Você está aqui:Home » Dicas » Estudantes » Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira

Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira

Olá, leitor!

Publicado em 1965, Estrela da Vida Inteira é uma coletânea de poemas, contendo as poesias completas do grande Manuel Bandeira, um dos mais famosos poetas nacionais, responsável por solidificar o modernismo na poesia no Brasil, sendo adepto ao verso livro, liberdade de criação, irreverência, linguagem coloquial e a utilização de estruturas de escritas que fogem um pouco das visões estéticas parnasianas acerca da estrutura do poema.

Algo muito marcante nesta obra, bem como em toda a produção poética de Manuel Bandeira, é percebemos a facilidade em que esse grande poeta consegue utilizar-se de coisas do nosso cotidiano para fazer poesia, ou seja, sua facilidade de extrair poemas de situações e coisas simples, tão comuns ao nosso dia a dia.

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado
”.

Sendo assim, a partir de temas considerados banais para a maioria das pessoas, é que Manuel Bandeira constituiu sua criação literária poética. Os temas presentes em seus poemas são inúmeros, mas a grande maioria deles tem isso em comum, dialogar diretamente com o cotidiano das pessoas.

Em Estrela da Vida Inteira podemos encontrar poemas criados a partir de ações do cotidiano, sobre as ruas e os becos, sobre o quarto e a solidão, sempre com uma melancolia cheia de ternura, com uma saudade da infância e das coisas que se foram durante a vida. Os versos de Bandeira são melancólicos e tristes ao mesmo tempo em que também são tenros e sensíveis.

O Último Poema

“Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”.

A construção poética e a significação utilizada poeta faz com que sua obra seja única, não se ajustando aos moldes do simbolismo da época, fazendo com que seus poemas sejam pioneiros ao abordar questões com crítica social e com mais reflexões filosóficas utilizando-se de uma linguagem mais coloquial, caracterizando esse escritor como um dos pioneiros do modernismo poético no Brasil.

estrela_da_vida_inteira_manuel_bandeira__

Estrutura da obra

A obra Estrela da Vida Inteira possui trata-se de uma obra de poesias completas do autor, ou seja, nesta coletânea estão reunidos alguns livros considerados os melhores e com os principais poemas publicados por Manuel bandeira.

Esta obra, na verdade, é um conjunto de livros do poeta recifense, sendo que aqui foram reunidos tudo o que há de melhor, toda a genialidade de Bandeira através de poemas que se fazem eternos e capazes de serem sentidos por todas as pessoas em qualquer tempo que seja, ou seja, sua lírica é considerada simples, porém, atemporal, além de muito rica de uma verdadeira e arrebatadora poesia.

Os livros presentes em Estrela da Vida Inteira, são:

  • Cinza das Horas (1917)
  • Carnaval (1919)
  • O Ritmo Dissoluto (1924)
  • Libertinagem (1930)
  • Estrela da Manhã (1936)
  • Lira dos Cinqüent’Anos (1940)
  • Belo Belo (1948)
  • Mafuá do Malungo (1948)
  • Opus 10 (1952-1955)
  • Estrela da Tarde (1960)

Falaremos brevemente sobre cada um desses livros a seguir!

Cinza das Horas (1917)

Nesta obra percebemos que Bandeira ainda possuía vínculos com a tradição da escrita correta, clássica e regrada, como era de praxe para o movimento simbolista e o conceito da produção poética parnasiana. Contudo, podemos perceber que o poeta já destoava um pouco desse movimento, apresentando poemas que caminhavam para a ruptura desses conceitos.

Uma amostra disso pode ser encontrado no livro através do poema Poemeto Irônico:

“O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade…

 

Curiosidade sentimental

Do seu aroma, da sua pele.

Sonhas um ventre de alvura tal,

Que escuro o linho fique ao pé dele.

 

Dentre os perfumes sutis que vêm

Das suas charpas, dos seus vestidos,

Isolar tentas o odor que tem

A trama rara dos seus tecidos.

 

Encanto a encanto, toda a prevês.

Afagos longos, carinhos sábios,

Carícias lentas, de uma maciez

Que se diriam feitas por lábios…

 

Tu te perguntas, curioso, quais

Serão os seus gestos, balbuciamento,

Quando descerdes nas espirais

Deslumbradoras do esquecimento…

 

E acima disso, busca saber

Os seus instintos, suas tendências…

Espiar-lhe na alma por conhecer

O que há sincero nas aparências.

 

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade…

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade”.

Carnaval (1919)

Este livro foi bem recebido pela crítica, pelo público e pela nova geração de poetas e artistas na época, pois ele possui certa inovação, além do grande hino do movimento modernista, o poema “Os Sapos”, uma sátira ao Parnasianismo e que foi declamado na semana de Arte Moderna de 1922.

Os Sapos

“Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
– “Meu pai foi à guerra!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: – “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.”

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”

Urra o sapo-boi:
– “Meu pai foi rei!”- “Foi!”
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
– A grande arte é como
Pavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
– “Sei!” – “Não sabe!” – “Sabe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio…”

Trata-se de uma obra sem muita unicidade, pois os temas são variados bem como as formas em que os poemas são apresentados na obra, porém, tudo isso de forma intencional, pois Bandeira intitulou esse livro Carnaval justamente porque ele quis desengavetar vários poemas deixados de lado por fugirem à regra do movimento poético da época, ou seja, o simbolismo com seu Parnasianismo. Sendo assim, este livro serviu para formar ainda mais a necessidade de inovação, trazido futuramente pelo movimento modernista.

O Ritmo Dissoluto (1924)

Neste livro o poeta adere finalmente à simplicidade na composição dos seus poemas, explorando mais a linguagem e situações comuns, ou seja, mais populares, com certos toques de prosaísmo em seus poemas. É considerado um livro de transição de sua produção poética, de saída dos moldes parnasianos para o modernismo de fato.

Meninos Carvoeiros é um dos poemas dessa obra:

“Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
– Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

– Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles…
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

– Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.”

Libertinagem (1930)

Livro de amadurecimento poético de Manuel Bandeira, pois, com a publicação desta obra, o poeta recifense aderiu a liberdade estética na sua produção poética, além de consolidar a sua temática existencial, explorando a realidade cotidiana dos brasileiros pata escrever poemas sensíveis, sociais e reflexivos.

Vários poemas deste livro são famosos, mas podemos destacar os seguintes clássicos: “Não Sei Dançar”, “Pneumotórax”, “Poética”, “Evocação do Recife”, “Poema tirado de uma Notícia de Jornal”, “Teresa” e “Vou-me Embora para Pasárgada”.

Vou-me embora pra Pasárgada

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.”

Estrela da Manhã (1936)

Uma obra custeada pelo poeta por conta própria, porque Bandeira não encontrou um editor, então decidiu fazer 50 exemplares desse livro, sendo que até mesmo o papel da impressão fora doado e custeada através de subscrito para pagamento posterior. O livro não fizera muito sucesso, contudo, possui alguns poemas bem significativos na questão do modernismo e na formação dessa poética única de Manuel Bandeira.

O poeta, nesta época com 50 anos, ainda não conseguirá uma editora e a publicação de suas obras era feita a muito custo, contudo, isso não o abateu e ele continuou com sua produção poética, além de algumas músicas que foram solicitadas por musicistas da época que queriam fazer canções com temáticas brasileiras, dentre elas, podemos citar Trem de Ferro:

“Café com pão 
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô…
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô…
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô…
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô…
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô…

Vaou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo 
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente…
(trem de ferro, trem de ferro)”

Lira dos Cinqüent’Anos (1940)

Uma obra publicada com caráter emergencial, sendo que o poeta recebera o primeiro convite de uma editora para a publicação de uma obra sua, neste mesmo período, Bandeira se candidatou para uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). Dentre os poemas desse livro, podemos destacar Ouro Preto, A Estrela e a Última canção do beco.

A Estrela

“Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.”

Belo Belo (1948)

O título desta obra foi retirada de um poema do livro anterior, intitulado Belo Belo, numa reedição em 1951, foram acrescentados outros poemas a esse livro, sendo que a versão que compõe Estrela da Vida Inteira é essa reedição mais atualizada.

Belo Belo

“Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo – que foi? passou – de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

– Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.”

Mafuá do Malungo (1948)

Livro publicado na Espanha através de outro grande escritor brasileiro, João Cabral de Melo Neto. O título possui uma significância própria, que permeia grande parte da obra, pois Mafuá significa feira popular e Malungo significa companheirismo no africanismo. Sendo assim, Bandeira faz brincadeiras com expressões e significados, brincando com as primeiras letras das palavras em diversos poemas, sempre abordando temas políticas através de sátiras poéticas.

Rondo de Efeito

“Olhei para ela com toda a força,
Disse que ela era boa,
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.

Virei pirata:
Dei em cima de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó…
À toa: não fez efeito.

Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nozinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem
(Romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém
pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas…)
Perdi meu tempo: não fez efeito.

Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito.”

Opus 10 (1952-1955)

Uma obra que possui em seu título uma expressão provinda do universo da música, sendo opus uma palavra latina que indica obra e composição, e o número 10 significa a posição de determinada peça em relação ao conjunto da composição poética do autor presente neste livro.

Nesta bandeira ressalta a presença da musicalidade presente em sua obra, dizendo que ambas essas vertentes da arte caminham de mãos dadas. Um poema em destaque dessa publicação é o poema Boi Morto:

“Como em turvas águas de enchente,

Me sinto a meio submergido

Entre destroços do presente

Divido, subdividido,

Onde rola, enorme, o boi morto,

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Árvore da paisagem calma,

Convosco – altas tão marginais!

Fica a alma, a atônita alma,

Atônita para jamais.

Que o corpo, esse vai com o boi morto,

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Boi morto, boi desconhecido,

Boi espantosamente, boi

Morto, sem forma ou sentido

Ou significado. O que foi

Ninguém sabe. Agora é boi morto,

 

Boi morto, boi morto, boi morto.”

Estrela da Tarde (1960)

Mais um livro reeditado anos depois, em 1963, com o acréscimo de poemas, sendo que em Estrela da Vida Inteira, os poemas presentes são dessa versão reeditada.

Essa obra é considerada como a máxima da maturidade e excelência de Manuel Bandeira, pois nela encontramos o poeta com a sua originalidade somada ao estilo clássico e parnasiano de uma forma reinventada, ou seja, ele utiliza-se de sonetos de uma forma livre, à sua maneira, usando de recursos gráficos para montar poemas excelentes.

Estrela da Tarde

“A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora pra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
– A dor de ser homem…
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possuí.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres
que amei…
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

(Todas as manhãs o aeroporto em frente me
dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Cada coisa em seu lugar.”

Análise

Para melhor compreender os poemas de Manuel Bandeira presentes na obra Estrela da Vida Inteira, vamos fazer uma breve análise sobre alguns poemas, suas temáticas e a relação do poeta com tais assuntos.

Em Evocação do Recife, o poeta trata de forma subjetiva sua infância na cidade, ou seja, Bandeira utiliza-se de elementos saudosos e melancólicos para falar sobre suas saudades e utiliza-se da infância no seu eu-lírico. A utilização do linguajar popular e a crítica ao português considerado culto também está presente em suas críticas.

Além disso, no mesmo poema, envolve-se questões folclóricas, lendas e casos da cultura popular da região, além de descrever lugares, fazendo de sua poética uma espécie de lamentação pela infância com o presente em que vivencia, tendo em vista a própria condição debilitante que possuía na época.

Assim são muitos dos seus versos, cheios de nostalgia e saudosismo, mas sempre carregados de uma melancolia pessimista, mas abordada de uma forma sutil. Por isso que a realidade que oprimia o poeta fez com que ele buscasse abrigo em duas idealizações em sua produção poética: o paraíso irreal ou sonhado (Pasárgada) e o paraíso perdido (a infância).

No poema Vou-me embora pra Pasárgada podemos perceber a idealização do poeta por um paraíso sonhado, cheio de maravilhas e delícias, que são melhores do que s desilusões e frustrações da vida real. Em relação a infância e o paraíso perdido, encontra-se vestígios disso em diversos poemas do autor, que sempre recorrer às suas lembranças e os tempos de meninices em sua produção poética.

Os poemas presentes nesta obra também abordam temáticas abordadas por outras escolas literárias, contudo, de uma forma inovadora e irreverente, como é o caso do romantismo presente em algum dos seus poemas, que se apresenta e novas dimensões e perspectivas.

 “A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.”
(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza – Introdução in Estrela da vida inteira)

Sendo assim, pode-se destacar a importância de Manuel Bandeira na literatura nacional devido a sua intensa ternura, devido aos seus versos melancólicos e saudosos pela infância e pela idealização de um paraíso com o intuito de fugir das mazelas da vida real.

Em sua produção romântica, o poeta revela-se como um lírica erótica e ardente, onde o corpo e os desejos carnais são evidenciados e explorados através de versos sensíveis e intensos.

Portanto, Manuel Bandeira é um dos poetas nacionais mais flexíveis e versáteis do modernismo brasileiro, sendo um dos pioneiros nessa vanguarda artística, mesmo não tendo participado ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922, sua contribuição com essa escola literária é incontestável.

Suas experimentações de inovação de métrica e ritmo culminou e poemas mais libertários, com a utilização de versos livres e sonoridade com fluxos mais soltos e irregulares, utilizando-se dos mais variados formatos e temáticas para a sua produção poética.

Por essas e outras razões é que Manuel Bandeira e sua obra Estrela da Vida Inteira continua sendo um dos mais despojados poetas do modernismo no Brasil da mesma forma que sua obra em questão caracteriza muito bem a capacidade desse poeta de fazer poesia de forma simples, porém, repleta de sensibilidade e expressividade.

Poemas famosos de Estrela da Vida Inteira

Poética

“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Pneumotórax

“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Arte de amar

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

Antologia

“A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
– A dor de ser homem…
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei…
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.”

Dicas para análise e interpretação de poemas

Primeiramente, quando for interpretar e analisar um poema, faça isso em etapas:

Identificação de modelo

A primeira dica é identificar o modelo do poema, ou seja, se é um soneto, se é um limerique, se é um haicai ou qualquer outro tipo, contudo, sempre é bom lembrar que pode ser que o poema não tema um modelo ou nomenclatura definida, o que o caracteriza como verso livre.

Análise da estrutura

A segunda dica é analisar toda a estrutura do poema, ou seja, esquema de rimas (ABAB/ABBA/AABCCB…), como também, se elas são pobres, ricas ou preciosas. Em seguida, é preciso identificar a métrica (decassílabo, dodecassílabo, entre outros) para isso é necessário fazer a escansão das sílabas métricas. Essa parte é a de encontrar um padrão num poema, mesmo que ele seja livro e não tenha uma nomenclatura definitiva, é possível que ele seja metrificado e rimado. Quando o poema não possui rimas estruturadas, eles são chamados de versos brancos.

Análise das palavras

A terceira dica é entender o sentido das palavras e expressões dos poemas, tendo em vista que é bastante comum utilizar-se de expressões e palavras mais difíceis na poesia. Por isso, tenha sempre um dicionário para pesquisar as palavras desconhecidas e até mesmo para pesquisa palavras conhecidas, pois, muitas vezes nos deparamos com palavras que conhecemos, mas que não fazem muito sentido no contexto do poema, então, você pode recorrer ao dicionário para saber outros sentidos e significados dessa palavra para ver qual dessas definições melhor se encaixa dentro do contexto interpretativo do poema.

Análise das metáforas

A quarta dica é a de fazer a interpretação metafórica do poema, ou seja, descobrir os sentidos ocultos, a subjetividade e todo o sentido utilizado no contexto das palavras para se entender o que o poeta quer dizer. Nessa parte, é necessário ver um pouco do contexto histórico do poema, estilo literário e pesquisar um pouco sobre o autor e seu estilo de escrita.

Até logo!

Deixe um comentário

© 2012-2019 Canal do Ensino | Guia de Educação

Voltar para o topo