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Resumo de livro: Mayombe, de Pepetela

Olá, leitor(a)!

Considerada uma das mais importantes obras da literatura moderna, Mayombe, do angolano Pepetela, foi escrita durante a participação do escritor na guerra de libertação de Angola, que aconteceu nos anos de 1970.

O livro foi publicado em 1980, com uma narrativa que não só recompõe as experiências do autor na guerra, como também retrata o cotidiano dos guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

De maneira inovadora, Mayombe exibe todas as ações, os sentimentos, as contradições, os conflitos, as relações e as reflexões do grupo de guerrilheiros que lutaram para construir uma nova nação, livre da colonização portuguesa.

O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir. Os paus serviram para as paredes. O capim do teto foi transportado de longe, de perto do Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para o pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas e tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais.

Mayombe, de Pepetela

Fonte: Reprodução

Resumo

Na primeira parte da história, os guerrilheiros estavam em Mayombe, uma quente e úmida floresta, tendo como missão interferir nas operações de exploração da mata — organizadas pelos colonos portugueses. Assim, conhecemos o Teoria, professor da base de guerrilheiros, que mesmo sendo ferido continua em missão.

Além de interromper a exploração madeireira dos portugueses, a missão procurava politizar os trabalhadores angolanos da madeireira. Eles conseguiram fazer ambas as coisas, contudo, no meio da missão, o dinheiro de um dos trabalhadores foi roubado e surgiram boatos de que havia ladrões entre os guerrilheiros do MPLA, desonrando, então, a imagem do grupo.

Depois de vencer, sem nenhuma baixa, o confronto com uma nova horda de portugueses, enviados para conter os guerrilheiros, o povo passa a confiar novamente no MPLA. Mais ainda quando o comandante Sem Medo, chefe militar do grupo, descobre que Ingratidão foi quem roubou o dinheiro, fazendo-o não só devolvê-lo ao trabalhador como também cumprir punição em prisão.

No segundo capítulo, deparamo-nos com uma descrição detalhada e poética de Mayombe, bem como da relação dos guerrilheiros e do próprio povo com a floresta. Também nos é descrito o dia a dia dos guerrilheiros na base de operações do MPLA, as relações dos personagens entre si e as relações de comando.

Assim, conhecemos o Comissário, segundo na cadeia de comendo, e o Sem Medo. Ainda que eles sejam bons amigos, a relação dos dois é bastante conflituosa, principalmente no que diz respeito às decisões de guerrilha.

A base de operações dos guerrilheiros passa por um período de escassez de comida, em que Sem Medo pede ao Comissário que vá para cidade mais próxima atrás de André, guerrilheiro responsável por gerir os recursos deles. Sendo assim, Comissário parte para sua missão, e muito entusiasmado por poder encontrar sua noiva, Ondina, que trabalha lá como professora.

Chegando na cidade, Comissário tem dificuldade para encontrar André e decide visitar a noiva. No decorrer da narrativa, percebe-se que há algo de errado acontecendo na relação do casal. Após encontrar André e pedir pelos suprimentos, Comissário retorna à Mayombe e conta para Sem Medo seus temores e anseios em relação à Ondina.

No terceiro capítulo, a falta de alimento ainda não é sanada, o que faz com que surjam alguns conflitos entre as tribos dos guerrilheiros. Após certo tempo, contudo, a comida finalmente chega e com ela notícias da cidade de Dolisie: Ondina trai Comissário com o dirigente André, ambos são pegos no flagra e todos ficam com medo da reação do Comissário.

Ondina se adianta e envia uma carta para Comissário contando sobre sua traição antes que ele fique sabendo por outras pessoas. Assim, o guerrilheiro decide ir à cidade tirar satisfações, mas Sem Medo decide ir junto. André é afastado de seu cargo de dirigente dos guerrilheiros assim que Sem Medo e Comissário chegam à cidade.

Comissário procura por Ondina, mas a professora não aceita reatar o noivado com o soldado, que sai desconsolado e conta suas aflições ao amigo Sem Medo, chegando, inclusive, a pedir para que ele conversasse com Ondina. Sem Medo atende ao pedido do amigo, mas Ondina se mostra irredutível e afirma que a história entre ela e o Comissário acabou.

Notícias de que os portugueses fizeram uma base em Pau Caído, lugar muito próximo à base do MPLA, fazem com que Comissário seja obrigado a voltar e assumir o comando enquanto Sem Medo aguarda um substituto para exercer as funções de dirigentes.

No quarto capítulo, Sem Medo fica na cidade e passa a conversar bastante com Ondina. Ambos ficam muito próximos e acabam desenvolvendo uma relação. Nesse meio tempo, contudo, Sem Medo é informado de que Mayombe havia sido atacada pelos portugueses. Ele recruta militantes e civis que simpatizam com a causa para ir ao auxílio de seus companheiros.

Ao chegar à base, Sem Medo descobre que toda a história foi um mal-entendido. Na verdade, Teoria havia se assustado com uma surucucu na beira do rio e disparado sua arma, fazendo com que e o guerrilheiro Vêwe pensasse que eles estavam sob ataque e saísse correndo para informar o comandante. Sem Medo, então, decide organizar um ataque aos portugueses, tendo em vista que o confronto aconteceria de qualquer forma.

No quinto capítulo, Sem Medo retorna à cidade para encontrar o novo dirigente, Mundo Novo, nomeado pelo Chefe de Operações. Assim, Mundo Novo assume as bases de operações da cidade e informa que, após o ataque à base dos portugueses, Sem Medo será transferido para o comando de uma nova frente de luta ao sul do país — e  Comissário passará a ser o novo comandante da base de Mayombe.

Assim, o ataque a Pau Caído começa a ser elaborado e todos se dirigem à base de operações de Mayombe. Mundo Novo ordena que Comissário assuma toda a operação para que ele esteja  preparado para assumir a função de comandante, após a partida de Sem Medo. Com o ataque bem preparado, os guerrilheiros acabam sendo bem-sucedidos durante a batalha.

Para proteger o Comissário, Sem Medo acaba sendo ferido e outro guerrilheiro acaba sendo morto. Durante a retirada, os guerrilheiros percebem que Sem Medo não sobreviverá aos seus ferimentos, por isso, todos decidem esperar pela morte dele antes de seguir viagem.

Sem Medo e o outro guerrilheiro morto são enterrados embaixo de uma grande amoreira, fazendo com que todas as tribos se reunissem e mostrassem respeito. Os dois mortos eram de tribos diferentes e morreram para salvar Comissário, que, por sua vez, era de outra tribo. A partir disso, a rivalidade entre as tribos começou a ser dissipada, criando um espírito de união maior entre os guerrilheiros.

No epílogo, deparamo-nos com Comissário como o novo comandante da base de operações, substituindo Sem Medo. Nessa parte da narrativa, percebemos que se trata de um momento mais reflexivo, em que Comissário divaga sobre a vida, sobre os conflitos e sobre o amigo falecido.

As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso, toda a gente deve estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingénuo, pois que acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado.

Personagens principais

Na obra, são desenvolvidas muitas histórias para que seja possível conhecer profundamente os personagens e acontecimentos. Os principais personagens de Mayombe são:

Sem Medo

Comandante do MPLA, caracterizado por ter muita coragem, ser um bom guerrilheiro e líder nato. Pertencente a uma das diversas tribos e etnias presentes na região, ele tem como papel fundamental unir as pessoas para lutar por uma Angola livre, mesmo com todas as divergências e conflitos étnicos que cada uma delas possuía.

Comissário

Um dos líderes do MPLA, caracterizado ser bem politizado e, também, um bom líder. Apesar de não ser tão respeitado quanto Sem Medo, também possui papel de destaque entre os guerrilheiros. Comissário tem uma forte relação de amizade com Sem Medo e é responsável por boa parte dos conflitos amorosos da narrativa, visto que é noivo de Ondina.

Teoria

Teoria é o personagem que representa a intelectualidade durante a narrativa, uma vez que exerce o papel de professor da base do MPLA, em Mayombe. Ele sofre muito preconceito porque é filho de um português com uma africana, ou seja, é mestiço. Esse personagem é importante para trazer à tona o próprio preconceito presente nas tribos que compunham os guerrilheiros do MPLA.

Ondina

Ondina é a personagem feminina principal da obra, sendo a responsável por instaurar alguns conflitos e transformações em alguns guerrilheiros do MPLA. Um bom exemplo disso é o processo de amadurecimento de Comissário que, após a traição e o rompimento do noivado, é forçado a enfrentar a realidade da vida.

Mayombe

Como acontece em alguns romances, é feita uma espécie de personificação do espaço, que sofre e sonha com o processo de exploração e luta. Nesse caso, então, a própria floresta, Mayombe, torna-se uma personagem e representa um novo modelo de sociedade, idealizado pelo desejo de liberdade.

Estrutura da obra

Mayombe é um romance dividido em 5 capítulos — A missão, A base, Ondina, A surucucu e A amoreira —  e um epílogo de encerramento. A poderosa narrativa acontece ao longo de 248 páginas, a depender da edição.

Logo nos primeiros capítulos do livro, nos são apresentados os 14 membros do grupo de guerrilheiros, todos eles (exceto Ondina e André, que atuam na cidade) possuem codinomes de guerra, que fazem menção aos papéis de cada um no grupo.

Contexto histórico

A obra nos apresenta um contexto histórico e social marcado pela Guerra de Independência da Angola (1961 – 1974), visto que o país ainda era colonizado por Portugal. Com uma narrativa nada romantizada, conhecemos todos os lados e nuances dos conflitos desse processo de libertação.

Narrador e foco narrativo

O foco narrativo oscila entre 1ª e 3ª pessoa, porque existe um narrador onisciente, ou seja,  que sabe e nos conta tudo o que está acontecendo na história, e intervenções de personagens, que narram as coisas a partir do ponto de vista deles.

Temos assim, um narrador heterodiegético, aquele que narra a história sem participar dela, e narradores autodiegéticos, personagens principais que fazem parte dos fatos que estão narrando. Na obra, esses narradores-personagens são os guerrilheiros, membros do MPLA, que tomam a narrativa quando contam sobre eles e suas histórias.

Tempo e espaço

O tempo da narrativa segue ordem cronológica, por meio de uma análise profunda das organizações guerrilheiras angolanas durante a guerra pela independência. O espaço na narrativa, por sua vez, explora Mayombe, uma densa e rica floresta com características tropicais, ao norte de Angola. Há também a cidade de Dolisie, usada como base das operações do MPLA contra as trocas portuguesas.

Sou é contra o princípio de se dizer que um Partido dominado pelos intelectuais é dominado pelo proletariado. Porque não é verdade. É essa a primeira mentira, depois vêm as outras. Deve-se dizer que o Partido é dominado por intelectuais revolucionários, que procuram fazer uma política a favor do proletariado. Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização.

Intertextualidade

A obra apresenta intertextualidade com dois livros importantes da literatura brasileira: a primeira, o romance indianista Iracema (1865), pois ambas as obras refletem o desejo de independência do colonialismo português e exibem os conflitos dos povos de diferentes etnias durante esse processo; a segunda, o romance naturalista/realista O Cortiço (1890), porque, como em Mayombe, exibe um espaço que praticamente se transforma em personagem do livro, conduzindo os acontecimentos e ditando todo o enredo.

Análise

A obra Mayombe é uma narrativa sobre os desafios e conflitos da sociedade angolana em busca de sua independência da colonização portuguesa. Os ideais socialistas estão presentes na história de Pepetela, principalmente quando mostra a perspectiva dos povos angolanos e seu desejo por liberdade.

Vemos, entretanto, que há também muitas dúvidas sobre os meios de se chegar a essa liberdade, devido aos princípios conflituosos do próprio MPLA. Isso porque os personagens principais, guerrilheiros do Movimento, apresentam ideias de libertação divergentes um dos outros.

Nesse sentido, constitui-se uma crítica do autor acerca do fato de que as pessoas não conseguem deixar de lado seus interesses pessoais e pontos de vistas em prol de uma luta de maior importância, que seria pela liberdade.

Assim, Pepetela tece uma crítica não só ao processo exploratório da colonização de Angola por Portugal, mas, também, critica os próprios povos angolanos pela frágil relação e pelo pouco comprometimento por uma causa maior.

Sobre o autor

Pepetela é o pseudônimo literário de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em Benguela,  Angola, em 1941. O autor de Mayombe teve uma formação educacional diversificada, começando por sua cidade natal e passando por Portugal e Argélia, país este onde se graduou em sociologia.

O escritor retornou para Angola e participou ativamente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), em que pode reunir muito material narrativo para seus futuros trabalhos. Estando entre um dos escritores mais renomados da língua portuguesa, ele ganhou o prêmio literário de maior prestígio da língua, Prêmio Camões, em 1997.

A última publicação feita pelo escritor, até o momento, é o romance  Sua Excelência de Corpo Presente (2018), que evoca os escritos machadianos, uma vez que a narrativa é realizada por um morto. O livro aborda uma ditadura africana genérica e apresenta os aspectos colonizadores desse processo.

— Não sei. Nunca soube responder a essa pergunta. O que sei, o que queria que compreendesses, é que esta revolução que fazemos é metade da revolução que desejo. Mas é o possível, conheço os meus limites e os limites do país. O meu papel é o de contribuir a essa meia revolução. Por isso vou até ao fim, sabendo que, em relação ao ideal que me fixei, a minha ação é metade inútil, ou melhor, só em metade é útil.

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Boa leitura e até logo!

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