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Lucíola, de José de Alencar

Olá, leitor!

Publicado em 1862, Lucíola é o 5° romance de José de Alencar, marcando a estreia de sua trilogia de perfis femininos, que são Lucíola, Diva e Senhora.

Essa série de 3 livros traz personagens femininas diferenciadas para os padrões de romance da época, sendo todas colocadas em situações de pressão psicológica, sofrendo com os preconceitos da sociedade e demonstrando certos ares de antagonismo nas relações amorosas.

Por isso, alguns críticos dizem que a trilogia possui pequenas referências a uma escola literária que viria a ser fundada tempos depois, o Realismo.

A intertextualidade de Lucíola com a Dama da Camélias, escrita em 1848 por Alexandre Dumas Filho, é inegável. Alencar se inspirou nessa obra para criar a história de Lúcia, uma prostituta renegada pela família que tem redenção no amor, mas sofre um fim trágico quando a felicidade.

Não preciso dizer-lhe, pois adivinha, que acabava de fazer uma triste figura. Não sou tímido; ao contrário peco por desembaraçado. Mas nessa ocasião diversas circunstâncias me tiravam do meu natural. A expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelavam a cortesã franca e impudente, o contraste inexplicável da palavra e da fisionomia, junto à vaga reminiscência do meu espírito, me preocupavam sem querer. Atribuo a isto ter eu apenas balbuciado algumas palavras durante a conversa, e haver cortejado respeitosamente a senhora, que apesar de tudo ainda me aparecia nesta mulher, mal a voz lhe expirava nos lábios, porque, então, o desdém que vertia de sua frase volúbil passava, e o semblante em repouso tomava uns ares de meiga distinção.

A festa continuou, e fomos acabá-la em uma alegre reunião, onde se dançou e brincou até duas horas da noite. Quando apaguei a minha vela ao deitar-me, na dúbia visão que oscila entre o sono e a vigília, foi que se desenhou no meu espírito em viva cor a reminiscência que despertara em mim o encontro de Lúcia. Lembrei-me então perfeitamente quando e como a vira a primeira vez.

Resumo da obra

luciola jose de alencar

Foto: Reprodução

A obra é narrada por Paulo, que conta para a Senhora G.M. a história do amor que viveu com uma mulher fora da aceitação social, pois era uma cortesã, e cujo nome era Lúcia. O enredo começa em 1855, quando Paulo chega ao Rio de Janeiro e encontra Lúcia. Sem saber de sua profissão, ele se apaixona perdidamente pela bela moça logo que a conhece.

Paulo vê em Lúcia uma menina doce e encantadora, mas essa imagem vem a baixo quando, em uma festa, a moça é apresentada não como uma senhora, mas como uma linda mulher. Depois disso, Paulo começa a visitá-la em sua residência.

Na 1 ª visita, ele dedica a Lúcia um tratamento cortês. Mas, no 2° encontro, ele deixa de lado esse comportamento e agarra a moça. No dia depois da 1 ª  noite de amor entre eles, ocorre uma festa na cidade, na qual estão homens boêmios, como o Sr. Rochinha, o Cunha e o Couto, e outras prostitutas.

Na comemoração, Lúcia fica nua na frente de todos. Na hora, Paulo sente repulsa, mas no fim acaba sendo compreensivo. É aqui que começa a transformação da protagonista. Lúcia passa a ver Paulo como alguém que poderia ajudá-la a deixar a vida de cortesã. Por isso, ela sai da cidade e decide ir morar com Ana, sua irmã mais nova, em uma casa simples no interior.

Nesse momento, o sentimento entre Lúcia e Paulo não é mais desejo carnal, mas sim amor espiritual, chegando ao ponto de ela fingir estar doente para não ter contato físico com o namorado.

Lúcia conta ao moço o motivo pelo qual se tornou cortesã. Ela entrou para essa vida porque sua família estava com febre amarela e não tinha recursos para fazer o tratamento. A moça, na verdade, se chamava Maria da Glória e Lúcia era o nome de uma amiga de infância que já havia morrido.

Lúcia descobre que está grávida, mesmo acreditando não poder gerar um filho. Ela pensava que seu corpo era sujo, morto e incapaz de conceber uma vida. Lúcia adoece e morre grávida, mas antes pede a Paulo que cuide de Ana.

Quando a lembrança ainda recente devia avivar as cores do quadro vergonhoso e revoltante que me tinha indignado, eu esquecia a pesar meu. Se fazia um esforço para evocar a cena da ceia, as idéias confundiam-se; a imagem da bacante, surgida um momento, ia-se desvanecendo até sumir-se; e nas sombras que nublavam o meu pensamento assomava radiante a mulher que eu possuíra na véspera com todas as forças de minha vitalidade.

O desejo parecia mesmo ter adquirido nova têmpera, e mais poderosa, na luta de que saíra. Lúcia se tinha sentado junto de mim; alisava-me os cabelos, olhando-me à luz das estrelas.

— Se não tivesse vindo! suspirou ela. 

Não me fugiria; talvez olhasse para mim como das primeiras vezes que nos vimos; ao menos ainda poderia dar-lhe um pouco de prazer, já que nada mais tinha para dar-lhe.

— E por que não me darás ainda, Lúcia, esse prazer?

— Depois do que se passou ?

— Cala-te! murmurei surdamente. Tu és uma criança!… Não tens culpa do que fizeste!

— Deveras me perdoa ?. . . Ainda me quer?

Colei os meus lábios ao ouvido de Lúcia; tinha vergonha do eco de minhas palavras.

— Quero-te para sempre’ Quero que sejas minha e minha só.

Notas sobre o autor

Nascido no Ceará, em 1829, José de Alencar se mudou com a família para o Rio de Janeiro em 1830 e, aos 14 anos, foi morar em São Paulo. Alencar, além de escritor, foi político, jornalista e advogado.

Ele se tornou um dos maiores romancistas brasileiros, pois, além de Lucíola, escreveu outros livros clássicos, como A viuvinha, O Guarani, Iracema e Cinco minutos. Na vasta obra de José de Alencar, é possível perceber traços da sociedade brasileira da época e temas que até hoje são recorrentes, como o confronto entre o branco e o índio, as cidades e o sertão.

Relevância da obra

Um dos principais focos da narrativa é a crítica social, demonstrada por meio das atitudes e sentimentos  dos personagens.

A protagonista, por exemplo, rompe com o padrão idealizado das mulheres românticas. Apesar disso, o desfecho da obra tem um tom tipicamente romantizado, trazendo a visão de que a única salvação para uma cortesã seria a morte.

Contexto histórico

O romance acontece na 2 ª metade do século XIX, período em que a sociedade brasileira era marcada por uma preocupação excessiva com as aparências morais. Assim, José de Alencar escreve de uma maneira pioneira e crítica, sendo duramente reprimido pelos analistas literários da época.

Contei um desses idílios das primeiras flores da vida; amores infantis que balbucia o coração ignaro, como antes balbuciara o lábio a palavra indecisa; arpejos vagos que o sopro da brisa arranca das cordas de uma lira ainda não dedilhada.

Essas primeiras impressões são tão ricas de sentimento, que nunca o espírito penetra nelas sem achar uma melodia arrebatadora, mais viva e mais brilhante, à medida que o homem declina para a velhice. É natural que eu falasse com animação e entusiasmo. Lúcia cerrara as pálpebras para ouvir-me, e embalada pelas minhas palavras pareceu ir adormecendo insensivelmente.

Calei-me, admirando com respeitosa ternura o rosto puro e cândido que entre a alvura do linho e no repouso das paixões tomara uma diáfana limpidez. Meus lábios roçaram apenas a tez mimosa, tanto eu receava manchar com o hálito a flor dessa alma, que se abria na sombra e no silêncio, como o cacto selvagem de nossos campos. Nesse momento Lúcia ergueu as pálpebras, e seu olhar vago, já nublado pelo sono, afagou-me docemente.

— Foi o dia mais feliz da minha vida! murmurou ela com a voz quase imperceptível. Ainda hoje não posso compreender que força misteriosa me obrigou a respeitar um dia inteiro essa mulher, que eu possuíra, e ainda apertava nos meus braços, recebendo a carícia de seu lábio amante.

Análise da obra

Nesse período da literatura brasileira, o ponto central deixa de ser a natureza e suas belezas e se torna o povo da cidade e suas mazelas. Por isso, enquadrada nos chamados romances urbanos, Lucíola traz histórias do cotidiano da cidade, retratando os costumes da época.

O foco narrativo é em 1 ª pessoa, sendo que o enredo é contado por Paulo, que não expõe nenhuma opinião crítica em relação aos acontecimentos da história, justamente por não ter afastamento ou distanciamento dos fatos.

Outro tópico relevante é que a história é contada por meio de uma carta entregue à Senhora G.M., para que Paulo não fosse mal visto pela sociedade da época por ter se envolvido com uma cortesã. Assim, é possível dizer que o preconceito está enraizado até mesmo em Paulo, que se recusa a falar sobre sua própria vida.

Já Lúcia é uma mulher cobiçada por sua beleza, mas que vive em uma sociedade hipócrita que a julga de forma preconceituosa. Isso muda quando conhece Paulo, o único capaz de ver além das aparências e enxergar nela um ser humano.

Ao longo da trama, Lúcia procura esquecer seu passado, mas isso não é possível, pois a sociedade é incapaz de perdoar esse tipo de “erro”. Portanto, não haveria outra forma de redenção para Lúcia a não ser a morte.

Um dia Lúcia chegou-se a mim com certo ar de mistério:

— Quer fazer amanhã um passeio comigo?

— Aonde?

— A São Domingos.

— Se isto te causa prazer!…

Partimos às 4 horas da madrugada numa falua, que atravessou rapidamente a baía e levou-nos à praia do Icaraí. Não sei se ainda aí perto existe um velho casebre, escondido no mato e habitado por uma velha e dois filhos, que nos hospedaram, ou por outra, nos deram sombra e água fresca.

Quando Lúcia pôs o pezinho calçado com a botina de duraque preto na areia úmida da praia, pareceu que a mobilidade e agitação das ondinhas que esfrolavam murmurando, comunicou-se-lhe pelo contato. Em um instante chegou à casa, abraçou a velha, correu todos os recantos, o terreiro, o quintal e o mato que se estendia em roda. Ora suspendia-se aos ramos das árvores e colhia os frutos verdes que saboreava com delícia; ora pulava sobre a relva soltando gritos de prazer como as aves quando atitam ao raiar da manhã. E no meio de tudo isso voltava para mim, e me obrigava a tomar a minha parte do prazer que ela sentia.

O meio de não comer frutas verdes quando elas nos são apresentadas entre duas linhas de pérolas e à sombra de lábios vermelhos, que fugiam furtando o beijo que prometiam? O meio de não fazer toda a sorte de loucuras, quando um talhe esbelto suspende-se ao vosso flanco, e uma voz aveludada murmura uma prece ao ouvido?

Análise da personagem Lúcia

Lucíola é um exemplar do período romântico da literatura brasileira. O livro é um romance urbano que se passa no Rio de Janeiro e transparece os valores da sociedade do século XIX. Contudo, a obra permanece atual em muitos aspectos, já que, até hoje, os preconceitos afetam as relações pessoais e afetivas.

Lúcia reflete bem essa situação, uma vez que a personagem, nos dias atuais, seria vista como uma mulher fora dos padrões morais e julgada por seu modo de vida pela mesma sociedade que usufrui de seus afazeres.

Nisto chegou o médico a quem tinha escrito imediatamente, e que depois de examinar o estado de Lúcia, declarou que não inspirava receio. Ela estava ameaçada de um aborto, resultado do choque violento que sofrera, quando conheceu que se achava grávida. O doutor, um dos mais hábeis parteiros da corte, procurou desvanecer os receios de Lúcia, assegurando-lhe que seu filho vivia, e nada ainda fazia recear pela sua vida. Apenas o médico saiu, ela olhou-me tristemente:

— Era o primeiro! Mas o tato das entranhas maternas, sejam elas virgens ainda, não engana. Nosso filho, Paulo, o teu, porque ele era mais teu do que meu, já não existe.

À noite declarou-se a febre; uma febre intensa que a fez delirar. Foi então que conheci quanto eu vivia no seu pensamento: ela não disse no delírio uma só palavra que não se referisse a mim e a alguma circunstância de nossa vida mútua, desde o primeiro dia em que nos encontramos. Pela manhã, depois de um sono curto e agitado, achei-a mais tranquila:

— Tu me prometes, Paulo, casar com Ana!

— Não tratemos disso agora, minha amiga! Quando ficares boa, tudo o que tu quiseres eu farei para a tua felicidade.

— Mas essa promessa me daria tanto agora!

 — Escuta, Maria, esse casamento nos tornaria infelizes a ti, à tua irmã, e a mim que não poderia amá-la, mesmo por causa dessa semelhança! Tu viverias sempre entre mim e ela!

— Pois bem, promete-me que se ela não for tua mulher, lhe servirás de pai.

— Juro-te!

Beijou-me as mãos:

— Ela vai ter tanta necessidade de um pai!

Até a próxima!

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