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Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

Olá, leitor!

Incidente em Antares foi o último romance escrito e publicado por Érico Veríssimo, em 1971, quatro anos antes de sua morte. Veríssimo aborda temas do fantástico e do sobrenatural, num gênero chamado de Realismo Fantástico.

A história se passa em 1963, um ano antes do golpe militar. Em 11 de setembro, sete pessoas morrem, das mais diversas causas em Antares, no Rio Grande do Sul. Em virtude de uma greve geral que afetou, inclusive, os coveiros, os mortos permanecem insepultos.

Talvez animados pela inquietação geral da cidade, os mortos saem de seus caixões, largados às portas do cemitério, durante o cortejo de uma personalidade local. A própria Dona Quitéria, cujo cortejo foi interrompido, também se levanta de seu leito.

Incapazes de sofrerem represálias por parte da polícia ou da população civil em geral, os mortos se põem a andar pela cidade, desenterrando os segredos mais profundos da população local. Os mortos-vivos não se fazem de rogados e investigam, até mesmo, seus parentes e amigos, cujos laços são agora rompidos com a morte.

A obra toda é marcada pelo teor político, às vezes até exacerbado. Talvez seja por isso que Veríssimo deslocou seu romance para 1963, antes do golpe militar. Para evitar represálias da ditadura pós-AI-5, o autor pode ter preferido relacionar seus personagens com um modelo político que já não estava sob os holofotes.

O humor característico de Veríssimo se faz presente com pitadas de ironia e carregado de crítica social, o autor traça um panorama da sociedade oligárquica de Antares. Isso tudo numa comparação, às vezes não tão velada assim, com a sociedade brasileira da época.

Um exemplo claro do tom irônico de Veríssimo é a escolha dos mortos como o fio condutor de toda a história. Os mesmos ameaçam as autoridades que ficariam apodrecendo no coreto da praça central da cidade, caso não fossem sepultados adequadamente.

Porém, em lugar de um apodrecimento literal, estes revelam toda a podridão moral que a cidade escondia. Veríssimo quis provar com isso que, não importa o lado que você escolha em um conflito, todos temos nossas falhas, mas preferimos escondê-las para apontar as dos outros.

No verão de 1860 chegou ao conhecimento de Chico Vacariano que um certo Anacleto Campolargo, criador de gado e homem de posses, natural de Uruguaiana, ia comprar terras nas proximidades de Antares. Murmurava-se que esses Campolargos eram descendentes por linha reta dum tropeiro paulista que entrara um dia numa furna do cerro do Jarau – talvez na famosa Salamanca da antiga lenda – encontrando lá um fabuloso tesouro, pois de outro modo ninguém podia explicar como um modesto negociante de mulas andasse sempre com a sua guaiaca cheia de onças de ouro, rutilantes como sóis.

Mesmo sem jamais ter visto a cara de Anacleto Campolargo, o senhor de Antares fez o possível para que a transação não se consumasse. “Não quero intrusos por aqui!” – dizia. Ora, essas terras que Campolargo queria adquirir pertenciam a um chefe político de São Borja, homem influente, amigo íntimo do governador da província. Chico Vacariano não teve outro remédio senão “engolir o sapo”, segundo uma expressão sua. Consumada a transação, Anacleto Campolargo mandou logo construir uma grande residência de alvenaria em Antares, na praça do Império, naquele tempo pouco mais que um potreiro onde cavalos e vacas pastavam.

A primeira vez em que Chico Vacariano e Anacleto Campolargo se defrontaram nessa praça, os homens que por ali se encontravam tiveram a impressão de que os dois estancieiros iam bater-se num duelo mortal. Foi um momento de trepidante expectativa. Os dois homens estacaram de repente, frente a frente, olharam-se, mediram-se da cabeça aos pés, e foi ódio à primeira vista. Chegaram ambos a levar a mão à cintura, como para arrancar as adagas. Nesse exato momento o vigário surgiu à porta da igreja, exclamando: “Não! Pelo amor de Deus! Não!”

Nenhum dos dois potentados parecia amar a Deus e muito menos ao vigário. Contiveram-se, porém, cada qual uma secreta razão particular, e depois retomaram ambos seu caminho, seguindo em sentidos opostos.

Foi assim que entre as duas dinastias antarenses, a dos Vacarianos e a dos Campolargos, começou uma feroz rivalidade, que deveria durar quase sete decênios, com períodos de maior ou menor intensidade, ao sabor de acontecimentos de ordem política, econômica ou puramente pessoal.

Resumo da Obra

Incidente em Antares

Fonte: Reprodução

O livro está dividido em duas partes, chamadas, de forma bem descritiva de “Antares” e “O Incidente”. Na primeira parte, é contada a história da cidade fictícia de Antares. Localizada no interior do estado do Rio Grande do Sul, ao norte de São Borja e às margens do rio Uruguai. Antares é uma cidade tão pequena que, literalmente, não figura em nenhum mapa.

Nos moldes de muitas histórias típicas de cidades do interior, é dividida entre duas famílias rivais: os Vacariano e os Campolargo. Em meio a tréguas e reacendimento de disputas, ambos os lados da história servem como um microcosmo da histeria brasileira, adaptado ao cenário local.

Inclusive, existe uma passagem onde ambas as famílias se unem para enfrentar uma suposta ameaça comunista, encarnada nos operários fabris de Antares, que exigia melhores condições de trabalho.

A pequena Antares é fundada em 1853 e tem como primeiro dirigente o patriarca Chico Vacariano. Chico permaneceu sem oponentes até o surgimento de Anacleto Campolargo, que também queria assumir o carpo de mandatário máximo da povoação. Esse fato foi o que deu origem à longa disputa pelo poder entre as duas famílias, ainda no século XIX. Disputa essa que se estendeu por mais de setenta anos.

Apesar de pequena, Antares não foi deixada de lado, com o avanço da nação. Após a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o presidente visita o povoado, na década de 30. O presidente, ele mesmo um gaúcho, consegue costurar uma frágil aliança entre as famílias, estabelecendo, assim, a primeira trégua entre elas.

Antares entra em sintonia com o cenário político nacional, a inauguração e o estabelecimento da política do Estado Novo de Vargas. A queda do mesmo Vargas, quinze anos depois. O rápido governo do general Gaspar Dutra. A volta de Vargas ao Planalto Central em 1951.

O misterioso atentado a Carlos Lacerda. Os esforços de Vargas para manter a estabilidade durante seu governo, sofrendo ataques em diversas frentes. O suicídio de Getúlio Vargas, também envolto em muito mistério. A eleição de Juscelino Kubitschek e a esperança que ela e a posterior construção de Brasília trouxeram, na década de 1960.

O governo de Jânio Quadros, retirado prematuramente do poder pelas chamadas “forças sinistras”, que o forçaram a abdicar da cadeira de presidente. Estes e outros fatos misturam-se à história da pequena Antares por toda a primeira parte, até chegarmos em 1963.

Já na segunda parte temos a ação que joga o romance, diretamente no realismo fantástico. A história se passa em 11 de dezembro de 1963 (um passado próximo, em relação à publicação do livro).

Nesse dia, é decretada uma greve geral na cidade, cujo epicentro foram aqueles mesmos operários das indústrias locais. Os próximos a apoiarem o movimento social são os funcionários do cemitério de Antares. Como consequência do ato, sete mortos ficam insepultos. São eles:

  • – Dona Quitéria Campolargo. Matriarca de uma das famílias da cidade, vitimada por um enfarte. Foi durante o cortejo de seu enterro que os funcionários do cemitério aderiram à greve;
  • – Doutor Cícero Branco, um advogado famoso na cidade que atuava como intermediário entre as duas famílias. Porém, não para promover algum tipo de armistício entre os Vacariano e os Campolargo, mas como agenciador dos negócios mais escusos de ambos. Morreu vítima de um derrame;
  • – Barcelona, um sapateiro com tendências ao anarquismo, morreu também vítima de um ataque cardíaco;
  • – Menandro, um maestro que deu cabo da própria vida, sucumbindo à depressão e cortando os próprios pulsos;
  • – Erotildes, uma prostituta já de idade avançada, vítima do descaso dos médicos em relação à sua tuberculose;
  • – João Paz, um ativista político, pacifista, como o nome sugere, que perdeu a vida após ter caído vítima de tortura pela polícia;
  •  – E, finalmente, Pudim de Cachaça. Como o próprio nome diz, era um conhecido bêbado local. Foi morto envenenado por sua mulher, após esta se ver cansada de suas constantes bebedeiras e contínuas agressões.

Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “No Povinho, o avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Pra mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal de luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa”.
Quando, no inverno de 1912, o intendente mandou instalar luz elétrica nas ruas da cidade, o velho Eusébio Reis, que durante mais de vinte e cinco anos exercera sozinho as funções de acendedor de lampiões, caiu numa tão grande depressão nervosa, que numa madrugada de julho enforcou-se num dos postes da iluminação moderna, e seu corpo amanheceu hirto, coberto de geada, balançando-se dum lado para outro, sacudido pelo vento gelado que soprava das bandas dos Andes.
Para surpresa geral, foi um Vacariano quem, em 1911, trouxe para Antares o primeiro automóvel, um Oldsmobile, que mandara vir de Buenos Aires. Depois de aprender a dirigir o veículo, um dos seus maiores prazeres era passear nele, de tolda arriada, pela cidade, apertando provocadora-mente na buzina de fonfom sempre que passava pela frente do solar dos Campolargos. Estes não tardaram em mandar buscar da Alemanha um automóvel Benz.

Respondendo ao descaso dos vivos, os mortos, que foram abandonados diante dos cemitérios, levantaram-se de seus esquifes, à noite. Dirigindo-se para a cidade, com o intuito de reclamarem tratamento pós-morte adequado, causaram pânico por onde quer que passassem.

Após certo tempo de caminhada, resolveram separar-se temporariamente. O ponto de reencontro deveria ser o coreto, localizado na praça central da cidade, ao meio-dia em ponto, daí a dois dias, numa sexta-feira.

Passa-se então à jornada pessoal de cada um dos personagens. Indo cada um visitar seus parentes e amigos, acabam descobrindo alguns aspectos relacionados às suas mortes, bem como registrando as reações das pessoas em relação às suas novas condições de desmortos.

Fazem-se valer de sua condição de não-vida para vasculhar esses segredos escondidos, sem temer qualquer atitude contrária por meio da população.

Os defuntos exigem, junto às autoridades locais, o sepultamento até, no máximo o prazo de um dia. Caso contrário, permanecerão no coreto da praça central, apodrecendo a olhos vistos.

Quando do horário marcado, todos estavam no local acordado, numa macabra sexta-feira 13. Toda a população da cidade acompanhou os desmortos, com uma curiosidade (com o perdão do trocadilho) mórbida para saber o desfecho do incidente. Porém, os mortos não estão dispostos a ficar lá, apenas apodrecendo.

É aí que temos o clímax da história, onde os mortos começam a acusar os vivos e a denunciar todos os pecados dos moradores. Doutor Cícero Branco, começa a expor todas as evidências que levaram ao enriquecimento ilícito de ambas as famílias.

Expõe também as circunstâncias obscuras envolvendo a morte de João Paz. Barcelona também faz algumas revelações acerca dos casos de adultério. O sapateiro ouvia, sem que ninguém soubesse, as conversas de seus clientes, enquanto exercia seu ofício.

A velha meretriz Erotildes desata a dar os nomes de alguns de seus amantes, figuras importantes na cidade de Antares. Essas acusações preliminares levam a outras, desta vez, proferidas pelos próprios vivos, causando um tumulto generalizado na cidadezinha gaúcha.

Como resultado, os grevistas abandonam a luta para avançarem por sobre os desmortos acusadores, Acuados, os mortos se veem forçados a retornar ao cemitério, onde são, por fim, sepultados.

Em seguida, as autoridades locais, encabeçadas pelas duas famílias, começam a reprimir a população, para não comentarem sobre aqueles dois dias de caos, causado pelos mortos. Porém, como era de se imaginar, o Incidente atrai a atenção de muita gente, ultrapassando os limites da cidade. Repórteres, vindos de diversas regiões, prestam visita à cidade, em busca da verdade sobre o ocorrido.

A história é confirmada por alguns moradores de Antares, mas estes não conseguem apresentar provas, senão seu próprio depoimento. Em contrapartida, as autoridades locais afirmam, veementemente, que o tal “Incidente” não era mais que um mero boato, com o intuito de promover a feira agropecuária local.

Para desalento (ou talvez alívio) dos locais, esta versão é a que é publicada, fazendo, assim, o Incidente em Antares ser relegado ao domínio das lendas. Aos poucos as pessoas foram se esquecendo do Incidente, crendo que tenham sido vítimas de algum tipo de histeria coletiva.

O prefeito fechou o seu volume com violência, produzindo um ruído fofo, e atirou-o com desprezo e rancor em cima de sua mesa de trabalho. Olhou em torno e perguntou:

– Em resumo, na opinião dos ilustres amigos, que devemos fazer diante de todas essas… esses… insultos e mentiras? Aprovam a idéia de publicarmos um protesto nos jornais?

– Não – disse o Dr. Paiva. – Seria chamar a atenção e o interesse de muita gente sobre esse livro que, de outro modo, passaria despercebido. Qualquer coisa que respeito na imprensa escrita, no rádio ou na televisão serviria de propaganda para essa obra. Por outro lado não temos bases para processar judicialmente seus autores porque, vejam bem, nessas quase quinhentas páginas não se menciona uma vez sequer o nome Antares. Itaqui, Quarai, Livramento, São Borja e Uruguaiana também poderiam muito bem vestir a carapuça…

Houve um silêncio curto, cortado de pigarros, tosses, arrastar de pés e ranger de cadeiras. Lucas Faia falou:

– Bom, senhores, como diretor e redator-chefe de A Verdade não posso deixar de escrever um artigo veemente contra esses caluniadores, sob pena de passar por covarde ou indiferente E vou pedir aos nossos leitores que boicotem esse livro, e evitem até tocar com a ponta dos dedos a sua capa… que aliás está unu beleza, diga-se de passagem.

O prefeito ergueu-se, deu um puxão nas pontas do casaco, e disse:

– Proponho que o Prof. Martim Francisco Terra e os demais membros de sua equipe sejam declarados oficialmente pessoas não gratas a Antares.

A moção foi secundada pelo juiz e aprovada por unanimidade. O Maj. Vivaldino declarou a sessão encerrada e, ao despedir-se dos amigos à porta de seu gabinete, sugeriu.

– Não seria má idéia comprar uns trinta. ou vinte… ou mesmo dez exemplares desse livro e queimá-los todos numa solenidade em praça pública, numa manifestação de protesto contra as mentiras que ele contém.

O Mendes tocou com a ponta dos dedos os carnudos ombros do seu chefe:

– Major, seria um auto-de-fé muito caro. O senhor viu o preço de cada volume? E, de resto, não temos verba.

O vigário, consultado, não concordou com a idéia do prefeito.

– Castiguemos esses moços com o nosso perdão – disse evangelicamente.

Estrutura da Obra

A narrativa dessa obra é estruturada em duas partes que mesclam acontecimentos históricos reais e acontecimentos histórico inventados. Com cerca de 450 páginas, a depender da edição, distribuídas em 102 capítulos, em sua maioria, curtos.

Contexto Histórico

O contexto histórico predominante e importante dessa obra é o fato de que esse livro carrega consigo as marcas da segunda fase da geração modernista, que introduziu inovações formais na forma de se contar as histórias, buscando originalidade em questões linguísticas.

Além disso, a geração heroica de 1922 trouxe inovações para a literatura, mas na época essa vertente do modernismo não foi muito bem recebida. Érico Veríssimo resgatou esse estilo literário para criar essa obra (que foi lançada em 1970), que mescla realismo fantástico, uma linguagem original com fatos reais e irreais, no intuito de tecer uma crítica ferrenha, mordaz e muito verdadeira da sociedade brasileira em plena ditadura militar. Não poupou críticas a toda sociedade em todos os seus aspectos (sociais, políticos, econômico, culturais, etc.).

Notas Sobre o Autor

O escritor gaúcho Érico Veríssimo pertenceu à segunda geração modernista, de 1930, mesmo período de sua estreia literária. O autor não conquistou fama logo no começo de sua carreira, e foi preciso mais livros lançados e anos de escrita para alcançar seu auge literário e se tornar conhecido.

Os autores pertencentes a essa escola literária, especificamente à segunda fase do modernismo brasileiro, se caracterizava por empregar nos textos literários aspectos neorrealistas, focando na escrita de uma literatura regionalista de temática social acentuada, focada nos problemas sociais de diversas regiões do país, em especial, à região do nordeste brasileiro.

Dessa forma, nessa obra em questão, assim como em outras do autor, Érico Veríssimo faz de sua escrita uma crônica dos costumes da região do Rio Grande do Sul, direcionada aos dramas das classes médias urbanas, nas histórias das sagas familiares e na vida das pessoas de classe social mais abastada, o que é mais presente e comum no Sul do país naquela época. Na verdade, essa se tornou uma característica marcante da escrita desse autor.

O que aconteceu naquele momento seria narrado mais tarde por Lucas Faia no artigo mais importante de sua vida, nos seguintes termos: De súbito o cristal do silêncio foi brutalmente partido por uma pancada sonora e pareceu então que o céu, o ar, a cidade, as pessoas – tudo se punha a vibrar de surpresa e susto. Tenho a impressão de que houve entre os que se encontravam no gabinete do prefeito uma espécie de pânico, que durou uma fração de segundo, o tempo suficiente para compreendermos todos que se tratava do sino da Matriz que começava a bater meio-dia, em badaladas lentas, longas e lúgubres. E eu sentia essas pancadas dentro de meu próprio crânio. Parecia o enorme coração de Antares a dobrar finados pelos seus vivos e pelos seus mortos. Corri para a sacada, levado pelo meu instinto jornalístico. Entrefechei os olhos por causa do clarão meridiano e escrutei o largo… Meu coração rompeu numa disparada não mais no peito, mas já na garganta.  Voltei-me para dentro da sala e exclamei: “Os mortos estão chegando! Os mortos estão chegando! Dentro de pouco estávamos quase todos amontoados no balcão da prefeitura e eu ia identificando em voz alta para os meus amigos os sete cadáveres, à medida em que os divisava.

Foco Narrativo e Narrador

O foco narrativo dessa obra é em terceira pessoa do singular, cuja história é contada por um narrador onisciente e onipresente, que nos relata os acontecimentos de forma imparcial sem participar do enredo, o que o caracteriza como narrador heterodiegético.

Contudo, ao decorrer da história, esse mesmo narrador utiliza transcrições e citações de outros autores e outras obras literárias de cunho histórico e jornalístico para fazer com que o leitor acredite em sua história, para treinar as partes inventadas e irreais da narrativa em fatos verdadeiros, mesmo eles não sendo.

Dessa forma, Érico Veríssimo utiliza-se desses recursos para dar veracidade a sua história, até mesmo nas partes mais improváveis, utilizando-se também da linguagem para isso.

Linguagem

A linguagem dessa obra é caracterizada por uma estilística peculiar e característica de Érico Veríssimo, que adota uma narrativa intercalada entre uma história ficcional e fatos históricos verdadeiros. Para isso, além de narrar a história, o narrador também se utiliza de citações e até mesmo transcreve trechos de obras, algumas verdadeiras e outras não, de diversos autores para corroborar com a sua história, ou seja, para torná-la mais crível.

O próprio autor, no início da obra, confessa: “Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros.”.

Assim, com essa mistura de ficção e não-ficção, de real e irreal, de estória e história, faz com que a linguagem da obra se modifique ao decorrer da narrativa, bem como se apresente em diversas vertentes relacionadas a textos históricos e jornalísticos.

Relevância da Obra

Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, é uma obra corajosa, que aborda aspectos sociais e políticos de uma forma crua, dura, aberta, direta e realista, mesmo utilizando-se de realismo fantástico, destacando-se a coragem em relação de ter sido lançada em plena ditadura militar brasileira.

Essa obra criticou a sociedade gaúcha, bem como a própria ditadura militar, abordando temáticas dos costumes de vida das pessoas do Rio Grande do Sul, entre os anos de 1960 e 1970. Contudo, sofreu duras repreensões, porém o autor não se deixou calar e continuou colocando seu estilo literário peculiar.

Além disso, trata-se de um exemplo da vertente do realismo fantástico, talvez junto com a obra a Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, de Jorge Amado, esses dois livros chegam a ser os melhores em relação à representação nacional do realismo fantástico.

Chegou finalmente o esperado 31 de dezembro. A diretoria do Clube Comercial esmerou-se em fazer daquele réveillon o maior, o mais alegre da história de Antares. Contratou uma orquestra típica de Buenos Aires e um conjunto moderno de Porto Alegre. Scorpio aproveitou a grande festa para apresentar as Dez mais Elegantes do Ano, por ele escolhidas, e também os Dez Mais Graciosos Brotinhos.
A festa foi animadíssima. Começou às onze com a quadrilha dos Lanceiros dançada por um grupo do C.T.G. Chimarrão da Saudade, com todos os seus bailarins exibindo trajes característicos. Depois o Maj. Vivaldino Brazão marcou a tradicional polonaise, na qual tomou parte apenas a já muito reduzida “velha guarda”. A seguir, os moços tomaram por completo conta da festa, com suas “danças importadas” – quase todas com nomes ingleses – em que as pessoas não dançam umas com as outras, mas contra as outras.
Alguns casais que se haviam separado depois do incidente na praça foram vistos risonhos, dançando de corpos colados, no salão do clube, como jovens namorados.
Pouco antes da meia-noite ouviram-se detonações de revólver e o espocar de foguetes vindos da Zona Estragada que, como acontecia em todos os fins de ano, tinha sempre os seus relógios adiantados. A maioria dos tiros foram, como de tradição, dados para o ar, mas pelo menos três deles tinham endereço certo, dirigidos que foram para o peito, a cabeça ou o ventre de desafetos dos atiradores. (Um morto e dois feridos.) Ao soar da meia-noite começou o pandemônio dentro das salas do Clube Comercial. Gritos, risadas, choros de emoção, abraços, votos, beijos, encontrões e duas orquestras tocando ao mesmo tempo peças diferentes. Parentes e amigos procuravam-se no meio da multidão alvoroçada para se abraçarem e se desejarem um feliz e próspero Ano Novo.

Até a próxima!

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