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Espumas Flutuantes, de Castro Alves

Olá, leitor!

Castro Alves é visto como o maior poeta social do Romantismo brasileiro. Sua obra lírica mais significativa é Espumas Flutuantes, considerada por muitos uma antecipação do realismo. Contudo, a poesia de Castro Alves mantém forte ligação com a vida do poeta, logo, sua essência é absolutamente romântica.

Publicada em 1870, Espumas Flutuantes é uma obra extensa, contendo 54 poemas que abordam temas convencionais do Romantismo. O próprio Castro Alves faz questão de ressaltar sua característica romântica, colocando no livro traduções de poesias de Lorde Byron, um dos maiores nomes do Romantismo inglês.

O sentimentalismo ocorre em toda a obra, em textos como “O laço de fita”, poema que compara a mulher amada a um anjo. Contudo, também é possível notar a conotação erótica e a temática da morte, que se faz presente mesmo sendo típica dos poetas da geração anterior.

O amor sempre recebe atenção especial, tanto em relação ao tema do sentimento não correspondido, como no poema “Dalila”, quanto em uma abordagem mais ousada e sensual, como nos textos “Os anjos da meia-noite” e “A atriz (em seu benefício)”,  poema no qual Castro Alves homenageia Eugênia Câmara, atriz com quem teve um relacionamento. Também há a poesia “Canção do boêmio”, que traz uma visão bem-humorada para a boemia, assunto muito caro aos românticos.

Sobre a temática política, principal traço do poeta, destacam-se as homenagens aos heróis da Independência e da Guerra do Paraguai.

Ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro S. João)

 

É a hora das epopeias,

Das Ilíadas reais.

Ruge o vento — do passado

Pelos mares sepulcrais.

É a hora, em que a Eternidade

Dialoga a Imortalidade…

Fala o herói com Jeová!…

E Deus  —  nas celestes plagas  —

Colhe da glória nas vagas

Os mortos de Pirajá.

 

Há destes dias augustos

Na tumba dos Briaréus.

Como que Deus baixa à terra

Sem mesmo descer dos céus.

É que essas lousas rasteiras

São  —  gigantes cordilheiras

Do Senhor aos olhos nus.

É que essas brancas ossadas

São — colunas arrojadas

Dos infinitos azuis.

 

Sim! Quando o tempo entre os dedos

Quebra um séc’lo, uma nação…

Encontra nomes tão grandes,

Que não lhe cabem na mão!…

Heróis! Como o cedro augusto

Campeia rijo e vetusto

Dos séc’los ao perpassar,

Vós sois os cedros da História,

A cuja sombra de glória

Vai-se o Brasil abrigar.

 

E nós, que somos faíscas

Da luz desses arrebóis,

Nós, que somos borboletas

 — Das crisálidas de avós,

Nós, que entre as bagas dos cantos,

Por entre as gotas dos prantos

Inda os sabemos chorar,

Podemos dizer: “Das campas

Sacudi as frias tampas!

Vinde a Pátria abençoar!…”

 

Erguei-vos, santos fantasmas!

Vós não tendes que corar…

(Porque eu sei que o filho torpe

Faz o morto soluçar… )

Gemem as sombras dos Gracos,

Dos Catões, dos Espártacos

Vendo seus filhos tão vis…

Dize-o tu, soberbo Mário!

Tu, que ensopas o sudário

Vendo Roma — meretriz!…

 

Ai! Que lágrimas candentes

Choram órbitas sem luz!  —

Que idéia terá Leônidas

Vendo Esparta nos pauis?!…

Alta noite, quando pena

Sobre Árcole, sobre Iena,

Bonaparte — o rei dos reis — ,

Que dor d’alma lhe rebenta.

Ao ver su’águia sangrenta

No sabre de Juarez!?…

 

Porém aqui não há grito,

Nem pranto, nem ai, nem dor…

O presente não desmente

Do seu ninho de condor…

Mãos, que, outrora de crianças

A rir —  dentaram as lanças

Dos velhos de Pirajá….

De homens hoje, as empunhando,

Nas batalhas afiando,

Vão caminho de Humaitá!…

 

Basta!… Curvai-vos, ó povo!…

Ei-los os vultos sem par,

Só de joelhos podemos

Nest’hora augusta fitar

Riachuelo e Cabrito,

Que sobem para o infinito

Como jungidos leões,

Puxando os carros dourados

Dos meteoros largados

Sobre a noite das nações.

Contexto histórico

Espumas Flutuantes

Fonte: Reprodução

A obra de Castro Alves é marcada pelo tema político e voltada para a defesa da Abolição e da República, inserindo-se no movimento chamado de Romantismo combativo. O autor pertence à terceira geração da poesia romântica brasileira, o que corresponde ao final do Romantismo e às primeiras manifestações do  Realismo.

Relevância da obra

Castro Alves ficou conhecido como “o poeta dos escravos”, devido a seus inúmeros poemas com temática abolicionista. Espumas Flutuantes, por sua vez, apresenta uma visão lírica igualmente marcada pelo anseio de liberdade.

Os Três Amores

I

Minh’alma é como a fronte sonhadora

Do louco bardo, que Ferrara chora…

Sou Tasso!… a primavera de teus risos

De minha vida as solidões enflora…

Longe de ti eu bebo os teus perfumes,

Sigo na terra de teu passo os lumes…

 —  Tu és Eleonora…

II

Meu coração desmaia pensativo,

Cismando em tua rosa predileta.

Sou teu pálido amante vaporoso,

Sou teu Romeu… teu lânguido poeta!…

Sonho-te às vezes virgem… seminua…

Roubo-te um casto beijo à luz da lua…

 —  E tu és Julieta…

III

Na volúpia das noites andaluzas

O sangue ardente em minhas veias rola…

Sou D. Juan!… Donzelas amorosas,

Vós conheceis-me os trenos na viola!

Sobre o leito do amor teu seio brilha…

Eu morro, se desfaço-te a mantilha…

Tu és — Júlia, a Espanhola!…

Análise da obra

O primeiro poema de Espumas Flutuantes é “Dedicatória”, que funciona como uma espécie de prefácio da obra. Seu assunto é o próprio livro que, como um pássaro, se lança ao encontro do público. Esse poema também traz elementos típicos de Castro Alves, como o desejo de comunicação e as imagens grandiosas, consagrando-o como um produtor de poesias de conotação pública, muito mais feita para exteriorização do que para os sussurros amorosos característicos da segunda geração.

Dedicatória

 

 A pomba d’aliança o vôo espraia

Na superfície azul do mar imenso,

Rente… rente da espuma já desmaia

Medindo a curva do horizonte extenso…

Mas um disco se avista ao longe… A praia

Rasga nitente o nevoeiro denso!…

O pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!

Ninho amigo da pomba forasteira!…

 

Assim, meu pobre livro as asas larga

Neste oceano sem fim, sombrio, eterno…

O mar atira-lhe a saliva amarga,

O céu lhe atira o temporal de inverno…

O triste verga à tão pesada carga!

Quem abre ao triste um coração paterno?…

É tão bom ter por árvore — uns carinhos!

É tão bom de uns afetos  —  fazer ninhos!

 

Pobre órfão! Vagando nos espaços

Embalde às solidões mandas um grito!

Que importa? De uma cruz ao longe os braços

Vejo abrirem-se ao mísero precito…

Os túmulos dos teus dão-te regaços!

Ama-te a sombra do salgueiro aflito…

Vai, pois, meu livro! e como louro agreste

Traz-me no bico um ramo de… cipreste!

“Dedicatória” é um poema altivo, no qual Castro Alves pede que sua poesia, como a pomba que a simboliza, traga a ele um ramo de cipreste, que é o símbolo da morte. Isso pode ser entendido como uma lembrança da morte que começava a tomar conta do poeta, que sofria de tuberculose. Essa poesia, devido ao cunho pessoal, está inserida no escopo subjetivo dos poetas românticos.

O  livro tem uma temática ampla, que vai desde assuntos intimistas até questões políticas. O nome  Espumas Flutuantes pode ser associado aos poemas que saem da cabeça do autor e tomam rumos não planejados.

Essa imagem se relaciona com a difusão cultural, defendida por Castro Alves em poemas como “O livro e a América”, que coloca a cultura como um dispositivo contra a alienação e a barbárie. Na poesia de Castro Alves, também há marcas do estilo condoreiro, como a expressividade retórica, o abuso de exclamações, o apelo exagerado e as imagens grandiosas.

A tendência da poesia de Castro Alves para a fala pública é reforçada nos poemas de cunho político, mas está presente também na poesia amorosa, assumindo uma conotação mais sensual, como ocorre no texto  “O gondoleiro de amor”. Além disso, alguns de seus poemas tratam do próprio fazer poético, ressaltando a ideia de que a poesia faz parte do indivíduo.

A Meu Irmão Guilherme de Castro Alves

 

Na cordilheira altíssima dos Andes

Os Chimbolazos solitários, grandes

Ardem naquelas hibernais regiões.

 

Ruge embalde e fumega a solfatera…

É dos lábios sangrentos da cratera

Que a avalanche vacila aos furacões.

 

A escória rubra com os celeiros brancos

Misturados resvalam pelo flancos

Dos ombros friorentos do vulcão…

 

Assim, Poeta, é tua vida imensa,

Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença…

E são lavas lá dentro o coração.

Notas sobre o autor

Antonio Frederico de Castro Alves nasceu em Muritiba, na Bahia, em 14 de março de 1847. Seu pai era professor da faculdade de Medicina de Salvador e sua mãe faleceu quando ele tinha apenas 12 anos.

Castro Alves se mudou para Recife aos 15 anos, após o segundo casamento de seu pai. Nesse período, ele conheceu Eugênia Câmara, atriz portuguesa por quem se apaixonou, foi acometido pela tuberculose e começou a escrever suas poesias.

Ele foi admitido na Faculdade de Direito do Recife em 1864, ano em que seu irmão, que havia adquirido distúrbios mentais, cometeu suicídio. Tempos depois, Castro Alves se envolveu em movimentos abolicionistas, junto com Ruy Barbosa e Fagundes Varela, outro poeta romântico. Em 1866, ele começou a viver com Eugênia Câmara, 10 anos mais velha, desafiando os padrões da época.

Após um breve período em Salvador, Castro Alves se mudou para o Rio de Janeiro, onde conheceu José de Alencar e Machado de Assis. No ano de 1868, o poeta levou um tiro acidental no pé esquerdo, que acabou sendo amputado. Em outubro de 1869, ele voltou para Salvador para cuidar de sua saúde.

Durante as mudanças de cidade, Castro Alves publicava poemas em revistas e jornais. Em 1870, já na Bahia, o poeta publicou Espumas Flutuantes, única obra lançada durante sua vida. A tuberculose piorou e Castro Alves faleceu em 1871, com apenas 24 anos de idade.

Mesmo vivendo tão pouco, Castro Alves foi um dos maiores poetas brasileiros, com uma obra marcada pela crítica social e pelos aspectos sensuais do ser amado. Assim, Espumas Flutuantes é um livro vanguardista, que aborda temas polêmicos para a época e traz mensagens de luta e paixão.

Prólogo

ERA POR UMA dessas tardes em que o azul do céu oriental  —  é pálido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas  —  é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio —  e queixoso e tétrico.

Das bandas do ocidente o sol se atufava nos mares ”como um brigue em chamas…” e daquele vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.

Além… os cerros de granito dessa formosa terra de Guanabara, vacilantes, a lutarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas… recortavam-se indecisos na penumbra do horizonte.

Longe, inda mais longe… os cimos fantásticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distância sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste.

Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinido e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas  —  derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade.

É que lá, dessas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os entusiasmos, o viço de todas as ilusões, os meus vinte anos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de glória e de futuro;… é que dessas terras do sul, onde eu penetrara “como o moço Rafael subindo as escadas do Vaticano”;… volvia agora silencioso e alquebrado… trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria.

Foi então que, em face destas duas tristezas  —  a noite que descia dos céus, — a solidão que subia do oceano, — recordei-me de vós, ó meus amigos!

E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara…

Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!… Vós bem sabeis quanto sois efêmeros…  — passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.

E quando — comediantes do infinito —  vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?

 —  Uma esteira de espumas…  —  flores perdidas na vasta indiferença do oceano. —  Um punhado de versos…  — espumas flutuantes no dorso fero da vida!…

E o que são na verdade estes meus cantos?…

Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, eles são filhos da musa — este sopro do alto; do coração — este pélago da alma.

E como as espumas são, às vezes, a flora sombria da tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do látego da desgraça.

E como também o aljofre dourado das espumas reflete as opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo —  estes signos brilhantes da aliança de Deus com a juventude!

Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo… possam eles, ó meus amigos! — efêmeros filhos de minh’alma — levar uma lembrança de mim às vossas plagas!

CASTRO ALVES

Até a próxima!!!

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