a esses temas, mesmo que de maneira sútil.

Assim, reflexões acerca da sociedade e constituição social da época nos são apresentados de uma forma nem clara, podendo ser encontrado em diversas passagens dos livros  a presença do patriarcalismo escravocrata, as regras impostas pela sociedade para as mulheres, a rigidez das regras das escolas da época, as relações de trabalhos, a influência da igreja na sociedade, a vida dos negros pós-abolição, entre muitas outras coisas.

“Sábado, 18 de fevereiro Faz hoje três dias que eu entrei para a Escola Normal. Comprei meus livros e vou começar vida nova. O professor de Português aconselhou todas as meninas a irem se acostumando a escrever, todo dia, uma carta ou qualquer coisa que lhes acontecer. Passei na casa de minhas tias inglesas e encontrei lá Mariana. Ela foi a aluna mais afamada da Escola e sempre ouvi minhas tias falarem dela com admiração. Ela esteve me animando e disse que o segredo de ser boa aluna é prestar atenção, tomando notas de tudo. Tia Madge disse que Mestra Joaquininha lhe falou que eu fui a aluna mais inteligente da escola dela, mas era vadia e falhava dias seguidos. Isto é verdade, porque o ano passado fomos, muitas vezes, passar dias com meu pai na Boa Vista. Não sei se sou inteligente. Vovó, meu pai e tia Madge acham; mas só sei que não gosto de estudar, nem de ficar parada prestando atenção. Em todo caso eu gosto que digam que sou inteligente. É melhor do que dizerem que sou burra, como vai acontecer na certa, quando virem que não vou ser, na Escola Normal, o que eles esperam. Hoje já vi o jeito. Achei tudo difícil e complicado. O que me vale é que eu tenho facilidade de decorar. Quando eu não puder compreender, decoro tudo. Mas no Português como é que eu vou decorar? Análise, eu nem sei onde se pode estudar. Só daqui a dias poderei saber como as coisas vão sair. Escrever não me vai ser difícil, pelo costume em que meu pai me pôs de escrever quase todo dia. Duas coisas eu gosto de fazer, escrever e ler histórias, quando encontro. Meu pai já consumiu tudo quanto é livro de histórias e romance. Diz ele que agora só nas férias.”

comentários (2)

  • Gabriela

    Outra obra difícil de se achar análises relevantes na internet, mais uma vez, parabéns pelo trabalho que vocês vem desenvolvendo com as análises e resumos de livros, tenho acompanhado todos!!!

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    • Ariovania Silva

      Olá, Gabriela.
      Tudo bem?

      Maravilha que tenha gostado!
      Fique à vontade para desfrutar de outros materiais e dicas de cursos aqui no Canal! 🙂

      Um forte abraço e conte sempre com a gente!
      Canal do Ensino.

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