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Dom Casmurro, de Machado de Assis

Olá, leitor!

Dom Casmurro, de Machado de Assis, é considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira, bem como o dono de uma das mais fascinantes e intrigantes personagens femininas da literatura nacional e mundial.

Publicado em 1899, esse livro é considerado por muitos críticos como a melhor obra de Machado de Assis, devido ao seu olhar crítico e certeiro sobre a sociedade brasileira, mesmo que a obra dê ênfase à sociedade carioca pelo fato da história se passar no Rio de Janeiro, sempre a traçar um retrato moral da época muito fidedigno.

Os próprios personagens que compõe esse livro são exemplos disso, pois todos eles carregam figuras comuns e caricatas, porém, construídos sublimemente, de estenótipos da sociedade da época, principalmente em relação à burguesia.

A temática principal do livro é o ciúme, passou-se o tempo de discutir se Capitu traiu ou não Bentinho, o que fazia muitos a afirmarem que a temática principal da obra seria o adultério ou a traição.

Isso porque, independentemente se Capitu traiu Bentinho ou não, os acontecimentos provindos das atitudes do protagonista a partir da suspeita da traição, mostram-nos o que o ciúme é capaz de fazer com uma pessoa, as atitudes severas e extremas que esse sentimento nos leva a cometer. Essa é a principal questão da obra machadiana.

Outra questão interessante do livro é a presença da ironia e do humor negro, misturados àquela típica acidez machadiana que encontramos em sua obra realista, sendo que neste livro tais características são emprestadas ao narrador-protagonista que nos conta a sua história de vida.

A utilização de palavras difíceis, linguagem culta e extremamente erudita, podem assustar os que ainda não conhecem Machado de Assis, que é considerado como um dos escritores que mais conheceu a norma culta da língua portuguesa e soube utilizá-la de forma única, como ninguém mais fez. Contudo, vale muito a pena a leitura desse livro, bem como de outros títulos da obra machadiana, devido a tanta beleza e poder de literatura que emanava da ponta da pena do Bruxo do Cosme Velho.

Enfim, se Machado de Assis é um dos maiores escritores brasileiros, como também, está entre os melhores escritores do mundo, com toda certeza, Dom Casmurro é uma das suas principais obras, portanto, merece ser lida e admirada por todos os leitores ávidos a uma boa literatura.

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.”

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Resumo da Obra

A narrativa começa depois dos acontecimentos do livro, ou seja, quando Bentinho se encontra na velhice e leva uma vida solitária e reclusa, o que lhe garante o apelido de Dom Casmurro.

A partir daí o personagem-narrador conta-nos os motivos de escrever suas memórias em um livro, que seria o de relembrar a juventude na velhice.

Em seguida, revela-nos como conseguiu a alcunha de Dom Casmurro, devido a um episódio no trem onde um poeta recita seus versos para ele e, por estar cansado, ele acaba cochilando e, assim, o poeta acaba por tê-lo como uma pessoa amargurada e cheia de pompa, o que ao decorrer da narrativa descobrimos ser verdade.

Depois de explicados o título do livro e os motivos de escrever tal livro, o protagonista passa então a rememorar a sua infância a partir de um episódio que aconteceu quando ele tinha 15 anos de idade, quando morava com sua família num casarão da rua de Mata-cavalos.

Ao iniciar o flasback de sua juventude, o primeiro acontecimento que nos é relato é a denúncia de José Dias, o agregado da família – alcunha que o próprio narrador utiliza para caracterizá-lo –, que diz a Dona Glória, mãe de Bentinho, que já estava na hora de ela fazer valer a promessa que fizera no nascimento do garoto de colocá-lo no seminário para ser um homem de Deus, pois o garoto andava muito apegado à filha do vizinho, Capitu, e se os dois pegassem em namoro seria difícil separá-los e fazer valer a promessa de transformá-lo em padre.

Nesse capítulo, ao mesmo tempo em que nos é narrada essa denúncia, o livro também traça um perfil característico de todas as personagens que compõe a história da obra, caracterizando o casarão de Matacavalos como a casa dos três viúvos, tendo em vista que o pai de Bentinho falecera e, devido a isso, o tio Cosme, irmão da mãe de Bentinho, também viúvo, viera a morar com eles, bem como prima Justina, prima de ambos, que após o falecimento do marido também veio a morar na mesma casa.

Após essa denúncia, Bentinho fica furioso com José Dias, porém, além disso, essa denúncia também serviu como o despertar do amor de Bentinho e Capitu, pois, até então, Bentinho não sabia que estava de fato apaixonado por Capitu e muito menos pensava que a garota poderia estar apaixonada por ele.

Sendo assim, a partir daí Bentinho expõe tudo o que ouviu a Capitu e juntos ambos passam a maquinar diversos planos para que Bentinho não fosse forçado a ir para o seminário.

Devido a essa aproximação, Bentinho passa a ver Capitu com outros olhos, percebendo-se que a garota também gostava dele de fato, o que faz com que a relação dos dois se estreitem ainda mais, fazendo com que ocorra diversos episódios interessantes entre os dois, acontecimentos que vão desde o primeiro beijo, as primeiras conversas sobre o futuro, as primeiras brigas e desentendimentos, os primeiros indícios da personalidade forte e geniosa de Capitu, bem como os primeiros indícios do futuro ciumento Bentinho.

Depois de diversos planos sem sucesso, Capitu tem a ideia de que o mesmo denunciador, José Dias, poderia ser a salvação de Bentinho, tendo em vista que Dona Glória o tinha em alta estima e com certeza o escutaria. Sendo assim, Bentinho conversa com José Dias e o intima a ajudá-lo a não ir para o seminário, a primeiro instante, o agregado reluta dizendo que isso já é fato consumado e seria difícil tirar isso da cabeça de Dona Glória, visto que era uma promessa santa.

Contudo, após os argumentos de Bentinho, José Dias concorda em ajudá-lo, porém, diz que ele teria que começar a frequentar o seminário até que ele achasse um jeito de tirá-lo de lá e resolver essa situação.

Portanto, mesmo com êxito nesse plano e conseguirem um aliado, Capitu e Bentinho encontram-se sem saída e ele acaba tendo que ir para o seminário, porém, antes disso, eles prometem um ao outro que se casariam no futuro e selam a promessa com um beijo.

Durante o seminário, Bentinho passa por diversos acontecimentos, florescem ainda mais o seu aspecto ciumento, bem como a dissimulação de Capitu, segundo a visão do narrador.

Entretanto, o fato mais importante desse episódio, é a aparição de Escobar, um garoto seminarista que passa a ter uma grande amizade com Bentinho, marcando assim a passagem de Bentinho pelo seminário com essa amizade que duraria pela vida adulta.

Escobar até mesmo chega a conhecer a família de Bentinho, todos passam a adorá-lo instantaneamente, assim como Bentinho. Capitu, inicialmente, sente ciúmes da amizade de Bentinho e Escobar, contudo, após conhecê-lo melhor, Capitu também passa a admirá-lo.

Enquanto José Dias não encontra meios de tirar Bentinho do seminário, Capitu aproveita-se para estreitar suas relações com Dona Glória, sendo assim, as duas acabam se tornando muito amigas e ficam cada vez mais próximas.

Capitu confidência a Dona Glória que essa é uma estratégia para que todos não percebem que eles querem se casar e não se tornar padre, bem como, para também terem uma grande aliada quando conseguisse se livrar do seminário e forem se casar.

Escobar então sugere a Bentinho que plante a ideia em Dona Gloria de que ela prometera um filho para se ordenar padre, contudo, não especificou qual, então, sendo assim, a solução seria adotar uma criança e fazê-lo se tornar padre no lugar de Bentinho.

Dona Glória, que já andava descontente com a própria situação que criou, pois sentia muita falta do filho, aceita a ideia, não sem antes consultar um padre para ter o aval e saber se assim não estaria quebrando a promessa, e então adota uma criança escrava e paga todos os custos para que se ele torne um padre, livrando assim Bentinho de se tornar um homem de Deus.

Contudo, não sendo padre, Bentinho teria que ser alguma coisa, a solução veio através de ir estudar direito em São Paulo. Nesse momento da história, ocorre um salto temporal que nos coloca diante a um Bentinho adulto, formado em direito e voltando para casa, após cinco anos de estudos em São Paulo.

O reencontro com a família e com Capitu é marcante, Bentinho então pode enfiar confidenciar à mãe o amor que sente por Capitu e ela aprova a união dos dois, sendo assim, eles então se casam, seguidos por Escobar que se casa com Sancha, amiga de infância de Capitu.

Bentinho e Escobar deram continuidade a grande amizade entre eles, bem como a grande amizade entre Capitu e Sancha, o que fez com que os dois casais sempre saíssem juntos, jantarem juntos e fizessem inúmeras outras coisas juntos, eram realmente muito próximos.

Passam por momentos de felicidade, tudo ia bem no casamento, até começarem a sentir falta de um filho, tendo em vista que não conseguiam mesmo com inúmeras tentativas e que Escobar e Sancha já tivessem tido uma linda garotinha.

Alguns anos depois, porém, Bentinho e Capitu finalmente conseguem ter um filho, que colocam o nome de Ezequiel, primeiro nome de Escobar, em homenagem ao amigo do casal, mas, também, como em retribuição pelo fato de eles terem colocado o nome da filha deles de Capitolina, em homenagem à Capitu.

Ezequiel, filho dos dois então cresce e Bentinho começa a perceber que o garoto se parece bastante com Escobar, contudo, atribui incialmente isso ao fato das famílias serem muito próximas e pelo fato do garoto gostar de imitar as pessoas, o que fez com que ele pegasse os trejeitos e mania de Escobar.

Os casais passam a conviver ainda mais intensamente, fazendo praticamente tudo juntos. Certa vez, após um jantar na casa de Escobar, este confidencia a Bentinho que está planejando uma viagem para ambos os casais e o filho, uma visita a Europa, e não aceitaria uma recusa da parte de Bentinho.

Nesse mesmo episódio, deparamo-nos com a malícia de Bentinho que se sente levemente atraído por Sancha. Contudo, na mesma noite, ao apalpar os braços de Escobar, Bentinho mostra uma grande admiração pelo amigo, em todos os aspectos, desde o intelectual até mesmo o físico – fato que para muitos críticos significa que Bentinho sentia muito mais do que amizade por Escobar, contudo, vamos guardar esse assunto para a análise. O importante é mostrar que a dualidade e a malícia sempre estiveram enraizadas em Bentinho, desde a sua juventude.

Contudo, a viagem não se concretiza devido ao fato de Escobar ter se metido a nadar em mar bravio na manhã seguinte e acaba morrendo afogado, mesmo sendo um excelente nadador.

Durante o velório de Escobar, porém, Bentinho acaba por te ruma epifania: ao perceber uma lágrima rolar pela face de Capitu e a maneira que ela olhava para o defunto, deu-lhe a certeza de que a esposa o havia traído com o seu melhor amigo, sendo que Ezequiel, filho dos dois, fosse filho de Escobar e não seu.

A partir daí, convencido da traição de Capitu, Bentinho começa a confabular maneiras de fugir da vergonha daquela situação, chegando ao ponto de pensar em se suicidar tomando uma xícara de veneno, impulso impedido pela chegada do filho em seu escritório no momento em que tomaria a xícara de café com veneno.

Com a chegada de Ezequiel, Bentinho tem um segundo impulso: o de matar o garoto dando a xícara de café para a criança. Porém, ela também não faz isso, não consegue, mas acaba por afastar o garoto e a dizer para ele que não era seu pai.

Nesse instante Capitu entra no escritório de Bentinho, ouvindo Bentinho dizer que não é pai de Ezequiel.

Capitu o confronta, ele caba por relevar suas suspeitas, mesmo que de forma torpe e ignorante, pois nem mesmo tem a coragem de dizer que ela o traíra com o melhor amigo.

Assim, ambos decidem por se separar, pois segundo Capitu, o casamento de fato havia acabado devido ao ciúme e as paranoias de Bentinho devido a casualidade do garoto ser parecido com Escobar.

Assim, eles decidem então viajar para a Europa, onde se separam de forma discreta para evitar alardes, então, Bentinho retorna ao Brasil sem a sua família, deixando-os na Europa para viver em sua casa na Glória de forma solitária e reclusa.

Os anos se passam e, mesmo com todos a perguntar sobre Capitu e Ezequiel, Bentinho não conta a ninguém sobre a separação e muito menos sobre a sua desgraça ou suspeitas.

Vemos então o fim da família de Bentinho, pois todos os seus parentes morrem: Dona Glória, Tio Cosme, Prima Justina e José Dias. Esses acontecimentos fazem com que Bentinho se isole ainda mais da sociedade e fique sozinho.

Tempos depois, chega em sua casa Ezequiel adolescente, com as feições de Escobar ainda mais evidentes, o narrador afirma que ele era o próprio Escobar escarrado.

O garoto cinta então ao pai que Capitu falecera. Intimamente Bentinho se anima com a informação, mas ainda sente grande repulsa pelo filho, não queria ele por perto, então, decide por encontra um meio de afastá-lo.

Sendo assim, ao perceber as intenções do filho de estudar arqueologia em Jerusalém, Bentinho prontifica-se em bancar a viagem e os estudos para que o garoto fosse embora dali de uma vez, chegando até mesmo a desejar que ele pegue uma doença e morra no exterior.

Por ironia do destino, tempos depois Bentinho descobre que o filho morreu e foi enterrado em Jerusalém devido a uma febre tifoide.

Para reviver as lembranças então, Bentinho decide por construir uma casa aos moldes do casarão da rua de Mata-cavalos, onde viveu sua infância e adolescência. Assim, ele se torna o Dom Casmurro e chegamos ao momento em que ele se decide por escrever a história da sua vida.

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.”

Estrutura da obra

Dom Casmurro é uma obre dividida em 148 capítulos de diversos tamanhos diferentes, sendo eu alguns podem conter várias páginas e outros podem conter até mesmo uma página só, até mesmo alguns que se limitam a um parágrafo, mas sempre predominantes capítulos mais curtos. Isso tudo faz com que esse livro seja bem dinâmico em relação a sua estrutura.

O enredo da obra é bem dinâmico, o que torna a sua estrutura diversificada, pois o elemento psicológico com caráter memorialista faz com que a narrativa seja contada por flashbacks ao mesmo tempo em que é interrompida a todo instante pelas observações do narrador que está no tempo presente, ou seja, na sua velhice, momento em que decide por escrever a sua história.

Outro aspecto interessante é que, mesmo dentro da linearidade presente nas lembranças de Bentinho, o narrador ainda para essa narrativa memorialista para contar outros episódios de sua vida, que fogem da linearidade da história principal da sua juventude, o que faz com que a obra seja construída a partir das fragmentações das memórias e pensamentos do narrador.

Narrador, foco narrativo e linguagem

Dom Casmurro apresenta-se com foco narrativo em primeira pessoa, ou seja, um narrador autodiegético, que decide reviver suas memórias da juventude a fim de atar as duas pontas da vida, de acordo com as próprias palavras do narrador-protagonista.

Assim, Bento Santiago de Albuquerque escreve sobre o seu passado de acordo com o sue ponto de vista, então, os fatos narrados são a opinião dele pessoal sobre os acontecimentos, ou seja, a narrativa passa a ser parcial.

Mesmo assim, Machado de Assis conseguiu criar uma personagem tão sublime, que facilmente somos influenciados pela sua narrativa e muitos podem cegar de fato a acreditar que o ponto de vista de Bentinho seja realmente a verdade.

Porém, isso não é possível, toda história narrada é a versão de uma pessoa, por isso, não pode ser considerada como uma verdade absoluta.

Esse ardil do narrador que fizera surgir a famosa discussão sobre se Capitu traiu ou não Bentinho, dúvida que somente Machado de Assis, como autor da obra poderia afirmar se estivesse vivo, pois com os elementos apresentados durante a narrativa, é impossível chegar a uma conclusão definitiva. Devido a esse fator, que o narrador e o foco narrativo são muito importantes para a obra.

A linguagem do livro, como em toda obra machadiana, é bem erudita, rebuscada e refinada, cheia de referências literárias, de vanguardas artísticas, históricas, muitas delas baseadas na cultura europeia, bem como a utilização de palavras difíceis e até mesmo expressões em idiomas estrangeiros.

Tempo

O tempo dessa obra em sua maioria, trata-se de um tempo psicológico, devido essa narrativa possui caráter memorialista, sempre misturando presente e passado, devido ao fato de que o narrador sempre se mostra presente ao narrar sua história.

Contudo, mesmo dentro das lembranças do narrado protagonista, podemos encontrar uma linearidade temporal, marcada por alguns acontecimentos importantes que são datados ao decorrer da obra.

Quando voltamos ao passado para conhecer o Bentinho aos seus 15 anos, o ano é o de 1857.  No ano seguinte, em 1858, Bentinho parte para o seminário.

O casamento de Capitu e Bentinho acontece em 1865. A morte de Escobar acontece em 1871 e em 1872, ano seguinte, é quando finalmente Bentinho confronta Capitu sobre a traição e eles decidem se separara, indo para a Europa.

Além disso, é importante retratar que mesmo dentro das próprias lembranças, o seja, dos flashbacks de Bentinho, encontramos algumas digressões e devaneios do narrador a nos contar, vez ou outra, episódios de sua vida fora da linearidade.

Espaço

O espaço principal da obra é a cidade do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX, fazendo menções a diversos lugares dessa cidade, tais, como: Engenho Novo, Andaraí, Glória, a rua de Mata-cavalos, entre outros.

Além disso, o espaço tem muita importância para a obra, pois, através deles conseguimos traçar o contexto histórico social e cultural da sociedade carioca da época, principalmente em relação à burguesia.

Outro aspecto interessante é perceber que alguns acontecimentos importantes do livro acontecem em forma de ciclos, por exemplo, entra a ida do Bentinho ao seminário e o casamento com Capitu, passa-se um período de sete anos, depois, do período do casamento até a morte de Escobar e o fim do relacionamento entre Capitu e Bentinho, passa-se mais sete anos.

Isso não é mera coincidência, Machado de Assis faz isso propositalmente para formar um ciclo em toda a sua obra.

Ciclo que pode ser percebido até mesmo no espaço, pois, quando ele reproduz a casa da rua de Mata-cavalos no Engenho Novo após a sua velhice, é porque o narrador protagonista quer atar as duas pontas de sua vida e, assim, retoma o ciclo da sua própria história.

Contexto histórico

O contexto histórico dessa obra retrata a segunda metade do século XIX, logo após o processo de Independência do Brasil, que ocorreu em 1822, onde a antiga capital do Brasil, Rio de Janeiro, passava juntamente com a burguesia carioca, por um período de mudanças e reestruturação da sociedade.

Além de trazer com esse aspecto de um país em construção, a passar por diversas mudanças sociais e econômicas, o livro também nos mostra o processo de transformação e o estabelecimento das bases capitalistas no Brasil, como também, a persistência dos hábitos e pensamentos conservadores.

“Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas… As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.”

Principais personagens

Os principais personagens de Dom Casmurro, são:

  • Bentinho

Personagem narrador que conta sua própria vida desde a sua infância e juventude, contudo, narra os fatos de forma parcial e tendenciosa. Assim, Bentinho conta sua história relembrando diferentes fases de sua vida.

Na adolescência, Bentinho mostra-se como mimado, apegado à mãe e de personalidade fraca facilmente influenciado. Contudo, desde a sua adolescência podemos encontrar traços de uma personalidade ciumenta, bem como, extremamente imaginativa e fantasiosa.

Isso faz com que os críticos o considerem uma personagem plana, ou seja, uma personagem superficial sem muita força dentro da narrativa. Contudo, porém, ao decorrer do romance, conhecemos o Bentinho ciumento e paranoico, a ponto de cogitar o suicídio e a morte do próprio filho, chegando a tomar medidas extremas ao se afastar de sua família, rechaçando assim sua mulher e seu filho.

Esses fatos poderiam caracterizá-lo como uma personagem que evolui ao decorrer da narrativa, tornando assim, uma personagem redondo e complexa, tal como Capitu, que, por sua vez, vale sempre lembrar disso, é a retratação do ponto de vista de Bentinho, outro fator que faz com que a gente pense que se ela fora inventada pelo narrador, a personagem redonda e complexa da obra trata-se apenas de Bentinho, tendo em vista que a Capitu descrita por ele seria uma reprodução da sua própria psique.

Entretanto, essa se trata de uma opinião pessoal de quem vos escreve essa análise.

  • Capitu

Personagem com a mesma importância do protagonista, tida como a mocinha ou a vilã da obra, a depender do ponto de vista e da interpretação do leitor, pois toda a narrativa gira em torno dela.

Além disso, Capitu é considerada como a personagem feminina mais complexa da literatura brasileira, quem sabe até mesmo dentre a literatura mundial, devido a maestria da narrativa de Machado de Assis ao criar essa personagem com uma personalidade forte e tão completa, que é impossível decifrar a grande dúvida acerca dessa obra: o fato de Capitu ter ou não traído Bentinho com Escobar.

Ela é descrita desde a juventude como uma mulher forte e determinada, chegando a elaborar planos, fazer dissimulações, mentir e enganar para livrar Bentinho do seminário, o que caracteriza o oposto de Bentinho em sua juventude, que sempre era submisso e fraco.

As próprias expressões utilizadas no romance para caracterizar os olhos de Capitu – olhos de cigana obliqua e dissimulada seguido posteriormente de olhos de ressaca – mostram-na como uma personalidade feminina marcante, dando indícios do poder dessa personagem.

Entretanto, porém, ela é descrita por Bentinho, através do ponto de vista pessoal dele e da sua opinião acerca da mulher, visão essa que pode estar afetada pelo ciúme e pela raiva pela suposta traição, sendo assim, também é indecifrável a questão de sabermos se a Capitu verdadeira é realmente dissimulada e ardilosa como está sendo retratada pelo narrador ou se a Capitu descrita é apenas uma criação da cabeça ciumenta e paranoica de Bentinho.

  • Escobar

Escobar, melhor amigo de Bentinho durante a narrativa, é outra personagem importante para obra, sendo que as três personagens aqui descritas até aqui, compõe uma espécie de triangulo amoroso, recurso muito presente na obra machadiana, sendo temática de diversos outros textos desse autor.

Essa personagem é descrita de uma forma enigmática, não tanto quanto a Capitu, porém, com aspectos bem peculiares e misteriosos que podem ser percebidos ao decorrer da narrativa. Primeiramente, em relação ao interesse de Escobar, logo ao conhecer Bentinho, pelas somas de ganhos de sua família, depois, ao nos mostrar propício à aproximação e interesse pela própria mãe de Bentinho, o que sutilmente indica que Escobar possa ser um interesseiro – aqui vale ressaltar outro fato interessante, a própria Capitu e o seu pai, no início da narrativa, logo após a denúncia de José Dias, são sutilmente chamados de interesseiros pelo agregado.

Essa deturpação da imagem de Escobar, sendo verdadeira ou não, abre brecha para acreditarmos que tanto Escobar e Capitu fossem capazes de trair Bentinho e que somente estariam próximos a ele devido a seu prestigio social e sua boa condição financeiro.

Contudo, mais uma vez, vale retratar que essa é apenas uma interpretação que pode encontrada através das entrelinhas, das sutis pistas deixadas na narrativa de Machado de Assis.

Mas, como dito anteriormente, não existe em si uma resposta para essa questão, tendo em vista que Machado de Assis deixa-nos pistas para acreditarmos e duvidarmos ao mesmo tempo da versão dos fatos apresentados por Bentinho.

Relevância da obra

A obra Dom Casmurro é de extrema relevância para a literatura brasileira devido a diversos fatores: faz parte da trilogia realista machadiana, é considerada como a obra mais madura de Machado de Assis, traz consigo uma das personagens mais complexas da literatura mundial e o questionamento da verdade, sendo essa a ideia primordial para o realismo.

A própria escrita de Machado de Assis torna esse livro extremamente importante para a literatura nacional, pois, como nenhum outro escritor, Machado conseguiu retratar a sociedade brasileira de forma fidedigna, realista e crua – traduzindo em palavras o próprio povo brasileiro em sua essência, através das suas personagens memoráveis.

A escrita enxuta e refinada de Machado também ajuda a tornar esse livro uma preciosidade literária, além de sua refinada e certeira ironia, sue humor negro acido e provocante, que nos leva a refletir sobre diversos assuntos.

A intensidade dos diálogos entre as mais variadas partes dessa obra, cheia de segredos sutis em suas entrelinhas, que vão desde a utilização de ciclos que englobam o espaço e o tempo, as emoções humanas e a própria arte, através da metalinguagem e pelos devaneios de suas digressões, fazem com que esse livro seja genuinamente uma obra-prima em sua totalidade.

Por essas e outras razões, Dom Casmurro, de Machado de Assis, é considerada uma das melhores obras desse autor, bem como um exemplo de um enredo bem construído, com uma excelente caracterização de personagens e temática, que se caracteriza nos edifícios do pensamento do realismo, uma das escolas literárias mais sublimes da literatura brasileira.

“Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca. E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”.”

Até logo!

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