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Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade

Olá, leitor!

Publicado em 1951, Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, é uma coletânea de poemas permeada de poemas com temáticas distintas, contudo, dentre ela, é inegável a presença de um contexto histórico da época, bem como as características que determinam essa obra como pertencente a terceira fase do modernismo da poesia brasileira.

É interessante perceber como o temor da Guerra Fria, que assustava o mundo com o terror de uma possível guerra nuclear entre as duas maiores potências mundiais da época, e os terrores remanescentes da 2ª Guerra Mundial, atuaram diretamente no mundo das artes, sendo temas recorrentes em diversas expressões artísticas diferentes.

Nesse contexto, é que Claro Enigma foi escrito, sendo este livro recheado de temas metafísicos, como, por exemplo, a utilização de temas abstratos e condizentes com as angústias humanas, com poemas versando sobre poesia, amor e a própria existência, sempre a questionar as definições e sentidos de tais temáticas, como também, sempre com uma visão mais pessimista de tudo.

Outro fato interessante é destacar que a obra é associada em diversas vezes através dos poemas que as compõe com a ideia de luz e escuridão, incerteza e angústia, e, principalmente, com a ideia de morte, associada constantemente com a noite.

“A Ingaia Ciência

 

A madureza, essa terrível prenda

que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,

todo sabor gratuito de oferenda

sob a glacidade de uma estrela

 

a madureza vê, posto que a venda,

interrompa a surpresa da janela,

o círculo vazio, onde se estenda,

e que o mundo converte numa cela.

 

A madureza sabe o preço exato

dos amores, dos ócios, dos quebrantos,

e nada pode contra sua ciência

 

e nem contra si mesma. O agudo olfato,

o agudo olhar, a mão, livre de encantos,

se destroem no sonho da existência.”

Estrutura da obra

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Claro Enigma é um livro de poemas composto por 41 poemas divididos em 6 partes diferentes:

  • Entre lobo e cão – 18 poemas;
  • Notícias amorosas – 7 poemas;
  • O menino e os homens – 4 poemas;
  • Selo de Minas – 4 poemas;
  • Os lábios cerrados – 6 poemas;
  • A máquina do mundo – 2 poemas.

A obra é marcada pela retomada da formalidade clássica dos poemas, ou seja, com o uso de rimas e métrica regulares, além de uma linguagem mais formal erudita, o que diferencia a produção poética anterior de Carlos Drummond de Andrade em suas publicações anteriores, que era mais livre e desregrada.

Análise

A linguagem apresentada nos poemas desse livro é culta, o que a difere das características da fase do modernismo da época, fazendo com que seus poemas se tornassem mais difíceis e obscuros. Os versos livres são substituídos por sonetos e outras estruturas poéticas mais elaboradas, bem como os recursos linguísticos utilizados também são muito mais elaborados.

Todas essas características fazem com que Claro Enigma seja o livro mais erudito e hermético de Carlos Drummond de Andrade, porém, apesar de ser uma leitura difícil, essa obra também se caracteriza como uma das mais enigmáticas e importantes obras do autor, devido à temática, o emprego do classicismo por um autor modernista e pelo contexto histórico, que dá ares obscuro e pessimista a essa coletânea de poemas.

Sendo assim, a importância desse livro se dá a sua temática e a marcação da terceira fase do modernismo poética, que retoma questões mais filosóficas como temas dos seus versos e o uso de linguagem e características mais eruditas ou clássicas.

Para entendermos melhor a obra, é necessário fazer uma análise dos poemas separados e todos como um todo. Entretanto, podemos analisar essa obra de uma forma mais breve para auxiliá-los nesse processo. É o que faremos a seguir!

Análise de poemas – Claro Enigma

O primeiro poema da obra, Dissolução, remete-nos à temática principal da obra logo nos primeiros versos. Veja:

“Escure, e não me seduz

tatear sequer uma lâmpada.

Pois que aprouve ao dia findar

aceito a noite”

Como dissemos anteriormente, Claro Enigma está repleto de metáfora sobre a luz e a escuridão, através dos conceitos de dia e noite, sendo a noite comparada muitas vezes com a morte. Nessa primeira estrofe o poeta já nos coloca a par sobre a temática que virá a seguir, podemos somente nesse trecho perceber a chegada de uma nova realizada, ou seja, da noite. Em seguida, podemos perceber que existe uma aceitação feira através de uma confissão do eu lírico do poeta, afirmando que não deseja encontrar a luz, aceitando assim a chegada da noite.

Sendo assim, temos um vislumbre do que está por vir durante o livro, uma dificuldade de aceitar uma nova realidade escura, sempre permeada com angústias e temáticas enigmáticas e obscuras, caracterizando o pessimismo do autor perante o mundo e o todo o contexto da época. Todas essas características podem ser encontradas nos outros poemas dessa coletânea, ou seja, todos os poemas desse livro dialogam entre si, dentro das suas temáticas e metáforas, de uma forma ou outra, basta analisá-los.

Outro poema muito importante dessa obra, é o Oficina Irritada. Confira a seguir:

“Eu quero compor um soneto duro

como poeta algum ousara escrever.

Eu quero pintar um soneto escuro,

seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,

não desperte em ninguém nenhum prazer.

E que, no seu maligno ar imaturo,

ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro

há de pungir, há de fazer sofrer,

tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,

cão mijando caos, enquanto Arcturo,

claro enigma, se deixa surpreender.”

O poema acima é fundamental para que se possa entender um pouco melhor a ideia desse livro como um todo, até mesmo o título Claro Enigma e toda a temática da obra.

Primeiramente, podemos destacar a palavra Arcturo, que é o nome da estrela mais brilhante no céu noturno, e como o brilho de uma estrela para ser vista precisa da escuridão, Drummond brinca com esses significados para dizer que seus poemas-enigmas também precisam da escuridão para serem decifrados ou, então, contemplados.

Sendo assim, Carlos Drummond de Andrade cria em Claro Enigma uma metáfora paradoxal sobre o todo de seu livro e de seus poemas, classificando-os como enigmas que só podem ser enxergados no escuro, uma espécie de desafio, algo a ser descoberto.

Notas sobre o autor

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, e escreveu centenas de poemas ao decorrer de seus sessenta anos de vida literária, sendo até hoje um dos mais aclamados poetas brasileiros. Fez da sua terra natal um tema recorrente em sua poesia, até mesmo no livro em questão, Claro Enigma, que pertence a terceira fase do modernismo, encontramos poemas como Evocação Mariana, Estampas de Vila Rica e Morte das casas de Ouro Preto, que versam sobre sua terra natal.

A obra de Drummond é divida em três fases diferentes: a primeira caracteriza-se com humor e irreverência da primeira geração modernista, sendo predominante poemas de versos curtos e livres; a segunda caracteriza-se por uma poesia mais engajada em conflitos políticos e sociais entre a década de 30 e 40 do século XX; a terceira caracteriza-se através de poemas mais complexos e eruditos, através de uma poesia voltada para questionamentos filosóficos existenciais e a retomada dos parâmetros clássicos de modelos de poemas – nesta fase é que se encaixe o livro Claro Enigma.

Dicas para análise e interpretação de poemas

Primeiramente, quando for interpretar e analisar um poema, faça isso em etapas:

Identificação de modelo

A primeira dica é identificar o modelo do poema, ou seja, se é um soneto, se é um limerique, se é um haicai ou qualquer outro tipo, contudo, sempre é bom lembrar que pode ser que o poema não tema um modelo ou nomenclatura definida, o que o caracteriza como verso livre.

Análise da estrutura

A segunda dica é analisar toda estrutura do poema, ou seja, esquema de rimas (ABAB/ABBA/AABCCB…), como também, se elas são pobres, ricas ou preciosas. Em seguida, é preciso identificar a métrica (decassílabo, dodecassílabo, entre outros) para isso é necessário fazer a escansão das sílabas métricas. Essa parte é a de encontrar um padrão num poema, mesmo que ele seja livro e não tenha uma nomenclatura definitiva, é possível que ele seja metrificado e rimado. Quando o poema não possui rimas estruturadas, eles são chamados de versos brancos.

Análise das palavras

A terceira dica é entender o sentido das palavras e expressões dos poemas, tendo em vista que é bastante comum utilizar-se de expressões e palavras mais difíceis na poesia. Por isso, tenha sempre um dicionário para pesquisar as palavras desconhecidas e até mesmo para pesquisa palavras conhecidas, pois, muitas vezes nos deparamos com palavras que conhecemos, mas que não fazem muito sentido no contexto do poema, então, você pode recorrer ao dicionário para saber outros sentidos e significados dessa palavra para ver qual dessas definições melhor se encaixa dentro do contexto interpretativo do poema.

Análise das metáforas

A quarta dica é a de fazer a interpretação metafórica do poema, ou seja, descobrir os sentidos ocultos, a subjetividade e todo o sentido utilizado no contexto das palavras para se entender o que o poeta quer dizer. Nessa parte, é necessário ver um pouco do contexto histórico do poema, estilo literário e pesquisar um pouco sobre o autor e seu estilo de escrita.

Até logo!

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