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Resumo de livro: Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo

Olá, leitor!

Lira dos Vinte Anos é uma obra que marcou o ultrarromantismo, segunda fase da poesia romântica no Brasil. O livro também foi o responsável por colocar Álvares de Azevedo como o principal nome dessa escola literária, mesmo o autor tendo vivido apenas 20 anos.

O ultrarromantismo é conhecido como “mal do século” por conta de sua visão pessimista acerca da vida e do amor e de seus poetas que se apresentavam como angustiados, tristes e sonhadores. Diziam-se criaturas errantes e versavam sobre amores impossíveis ou platônicos tão intensos que levavam a situações extremas de vida ou morte.

Álvares de Azevedo, sem dúvida, é o maior poeta dessa fase, sendo influenciado por autores românticos europeus como Alfred de Musset (1810 – 1857) e Lord Byron (1788 – 1824), a grande inspiração do ultrarromantismo.

Página Rota

Meu pobre coração que estremecias,
Suspira a desmaiar no peito meu:
Para enchê-lo de amor, tu bem sabias
Bastava um beijo teu!

Como o vale nas brisas se acalenta,
O triste coração no amor dormia;
Na saudade, na lua macilenta
Sequioso ar bebia!

Se nos sonhos da noite se embalava
Sem um gemido, sem um ai sequer,
E que o leite da vida ele sonhava
Num seio de mulher!

Se abriu tremendo os íntimos refolhos,
Se junto de teu seio ele tremia,
E que lia a ventura nos teus olhos,
É que deles vivia!

Via o futuro em mágicos espelhos,
Tua bela visão o enfeitiçava,
Sonhava adormecer nos teus joelhos…
Tanto enlevo sonhava!

Via nos sonhos dele a tua imagem
Que de beijos de amor o recendia…
E, de noite, nos hálitos da aragem
Teu alento sentia!

Ó pálida mulher! se negra sina
Meu berço abandonado me embalou,
Não te rias da sede peregrina
Dest’alma que te amou…

Que sonhava em teus lábios de ternura
Das noites do passado se esquecer…
Ter um leito suave de ventura…
E amor onde morrer!

Estrutura da obra

Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo

Fonte: Canal do Ensino

A obra em questão é uma antologia poética que reúne os principais poemas do escritor e foi organizada pelo próprio autor. Contudo, Álvares de Azevedo morreu em 1852 e o livro foi publicado postumamente, em 1853.

A obra está dividida em 3 partes. A primeira, intitulada Ariel, possui uma dedicatória feita para a mãe do poeta, um prefácio geral e 33 poemas. A segunda, intitulada Caliban, possui um prefácio sobre essa parte específica e 19 poemas.

Ao longo do livro, vemos 3 estilos diferentes da poesia de Álvares de Azevedo: um tipicamente romântico, na primeira parte, outro voltado para uma produção poética mais irônica, sarcástica e até mesmo macabra, na segunda parte, e um terceiro que mescla traços dos estilos anteriores, na última parte.

Para ficar mais claro, pode-se dividir a obra da seguinte maneira:

1ª Parte: Ariel

A primeira parte intitula-se Ariel, referência à entidade que representa o bem na peça A Tempestade, de William Shakespeare (1564 – 1616). Nessa seção da obra, vemos poemas sobre amor platônico e afeto, sempre trabalhados de forma extremamente sentimental, enfatizando o romantismo e a melancolia.

No Mar

Era de noite: – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração,
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!

Sonhavas? – eu não dormia;
A minh’alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas das sensitivas!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor,
Ó madresilva de amor,
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Entrevendo a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração.

No poema em questão, podem ser observadas algumas características do ultrarromantismo. Notamos que a mulher dormindo é contemplada pelo poeta com admiração e desejo, mas ele não chega a incomodá-la ou tocá-la. Há, assim, a idealização da mulher amada por meio de uma admiração platônica cheia de afetividade.

Outra questão é o uso constante do ambiente noturno nos poemas do autor como um elo entre o sonho e o amor e um paralelo entre luz e sombras, ressaltando a mulher pálida ao mesmo tempo em que enfatiza a paisagem sombria na qual ela se encontra. Apesar de ser um poema de amor, são perceptíveis as temáticas da morte e da melancolia.

 

Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
… Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade… é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade… é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco – bem poucos… e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!

No poema acima, que encera a primeira parte, podemos perceber os exageros sentimentais que levam à morte. Há um forte pessimismo, mesmo quando o poeta faz a exaltação da donzela idealizada, uma atmosfera onírica que permeia os sonhos e as fantasias e, novamente, a utilização da noite e das sombras para consolidar o cenário do poema.

2ª Parte: Caliban

A segunda parte do livro intitula-se Caliban, também em referência a um personagem de A Tempestade, que, por sua vez, representa uma entidade ligada ao mal. Nessa seção, estão os poemas demasiadamente mórbidos que versam sobre cadáveres e vultos, repletos de ironia, sarcasmo, tristeza e extremo pessimismo.

Lágrima de Sangue

Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minh’alma.

Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo…
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.

No trecho acima, podemos perceber o uso de um estilo mais irônico e sarcástico. Utiliza também pessimismo e tristeza para falar sobre a morte, a alma, o espírito, o mundo terreno e outras temáticas que podem ser consideradas macabras.

As 3 partes e as influências na obra de Álvares de Azevedo

As 3 partes do livro Lira dos Vinte Anos são caracterizadas pelas influências literárias de Álvares de Azevedo:

1ª Parte: Musset e Lamartine

A primeira parte é caracterizada por poemas que remetem a autores como Alfred de MussetAlphonse de Lamartine (1790 – 1869), sendo marcada pela idealização da mulher e do amor, mesmo com a presença constante da temática da morte. Também utiliza figuras de caráter religioso e atmosferas de devaneios oníricos, ou seja, de sonho e fantasia.

2ª Parte: Lord Byron

A segunda parte traz poemas inspirados na produção literária de Lord Byron, que é marcada por temáticas mais sombrias permeadas por pessimismo, melancolia, tristeza, morbidez, ironia, humor ácido e uma linguagem que se aproxima do escárnio.

3ª Parte: Mistura da primeira e da segunda parte

A terceira parte contém poemas que mesclam as duas influências descritas anteriormente, (apesar de ser mais semelhante à primeira). Por isso, mistura versos sobre amor idealizado, sonho e fantasia com poemas mórbidos e sombrios. Contudo, também há humor, ironia e poemas que tratam do próprio ato de escrever, caracterizando metalinguagem.

A Minha Desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,

Nem na terra de amor não ter um eco,

E meu anjo de Deus, o meu planeta

Tratar-me como trata-se um boneco…

 

Não é andar de cotovelos rotos,

Ter duro como pedra o travesseiro…

Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido

Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…

 

Minha desgraça, ó cândida donzela,

O que faz que o meu peito blasfema,

É ter para escrever todo um poema

E não ter um vintém para uma vela.

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Até logo!

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