Você está aqui:Home » Dicas » Estudantes » Laços de Família, de Clarice Lispector

Laços de Família, de Clarice Lispector

Olá, leitor!

Considerada uma das coletâneas de contos mais importantes de Clarice Lispector, Laços de Família é uma obra que apresenta a temática familiar como foco principal, bem como questões acerca da vida das mulheres, permeadas por narrativas com histórias cheias de um eu-lírico feminino através de fluxo de consciência extremamente característicos dessa autora.

Os contos desse livro se interligam ao narrarem histórias sobre desentendimentos familiares, onde nos são apresentadas personagens comuns que são massacradas pouco a pouco por questões familiares ou imposições impostas pela sociedade ou por outras situações, tais, como: o matrimônio e a maternidade.

São histórias de personagens que buscam libertação, sejam de quaisquer forem as situações, passando pela libertação das obrigações impostas pela sociedade até mesmo pela libertação da culpa e do remorso sobre certas escolhas de vida.

Em Laços de Família, encontramos contos que passam quase sempre por reflexões acerca dos papes exercidos no convívio familiar e social, sendo que a maioria das personagens passam por uma análise da própria vida para enfim chegarem a uma epifania que rompe com a monotonia e com as coisas que são impostas às pessoas, em sua maioria, as mulheres.

Resumo dos Contos

Laços_de_Familia_Clarice_Lispector_resumo

(…) Ai que quarto suculento! ela se abanava no Brasil. O sol preso pelas persianas tremia na parede como uma gui­tarra. A Rua do Riachuelo sacudia-se ao peso arquejante dos elétricos que vinham da Rua Mem de Sá. Ela ouvia curiosa e entediada o estremecimento do guarda-loiça na sala das visitas. D’impaciência, virou-se-lhe o corpo de bru­ços, e enquanto estava a esticar com amor os dedos dos pés pequeninos, aguardava seu próximo pensamento com os olhos abertos. “Quem encontrou, buscou”, disse-se em forma de rifão rimado, o que sempre terminava por parecer com alguma verdade.

Devaneio e embriaguez duma rapariga

Neste conto, deparamo-nos com a história de uma portuguesa entediada com seu papel de esposa, mãe de família e dona de casa, a protagonista passa por uma reflexão sobre sua vida e chega a abandonar todas as tarefas domésticas, o que faz com que o marido chegue a pensar que ela está doente, contudo, é apenas a insatisfação da personagem com o tédio de sua vida.

Sendo assim, o marido decide levá-la a um jantar de trabalho com um comerciante rico. Aproveitando a situação, a dona de casa acaba se embebedando e fica extremamente feliz, devido a quebra de rotina e tédio que se instaura na sua vida.

As atitudes da mulher beiram ao vexame, o tanto que ela bebe e exagera em suas ações, torna-se uma mulher totalmente diferente da dona de casa que sempre foi, porém, a presença do marido proporciona segurança a ela que continua com sua extravagância alcoólica até a chegada de uma outra mulher, uma loira muito bonita e atraente, que causa um espécie de inveja e humilhação à figura da dona de casa.

Entretanto, ao analisá-la, a portuguesa percebe que a moça que acabou de chegar tem a cintura muito fina, o que a impossibilitaria de ter filhos, assim, consagra-se como vencedora da disputa entre as duas, pois, ela tem filhos e vencera a adversária por isso, que é o papel principal da existência feminina.

Amor

A protagonista deste conto, Ana, é uma mulher casada que possui uma vida pacata e dois filhos, vivendo sempre a cuidar da casa e das tarefas de esposa e mãe, porém, Ana encontra-se infeliz.

Numa tarde solitária em sua casa, decide-se por sair e fazer compras, após isso, no caminho de volta para casa, vê algo incomum: um cego mascando chicletes, começa assim a divagar sobre esse ato maquinal feito na escuridão, fazendo uma análise da sua própria vida a comparar aquela ruminação maquinal cega, o que faz com que ela entre em desiquilíbrio existencial.

Atrapalha-se e derruba suas compras no bonde, além de deixar-se ser levada pelo bonde e ir parar no Jardim Botânico, onde sai para caminhar e ruminar seus pensamentos.

É neste lugar onde chega a uma epifania: diante das grandes arvores, avista alguns vegetais presos em seus galhos, contudo, esses mesmos vegetais eram sugados por parasitas, o que causa nojo em Ana. Assim, ela perde a noção do tempo e caba sendo trancada dentro do parque, pois ele já havia fechado.

Fica vagando a procura de alguém que possa permitir que ela saia, neste tempo, continua a pensar na árvore e seu parasita, chegando a conclusão que eles são fundamentais um para os outros, mesmo que a árvore seja o lado ais forte dessa relação e possa sobreviver sozinha.

Portanto, ela consegue achar a saída e volta para casa, sendo a esposa e mãe dedicada de sempre, amando-os incondicionalmente, de uma forma louca, com um amor que até mesmo causava nojo, e assim acaba acreditando que está cumprindo seu papel familiar e existencial.

Uma galinha

Neste conto nos deparamos com a história de uma galinha que foi comprada por uma família para se tornar refeição, contudo, antes que a matassem para coloca-la na panela, essa galinha consegui alçar voo e fugir pelos telhados das casas da vizinhança, o chefe da família a persegue até conseguir agarrá-la, depois de certo tempo de uma corrida desesperada pela vida.

De volta à casa da família, após ser apanhada, a galinha fica terrivelmente assustada e acaba botando um ovo. O ato sagrado de botar um ovo, que está intrinsecamente ligado à questão feminina da maternidade, acaba salvando a vida da galinha, pois, após verem o ovo, os membros da família desistem de comê-la e passam a tê-la como a mascote da casa por um bom tempo.

Entretanto, depois de certo tempo, a galinha para de botar ovos e acaba finalmente virando refeição.

A imitação da rosa

Neste conto encontramos Laura, uma mulher casada e sem filhos, que está se preparando para um jantar na casa de amigos. Na narrativa, é a primeira vez em que Laura volta a vida normal e vai sair de casa para ver outras pessoas após a temporada em que esteve internada no hospital, devido a um surto.

Os planos de Laura eram estar arrumada e com tudo pronto antes que se marido chegasse, assim teria tempo de ajudá-lo a se aprontar. Laura buscava a perfeição a todo tempo e queria ser uma esposa modelo, por isso vivia somente para cumprir as obrigações do lar.

Laura acaba cochilando no sofá, quando acorda, sente-se que tudo em sua vida está renovado e as rosas que comprara pela manhã lhe parecem ainda mais belas e cheias de vida, então, decide por levá-las ao jantar e presentear a amiga com elas.

Pensou em mandar as rosas antes, por meio da empregada que logo despacharia de casa, contudo, estava incerta quanto a isso, perguntava-se porque aqueles lindas rosas não poderiam ser dela e por que aquelas rosas a ameaçavam.

Porém, acabou mandando-as mesmo assim quando a empregada foi embora e não teve mais como voltar a atrás. As rosas acabaram por romper em Laura o seu desejo de não ser mais submissa, ou seja, a vontade de ser linda, independente e tranquila como as rosas, sem necessitar de mais nada ou ninguém para isso.

As horas passas e o marido chega em casa e encontra Laura ainda sentada na poltrona, sendo que ela não conseguiu fazer nada daquilo o que tinha planejado.

Feliz Aniversário

Neste conto encontramos a infelicidade e elos familiares enfraquecidos através da narrativa de uma história que conta a preparação de uma festa de aniversário para uma senhora que mora com uma de suas filhas.

Por alguma razão a filha está revoltada por ter que fazer todos os preparativos da festa, não acha justo que ela deva arcar sozinha com o trabalho e com os gastos do aniversário da mãe enquanto que os irmãos apenas apareceram para comemorar o aniversário e aproveitarem da melhora parte da comemoração.

Contudo, esse sentimento é o interior, pois, no exterior, a filha apresenta-se disfarçadamente feliz, empolgada e solicita para o aniversário da mãe.

Aos poucos os outros membros da família vão chegando, os outros filhos, irmãos, sobrinhos, netos; porém, nenhum deles parece contente de estar ali, participam da festa apenas para manterem as aparências e fingirem um laço familiar inexistente, sendo que muitos nem visitam a senhora em outras datas a não ser nas festivas.

Dona Anita, a velhinha aniversariante do conto, observa-os em silêncio a família chegando e a cumprimentando, contudo, internamente, julga a todos e percebe que não existem laços familiares entre aquelas pessoas, que todos estão ali por mera formalidade e então acaba por romper num lapso de raiva onde briga com todos e diz algumas verdades a eles, o que culmina na aceleração do final da festa com o cantar dos parabéns e os parentes indo embora, não antes de ironicamente um dos ilhós dizer a ela até ano que vem.

“Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos – provavelmente já além dos cinquenta anos, que sei eu! – os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos – ainda mais fracos e mais azedos – haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não aguenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos – nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.”

A menor mulher do mundo

Um conto carregado de simbolismo e um lirismo poético pungente, que narra a história de uma mulher integrante de uma tribo africana de pigmeus que se encontrava até então isolada do resto da sociedade.

A mulher em questão possui apenas 45 cm, o que dá a ela o título de a menor mulher do mundo. A notícia dessa descoberta se espalha pelo mundo e todos querem ter a menor mulher do mundo em casa, seja como objeto de divertimento, entretenimento ou com a desculpa de que ela merecia ser cuidada e preservada, contudo, as personagens deste conto sempre apresentam pensamentos sombrios acerca da posse dessa mulher que mostra-se se ruma figura inocente e extremamente feliz, mesmo tendo muito pouco de acordo com a visão de mundo das pessoas comuns.

Um conto enigmático com uma narrativa irônica sobre a vontade do ser humano de possuir as coisas.

O Jantar

O primeiro conto dessa obra com a narrativa do ponto de vista masculino, onde se pode observar toda a meticulosidade do homem a jantar, numa espécie de metáfora com a questão de alimentação ser algo essencial para a sobrevivência humana, vindo desde os tempos primitivos do homem.

O personagem em questão observa um velho a comer num restaurante de forma bruta e feroz, o que lhe causa náuseas e a perca do apetite e o faz refletir sobre o ato de comer e sobre a vida em si. Outro conto cheio de simbolismos e metáforas dessa obra.

Preciosidade

Essa narrativa apresenta-nos a uma protagonista feminina que vivia em constante tensão por ter que sempre guardar a sua preciosidade, contudo, essa estudante de 15 anos, morria de medo de aproximar-se de figuras masculinas devido a esse fator.

Entretanto, ao decorrer dessa história sobre transformação, a mocinha vai percebendo como a sua preciosidade anda ameaçada devido ao fato de estar se tornando uma mulher, até chegar ao clímax do conto que se apresenta num beco sem saída, apresenta-se quando ela percebe que não existe meios de fugir das “responsabilidade” femininas ao se tornar uma mulher.

Os laços de família

Uma história que nos revela como os laços familiares podem ser frágeis e também falsos. Depois de duas semanas visitando a filha, a narrativa começa com mãe, uma mulher severa e rígida, despedindo-se de sua filha na estação de trem.

Contudo, seguindo os pensamentos da filha, ela lembra-se como o marido e a mãe não se suportavam e viviam uma atacar o outro sutilmente durante a estadia, como também, a mãe sempre arrumava motivos para criticá-la em diversos aspectos.

Entretanto, na hora da despedida, genro e sogra passam a se tratar muito bem e despedem-se de forma calorosa e até mesmo muito amigável, como se fossem realmente entes queridos e, ao mesmo tempo em que sentia vontade de rir daquela situação, também constata que os laços familiares possuem essas falsidades que, na maioria das vezes, são fundamentais para o bom convívio entre os entes queridos.

Assim, ela á tomada por uma epifania acerca a sua vida e os seus laços familiares através da análise dessa situação. Ao voltar para casa, ainda confusa com os sentimentos que sentira durante a despedida com a mãe que, mesmo sendo distantes, pois ela era mais próxima ao pai, sentiu vontade de despedir-se calorosamente dela e chama-la de mãe, mas não o fez, a protagonista decide dar novos ares para a sua vida e levava de uma forma mais leve, decidindo-se também em mudar a forma como os laços familiares são empregados em sua casa, começando pelo filho.

A história termina com a protagonista a rir-se sozinha, o que chama a atenção do filho e do marido, já que ela sempre foi uma mulher parecida com a mãe, e ela os chama para ir ao cinema mais à noite.

Começos de uma fortuna

Esse conto é narrado por um protagonista masculino e retrata a luta por atenção, o que faz com que o protagonista seja uma pessoa obcecada por trocas. Assim, nos é revelado que desde pequeno Artur era carente de atenção e sempre fez de tudo para conseguir a atenção de outras pessoas.

Outra característica marcante dessa personagem é o fato de ele sempre querer poupar, ou seja, ser um rapaz com avarento e com opiniões formadas em relação ao dinheiro e as pessoas, em especial, as mulheres. Artur possui uma migo, o Carlinhos, que é o oposto dele e acredita que o dinheiro foi feito para ser gasto.

Em certo momento, Carlinhos convida Artur para ir ao cinema junto a duas garotas para que eles a paquerassem. A ideia de ter que pagar o cinema para a menina deixa Artur apavorado, o que faz com que ele saia apenas com o dinheiro para o seu ingresso.

Contudo, não conseguindo fugir de pagar o ingresso da garota, Artur vê-se obrigado e ter que fazer um empréstimo com o amigo, mesmo que odeie fazer empréstimos a outras pessoas e a pedir também.

Mistério em São Cristóvão

Outro conto denso e cheio de simbolismos e metáforas abstratas, onde nos é apresentado uma família constituída de avó, mãe, pai, crianças e uma filha moça.

A família em si se considera feliz e está satisfeita com a vida, com exceção da moça, que por algum motivo encontra-se infeliz e insatisfeita.

Quando todos os membros familiares vão dormir à noite, a moça fica acordada e vê três cavaleiros aproximarem-se da casa e entrarem em seu jardim para roubar uma flor.

Moça fica apavorada e começa a gritar, o que acorda a todos na casa. Todos se levantam apavorados e escutam a história da moça, contudo, acabam por duvidar daquilo o que aconteceu, pois, três homens aparecerem ali para roubar uma flor seria demasiadamente em sentido.

Contudo, acabam por acreditar nela ao observarem que o talo da flor no jardim encontra-se quebrado, o que comprova que alguém tentou colhê-la.

Isso faz com que o equilíbrio familiar seja colocado à prova e que eles tenham que lutar para vencer o medo e voltarem a vida normal, porém, a moça fica muito abalada e percebe que alguns fios de cabelos brancos surgiram em sua cabeça.

O crime do professor de matemática

Nesta narrativa, deparamo-nos com a história de um professor de matemática que vai até a parte mais alta da cidade enterrar um cachorro que encontrara morto.

Trata-se de mais um conto denso e enigmático, permeado por elementos religiosos através de símbolos e menções. O protagonista sente-se obrigado a enterrar aquele cão como compensação do abandono do seu antigo animal de estimação.

No meio desses acontecimentos, o professor divaga entre a culpa e o remorso de ter abandonado o animal que lhe tinha escolhido como dono, abandono que aconteceu sem motivo algum, apenas pelo fato de animal exigir que ele fosse humano, exigir afeto e querer sempre estar perto do seu mestre.

Assim, adentramos nos pensamentos da personagem e seguimos com ele nessa viagem da sua própria culpa e a sua inabilidade de sentir empatia e simplesmente ser uma pessoa sensível, ser humana, como a maioria das pessoas deveria ser.

O búfalo

A protagonista deste conto está passando por uma fase de abandono de relacionamento e, após o fracasso na vida amorosa por não ter sido correspondida adequadamente ou da forma como queria, decide-se por querer odiar.

Assim, ela se encaminha então até o zoológico, com a intenção de encontrar nos animais, consideradas como formas primitivas e cheias de instinto, a arte de conseguir ser uma pessoa feroz e a destruir o amor e os seus sentimentos bons para que restasse apenas ódio dentro de si.

Entretanto, sua experiência com o mundo animal mostra-se como mais um fracasso em sua vida, pois, encontra na maioria dos animais sentimentos bons e amor em muitas de suas atitudes.

É quando ela se depara com a figura do búfalo, um animal imponente que exala uma espécie de simbologia que se afeiçoava com a masculinidade do homem.

Logo, ela passa a utilizar aquele animal como uma forma de canalizar o seu ódio; porém, um misto de amor e ódio passa a dominar os seus pensamentos, fazendo com que a protagonista passe a admirar o animal e até mesmo a sentir-se atraída por ele.

Nesse misto de diversas sensações, muita delas com cunho sexual, a personagem termina a história numa espécie de êxtase sexual misturada com uma epifania, onde ela termina o conto perdendo essa batalha para o búfalo que fica a encará-la e faz com que ela desmaie no meio do zoológico, sendo que a ultima imagem que vem à cabeça da mulher é a visão de um búfalo no céu que ela avista antes de cair no chão.

Estrutura da Obra

O livro Laços de família reúne treze contos de Clarice Lispector, sendo que em sua maioria são narrados em terceira pessoa, tendo apenas um conto narrado em primeira pessoa.

Além disso, os protagonistas dos contos são femininos em sua maioria, tendo apenas três narrativas focadas em protagonistas do sexo masculino.

Em todos os contos podem ser encontrados elementos críticos acerca das imposições feitas pela sociedade em relação ao papel da mulher, contudo, essa temática encontra-se em segundo plano, pois, sem dúvidas, em primeiro plano encontra-se a temática familiar, ou seja, as dificuldades e impasses nos relacionamentos familiares.

Relevância da Obra

A obra possui uma extrema relevância devido ao fato de ela enquadrar-se na terceira fase do modernismo brasileiro, também conhecido como neomodernismo da geração de 1945.

As características mais importantes dessa escola literária, são: o emprego do fluxo de consciência, onde o narrador deixa os seus pensamentos fluírem de forma livre durante a história, sendo essa uma marca característica da escrita de Clarice Lispector; monologo interior, onde os protagonistas conversam consigo mesmo sobre os aspectos da sua vida; questões psicológicas, onde as personagens fazem uma análise profunda delas mesmas ou das suas vidas ou de quaisquer outros aspectos que as cercam; anulação de questões de tempo e espaço, sendo em sua maioria narrativas que não se preocupam com esses dois aspectos; linguagem fluída e livre, com a abolição de constrição sintáticas e pontuações exigidas pela ortografia; utilização de metalinguagem, metáforas mais complexas e símbolos; e histórias que abordam questões existenciais da condição humana.

Em Laços de Família, podemos encontrar todas essas peculiaridades, o que faz com que essa obra esteja entre os melhores escritos de Clarice Lispector e, sem dúvidas, ganhando em disparada como o melhor livro de contos dessa exímia escritora da literatura nacional.

“E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.”

Até logo!

Deixe um comentário

© 2012-2019 Canal do Ensino | Guia de Educação

Voltar para o topo