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Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos

Olá, leitor!

O período denominado como pré-modernismo compreende o início do século XX, tendo como seus marcos cronológicos os anos de 1902 com a publicação dos livros Canaã, de Graça Aranha e os Sertões de Euclides da Cunha, uma denominação também possível para o período é a de Belle Époque, que também acompanhou a cronologia dos movimentos artísticos europeus.

A Belle Époque tem como características a apologia à modernidade e ao desenvolvimento tecnológico, que conta com países que são referência de cultura como a França e Inglaterra.

Porém, há outra característica bem peculiar dessa vertente, que é marcada pela morbidez e pela decadência. Podendo então, incluir o poeta Augusto dos anjos nesse período e características.

Em seus versos Augusto dos Anjos demonstra uma grande atenção ao imperceptível, microscópico, aquilo que é orgânico e minucioso.

MEDITANDO

“Penso em venturas! A alma do homem pensa

Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem

Há de embalar eternamente a crença

Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem!

Punjam-no os vermes da Desgraça, assomem

Descrenças, surjam tédios na Descrença,

Luta, e morrem os vermes que o consomem,

Vence, e por fim, nada há que o abata e o vença!

Por isso, poeta, eu penso na Ventura!

E o pensamento, na Suprema Altura

Sinto, no imenso Azul do Firmamento

Ir rolando pelo ouro das estrelas,

E esse ouro santo vir rolando pelas

Trevas profundas do meu pensamento!”

Influências estéticas 

Eu e Outras Poesias

Fonte: Shutterstock

Logo abrindo o livro, é perceptivo a influência parnasiana, expressando o forte rigor de formalidade, com poemas e sonetos mais longos, o que predomina são os quartetos, todos com versos rimados e isométricos, sendo eles quase todos decassílabos.

Ao mesmo tempo, se sobressai com força a influência do Simbolismo, explicitadas pela sonoridade dos versos, rimas, ritmo, aliterações, pelo uso sempre de iniciais maiúsculas em alguns substantivos comuns e também por alguns aspectos temáticos, como a angústia cósmica e o ideal transcendentalismo, entre outros.

Por outro lado, ocorrem durante a obra índices da modernidade, sendo que, além da linguagem agressiva e por vezes coloquial, o poeta incorpora em sua poesia tudo que é sujo e podre, fazendo em alguns momentos denúncias críticas sociais muito relevantes.

Recorrendo frequentemente às imagens do verme e da larva, Augusto dos Anjos, o poeta hediondo opera a dessacralização do poema, desagregando ou desvinculando a palavra poética com o belo.

Augusto dos Anjos tinha como tema uma obsessão profunda pela morte e como base principal a ideia de negação da materialidade e um peculiar interesse pela decomposição do corpo e o papel do verme nesse sentido.

Por essas e outras ficou conhecido como o “Poeta da Morte”.

A única obra do autor marca na literatura brasileira sua linguagem e temática diferenciadas, com características únicas de Augusto dos Anjos.

Suas poesias são caracterizadas pelo sentimento de desânimo e pessimismo, e ainda sua inclinação para com a morte. Tratando-se da estrutura, os poemas de Augusto dos Anjos apresentam rigor em sua forma e um elevado conteúdo de metáforas, sem ter apenas as características parnasianas ou simbolistas.

Características de sua obra

A obra desse peculiar poeta que foi Augusto dos Anjos é extremamente original, considerado um dos poetas mais críticos de sua época.

Augusto dos Anjos caracteriza-se por ser o único de sua época a fazer críticas sociais, ter uma escrita original, unindo a certeira escrita direta e ao mesmo tempo única.

Sua angústia e paixão pela dor o tornava diferente dos poetas de sua época, pois, mudou a visão do poema, não sendo a partir de então, apenas romântico.

APOCALIPSE

“Minha divinatória Arte ultrapassa

Os séculos efêmeros e nota

Diminuição dinâmica, derrota

Na atual força, integérrima, da Massa.

É a subversão universal que ameaça

A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,

Destrói a ebulição que a água alvorota

E põe todos os astros na desgraça!

São despedaçamentos, derrubadas,

Federações sidéricas quebradas…

E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante,

Espião da cataclísmica surpresa,

A única luz tragicamente acesa

Na universalidade agonizante!”

Notas sobre o autor

Seu nome completo era Augusto de Carvalho dos Anjos, nascido em 28 de abril de 1884, no Engenho do Pau d’Arco (PB). Os pais de Augusto dos Anjos eram donos de engenhos, que foram perdidos com o tempo devido ao fim da monarquia, da abolição e com a implantação da república.

Foi educado em casa pelo próprio pai até o período anterior a faculdade, onde se formou em Direito no Recife, mas, ele nunca exerceu a profissão.

Cresceu rodeado pelos livros do pai, era um leitor assíduo desde cedo. Ainda na adolescência Augusto publicava poesias no jornal “O Comércio”.

Suas poesias causavam muita polêmica, era tido como louco por alguns, mas também era elogiado por muitos. Na Paraíba era chamado de “Doutor Tristeza” por conta dos temas de suas poesias.

O poeta se casou com Ester Fialho em 1910 e com ela teve três filhos. Seu primeiro filho morreu prematuramente. A situação financeira da família se agrava por conta da industrialização e a queda do preço da cana de açúcar, então, o autor decide mudar-se com sua família para o Rio de Janeiro.

Nesse período ele conhece o desemprego, mas com o passar do tempo ele consegue um emprego de professor substituto na Escola Normal e no Colégio Pedro II, completava sua renda com aulas particulares.

Transferiu-se para Minas gerais em 1914, por conta de sua nomeação como diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, ele conseguiu esse cargo com a ajuda de seu cunhado.

Apenas alguns meses depois de sua mudança, ele acaba falecendo, vitimado por uma pneumonia.

O autor Augusto dos Anjos vivenciou a fase do parnasianismo e simbolismo, assistiu a influência dessas escolas literárias através de seus escritores como: Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Graça Aranha, Cruz e Souza dentre vários outros.

Porém, o único livro do autor, cujo título era “Eu”, trouxe muita inovação na sua forma de escrita, com temas científicos, ideias modernas e temáticas influenciadas por sua multiplicidade intelectual.

Augusto dos Anjos pode ser enquadrado na fase do pré-modernismo, pois ele se encontra na fase de transição ao modernismo, pela divergência dos assuntos que o autor tratava em seus poemas na época.

O poeta e autor Augusto dos Anjos é tradicionalmente colocado no período literário que se convencionou a chamar de pré-modernismo.

Dentre os autores que também são inclusos nessa denominação estão: Lima Barreto, Euclides da Cunha e Monteiro Lobato. Mas, Augusto dos Anjos se difere dos demais em alguns aspectos, ele se aproxima de outros segmentos, tem aspectos dos expressionistas, simbolistas e impressionistas.

VENCEDOR

“Toma as espadas rútilas, guerreiro,

E à rutilância das espadas, toma

A adaga de aço, o gládio de aço, e doma

Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro

E o mais possante gladiador de Roma.

E qual mais pronto, e qual mais presto assoma

Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.

Veio depois um domador de hienas

E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…

E não pôde domá-lo enfim ninguém,

Que ninguém doma um coração de poeta!”

Contexto histórico

Augusto dos Anjos representa sem dúvidas, uma síntese da herança do cientificismo da literatura de século XIX e serviu para preparar o espírito modernista que chegara às primeiras décadas do século XX.

Estando ao mesmo tempo nesses dois universos, onde soube estabelecer comunicação entre eles.

Análise da obra

O título do livro aponta para uma obra de caráter romântico, voltada à exposição dos sentimentos e da alma humana. Essa não é uma informação sem razão, mas, em sua essência, o livro de Augusto dos Santos trata da humanidade.

Em “Queixas Noturnas”, o eu lírico sugere certa carga de subjetividade presente no próprio título que deve ser entendida em um sentido geral, pois, o poeta fala de um “eu” ser humano.

Essa humanidade citada é quase sempre focalizada na perspectiva do incompleto, como, “Embriões de mundos que não progrediram”fala o poeta em “AS cismas do destino-II” essa circunstância não faz parte apenas de um momento na vida do homem, mas o acompanha e imprime a marca da derrota.

Essas características de impressão podem até mesmo se estender a todos os seres a medida que o autor localiza uma origem comum a ele.

Algo que não se pode negar é o certo moralismo assumido pelo poeta. Sendo demonstrado em muitos momentos da escrita de Augusto dos anjos.

Também um moralista de fundo de redenção existe na decrepitude da raça humana, podendo ser sugerida uma nova raça.

A correção moral está definitivamente fadada ao fracasso e o que se sobressai é com certeza a imagem pessimista do ser humano. Sendo uma postura niilista o ser humano é concedido como uma matéria degradante em constante decadência, sendo que não é sugerida nenhuma alternativa.

Tratando-se de linguagem, destacam-se as estranhas imagens que se aproximam do expressionismo, usava expressões esdrúxulas e recursos superlativos.

É notável a capacidade do autor em se fazer coerente o rigor formal da regularidade métrica, das rimas com coloquialismo que marcou a poesia modernista posterior.

Falecido aos 30 anos o próprio autor reconheceu que seu livro causou um verdadeiro choque para os literários de sua época. Dentre tantas críticas e elogios, havia, no entanto, uma unanimidade com relação a sua obra, sua linguagem grotesca e ao mesmo tempo técnica, contrariava a ideologia vigente dessa “Belle Époque” carioca.

Após oito anos do lançamento do livro de Augusto dos Anjos, foi feita uma reedição – Eu e Outras poesias em 1920, alcançando assim a esperada e merecida popularidade.

O MORCEGO

“Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica dasede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”

— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh’alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!”

Importância do livro

Eu, foi lançado em 1912, único livro lançado pelo autor ainda em vida. Em versos é possível perceber o exercício de uma poesia que dialogava de maneira próxima e bem particular com as influências artísticas da época.

Portanto, sua poesia não deixou nenhum herdeiro imediato.

Falando de forma geral, Eu e Outras poesias, representa a soma de todas os estilos e tendências que dominavam desde o final do século XIX até o início do século XX, em outras palavras a obra de Augusto dos Anjos recebe influencias do decadentismo, Parnasianismo, simbolismo e ainda antecipa muitas características modernistas.

Em decorrência disso, podemos afirmar que Augusto dos Anjos não se filiou exatamente a nenhuma escola em particular, dessa forma, sua obra é múltipla e personalista e até mesmo com vocabulário naturalista.

Tendo entre suas principais características uma linguagem extravagante, científica e com a temática do vazio das coisas, o nada, a finitude das coisas, a morte.

Em estágios mais degradados fala sobre putrefação da matéria, refletindo, simultaneamente, seus versos a profunda melancolia, ao pessimismo, a descrença ao ser e a sociedade, portanto, trata de uma poesia de negação, ele nega à corrupção, as falsas ideologias, as paixões transitórias, os amores fúteis.

DUAS ESTROFES

(À memória de João de Deus)

“Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova?

Tutti torniamo alla gran madre antica

E il nostro nome appena si ritrova.

Petrarca

A queda do teu lírico arrabil

De um sentimento português ignoto

Lembra Lisboa, bela como um brinco,

Que um dia no ano trágico de mil

E setecentos e cinqüenta e cinco,

Foi abalada por um terremoto!

A água quieta do Tejo te abençoa.

Tu representas toda essa Lisboa

De glórias quase sobrenaturais,

Apenas com uma diferença triste,

Com a diferença que Lisboa existe

E tu, amigo, não existes mais!

 

O MAR, A ESCADA E O HOMEM

“Olha agora, mamífero inferior,

“À luz da espicurista ataraxia,

“O fracasso de tua geografia

“E do teu escafandro esmiuçador!

“Ah! Jamais saberás ser superior,

“Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia,

“Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia

“Voando ao vento o vastíssimo vapor.

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!”

E a verticalidade da Escada íngreme:

“Homem, já transpuseste os meus degraus?!”

E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços,

Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruços

No pandemônio aterrador do Caos!

Até logo!

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