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Cinco Minutos, de José de Alencar

Olá, leitor!

Cinco Minutos, de José de Alencar, assim como o livro “A Viuvinha”, é uma das obras do início da carreira desse autor, a qual utiliza um estilo literário cheio de momentos simplórios ou com atitudes infantilizadas.

Esse estilo de crítica tida como simplória é por causa do romantismo, que as obras ficarem cheias de ilusões, personagens e situações idealizadas. Contudo, José de Alencar, mesmo utilizando desse recurso tão característico em suas primeiras obras, sempre consegue trazer algum frescor e novidade para seus enredos.

Esse romance curto é um claro exemplo dos folhetins da época, porém, com um toque perspicaz desse autor. A história se passa, em grande parte, na cidade do Rio de Janeiro. É um romance caracterizado como fase urbana de José de Alencar, ou seja, se passavam na cidade em vez das florestas ou das inspirações da primeira fase do romantismo brasileiro, o indianismo.

Faz-se importante destacar aqui que, sendo um livro clássico do período romântico brasileiro, o leitor não deve se deixar enganar pelos personagens quanto ao verdadeiro protagonista da trama. Não é à toa que temos um número reduzido de personagens.

O verdadeiro protagonista é o próprio amor do casal principal. Aquele por quem vale qualquer sacrifício, pelo qual todo tempo é curto e qualquer fortuna são apenas trocados. Aquele capaz de transformar uma existência privada de qualquer sentido na mais alegre das vivências.

O tempo aqui parece se dobrar ao sentimento, visto que o autor não hesita em passar o resto de seus dias buscando sua amada. Nem que seja para desfrutar de apenas alguns pouco momentos ao seu lado. Pois esses seriam eternos e a força desse amor os ligaria para sempre.

É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance.
Há mais de dois anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o ônibus de Andaraí. Sabe que sou o homem o menos pontual que há neste mundo; entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa virtude dos reis, e esse mau costume dos ingleses.
Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que um homem se escravize ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula.
Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais ônibus algum; o empregado a quem me dirigi respondeu :
— Partiu há cinco minutos.
Resignei-me, e esperei pelo ônibus de sete horas.
Anoiteceu.
Fazia uma noite de inverno fresca e úmida; o céu estava calmo, mas sem estrelas. À hora marcada chegou o ônibus, e apressei-me a ir tomar o meu lugar. Procurei, como costumo, o fundo do carro, a fim de ficar livre das conversas monótonas dos recebedores, que de ordinário têm sempre uma anedota insípida a contar, ou uma queixa a fazer sobre o mau estado dos caminhos.
O canto já estava ocupado por um monte de sedas, que deixou escapar-se um ligeiro farfalhar, conchegando-se para dar-me lugar.
Sentei-me; prefiro sempre o contato da seda à vizinhança da casimira ou do pano.
O meu primeiro cuidado foi ver se conseguia descobrir o rosto e as formas que se escondiam nessas nuvens de seda e de rendas.
Era impossível.
Além da noite estar escura, um maldito véu que caía de um chapeuzinho de palha não me deixava a menor esperança.

Cinco Minutos José de Alencar

Fonte: Reprodução

Resumo da Obra

Começamos a narrativa com o protagonista se classificando como fútil e melancólico. Afirma não saber o significado de paixão e sua vida segue um ritmo monótono. Em contrapartida, Carlota, então com 16 anos, já com sua doença avançada, o segue, sem que este o perceba, por ruas e festas, dedicando-lhe um amor anônimo.

Essa situação muda por conta dos cinco minutos do título. Esses cinco minutos se referem ao atraso do protagonista, que perde o ônibus. Tendo que tomar outra condução, conhece Carlota.

No ônibus, ele se senta ao lado de uma mulher que tem o rosto coberto por um véu. Bastam-se toques sutis e olhares trocados para que o rapaz se apaixone perdidamente. Antes de sair do ônibus, a moça deixa escapar um discreto “Não se esqueça de mim”.

Inverte-se, então, a relação entre os dois, com o protagonista tendo agora um motivo para viver seus dias: sua obsessão por Carlota. Ainda que com certo temor de a moça com o rosto coberto fosse feia, nosso narrador não hesita em sair em busca da amada. Note que, apesar de Carlota, inicialmente, ser aquela que o persegue anonimamente, é o autor da narrativa que mantém seu anonimato, muito provavelmente para mostrar que agora ele é o perseguidor, enquanto Carlota está exposta tal qual uma deusa solar, pronta a ser adorada.

O ponto mais alto de toda a trama é quando a própria Carlota expõe-se toda. Através de uma carta, sua identidade, seu amor ou mesmo suas condições de saúde não são mais segredos para ninguém. Ainda, ele coloca nosso protagonista, que se apressou em ir até Petrópolis, para encontrá-la em uma encruzilhada: deve ele abandonar sua busca e evitar a dor da perda de sua amada ou dar cabo de sua missão e passar com Carlota os últimos dias da vida dela?

O narrador compra um cavalo e, com o providencial auxílio de um velho pescador, atravessa a Baía de Guanabara, alcançando Carlota em um navio com destino ao Velho Mundo, para onde partem e ficam uma dezena de dias.

Durante uma de suas muitas crises, Carlota suplica um último beijo a seu amado. Pedido concedido, a moça apresenta repentina melhora de suas mazelas, acompanhada de um súbito desejo de aproveitar a vida em toda a sua plenitude. Uma consulta com o médico revela que a moça está totalmente curada pela força desse amor que vale tantos sacrifícios.

Assim como qualquer história de amor padrão, esta tem um final feliz para o casal principal. Carlota, milagrosamente, se vê curada de sua doença, ambos se casam em Florença e empreendem viagem de lua de mel, passando um ano viajando pela Itália, Grécia, França e Alemanha. Quando retornam, montam uma bela casa, nas montanhas de Minas Gerais, afastada da agitação da cidade do Rio de Janeiro, onde “vivem felizes para sempre”, segundo palavras do próprio autor.

Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apesar da delicadeza de sentimento que parecia ter ditado suas palavras, o que para mim se tornava bem claro é que ela continuava a fugir-me.
Essa assinatura era a mesma letra que marcava o seu lenço, e à qual eu desde a véspera pedia debalde um nome!
Fosse qual fosse esse motivo que ela chamava uma fatalidade, e que eu supunha ser apenas escrúpulo, senão uma zombaria, o melhor era aceitar o seu conselho e fazer por esquecê-la.
Refleti então friamente sobre a extravagância da minha paixão, e assentei que com efeito precisava tomar uma resolução decidida.
Não era possível que continuasse a correr atrás de um fantasma que se esvaecia quando ia tocá-lo.
Aos grandes males os grandes remédios, como diz Hipócrates. Resolvi fazer uma viagem.
Mandei selar o meu cavalo, meti alguma roupa em um saco de viagem, embrulhei-me no meu capote e saí, sem me importar com a manhã de chuva que fazia.
Não sabia para onde iria. O meu cavalo levou-me para o Engenho Velho, e eu daí me encaminhei-me para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia todo molhado e fatigado pelos maus caminhos.
Se algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho-lhe as viagens como um remédio soberano e talvez o único eficaz.
Deram-me um excelente almoço no hotel; fumei um charuto, e dormi doze horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.
Quando acordei, o dia despontava sobre as montanhas da Tijuca.

Estrutura da Obra

Cinco Minutos, de José de Alencar, é uma narrativa curta, com menos de cinquenta páginas, o que era comum pelo simples fato dessa obra ser uma daquelas narrativas típicas de folhetins, ou seja, daquelas que eram publicadas nos jornais. Existem dez divisões capitulares durante o livro, contudo, eles não se configuram exatamente em capítulos, tendo em vista que a estrutura da narrativa é baseada numa espécie de carta do protagonista para a sua prima.

Isso faz com que o ritmo da trama possa parecer um tanto quanto lento ao leitor moderno, apenas acelerando um pouco quando o autor busca saber a identidade de Carlota e quando empreende sua busca por ela. Porém, mantém-se calmo no início e no fim da trama, mostrando assim que um ciclo se fechou, permitindo ao casal iniciar uma nova história.

Contexto Histórico

O contexto histórico dessa obra aborda o período em que foi escrita, por isso o livro nos remete a essa forte impressão do romantismo brasileiro. Por isso, Cinco Minutos, com seus  superlativos e com o inconfundível estilo do autor, é um livro que merece ser lido apesar de toda pieguice característica do romantismo.

Para causar um pouco mais de confusão em quem lê o livro, Alencar mescla fatos históricos da cidade do Rio de Janeiro, mais exatamente lá pela segunda fase do século XIX (lançando mão até mesmo de datas e horários, minuciosamente específicos, alguns até mesmo históricos) com narrativas próprias que podem, ou não, serem fruto dos devaneios da mente criativa do autor.

Foco Narrativo, Narrador e Linguagem

O foco narrativo da obra é em primeira pessoa do singular, ou seja, o narrador protagonista é quem nos conta, em forma de carta, as lembranças dos seus últimos anos e como conseguiu encontrar o amor da sua vida e viverem felizes para sempre.

Sendo assim, como o livro é narrado em primeira pessoa, o narrador se caracteriza como autodiegético, aquele que narra e é protagonista de toda a história, mostrando seu ponto de vista e dando suas opiniões e pareceres acerca dos acontecimentos do enredo.

O recurso de narrar em primeiro pessoa também torna inevitável que o autor insira na história diversas divagações sobre os usos e costumes da época, suas próprias noções sobre as mulheres e muitas reflexões sobre a própria existência humana.

O narrador, apesar de ser o centro de toda a história, não deixa de dar falar dos outros personagens. Não conseguimos ver, no entanto, a história de forma completa, sendo fornecido apenas aquilo que o próprio autor quer nos passar. Porém, esta é uma visão bem profunda, pois não somos limitados apenas às ações do mesmo, mas a todo o turbilhão que se passa em sua mente. O mistério, de fato, não é parte das narrativas de José de Alencar.

A linguagem, por sua vez, é comum, apesar de correta e nos conformes das normas cultas, pois as histórias da época eram para a elite carioca daquele período, José de Alencar resolve adotar uma escrita simples, como a de uma carta, como mencionamos anteriormente. Contudo, devido ao período em que foi escrita, essa obra pode conter vocabulário arcaicos e palavras e expressões que estão fora de uso.

Espaço e Tempo

O espaço físico principal da obra é a cidade do Rio de Janeiro, existem inclusive menções de diversos locais e lugares típicos da Cidade Maravilhosa. Entretanto, existem trechos que se passam em Petrópolis, cidade do interior do estado do Rio de Janeiro, como também, nas serras de Minas gerais e até mesmo passagens por outros países da Europa, entre eles, Itália, Grécia, França e Alemanha.

Em relação ao tempo, primeiramente, o tempo da narrativa é o psicológico, pois se trata de um narrador que está contando sobre a sua prima e as suas memórias. No entanto, em relação ao tempo físico do enredo, é uma história que se passa entre a segunda fase do século XIX.

Devorei toda esta carta de um lanço de olhos.
Minha vista corria sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler, só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me a seus pés, e receber como uma bênção do céu esse amor sublime e santo.
Como sua mãe, lutaria contra o destino, cercá-la-ia de tanto afeto e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bela e tão tranquila, prenderia tanto sua alma à terra, que lhe seria impossível deixá-la.
Criaria para ela com o meu coração um mundo novo, sem as misérias e as lágrimas deste mundo em que vivemos; um mundo só de ventura, onde a dor e o sofrimento não pudessem penetrar.
Pensava que devia haver no universo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda puro do hálito do homem, onde a natureza virgem conservaria o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a formara. Aí era impossível que o ar não desse vida; que o raio do sol não viesse impregnado de um átomo de fogo celeste; que a água, as árvores, a terra, cheia de tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na criatura essa vitalidade poderosa da natureza no seu primitivo esplendor.
Iríamos, pois, a uma dessas solidões desconhecidas; o mundo abria-se diante de nós, e eu sentia-me com bastante força e bastante coragem para levar o meu tesouro além dos mares e das montanhas, até achar um retiro onde esconder a nossa felicidade.
Nesses desertos, tão vastos, tão extensos, não haveria sequer vida bastante para duas criaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, a fim de poderem elevar a Deus, como uma prece constante, o seu amor tão puro?
Ela dava-me vinte e quatro horas para refletir, e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro e a minha existência se eu os sacrificaria de bom grado para dar-lhe mais um dia de vida?
Todas estas ideias, minha prima, cruzavam-se no meu espírito, rápidas e confusas, enquanto eu fechava na caixinha de pau-cetim os objetos preciosos que ela encerrava, copiava na minha carteira a sua morada, escrita no fim da carta, e atravessava o espaço que me separava da porta do hotel.

Análise dos Principais Personagens

Os personagens de Cinco Minutos, de José de Alencar, são poucos e todos superficiais. Não há muito conteúdo sobre cada um deles. Contudo, podemos caracterizá-los como personagens comuns da fase do romantismo.

Protagonista

O nome do narrador protagonista dessa obra não nos é revelado em nenhum momento, isso porque, como se trata de uma narrativa feita como se fosse uma espécie de carta para a prima, pressupõe-se que ela já o conhece e, por isso, ele não precisa se apresentar ou dizer o seu nome, pois ela já o conhece.

Contudo, percebemos que se trata de uma personagem plana, típica do romantismo, um homem de vida fácil, da elite cariosa, ou seja, burguês, com personalidade fútil e que não sabe ao certo o que é o amor, vivendo uma vida rotineira e melancólica até descobrir o amor idealizado.

Assim, a história gira em torno dessa descoberta de amor, do momento em que o protagonista se apaixona e passa a procurar desesperadamente pela sua amada misteriosa.

Carlota

Carlota é a mocinha da história, o par romântico do protagonista, tida como uma donzela frágil e indefesa, que necessita de um salvador, um amor que a ajude a superar todos os seus problemas. Inicialmente, apresenta-se como uma figura misteriosa, devido ao véu que usava para esconder o seu rosto. Contudo, tratava-se de uma garota de 16 anos, muito bonita, de cabelos longos, pretos e cacheados, mas que, por infortúnio do destino, tinha uma doença incurável.

Trata-se de uma personagem plana, superficial e sem desenvolvimento. Em certos momentos, principalmente no início, se torna a própria antagonista da história, pois devido a sua doença e por não querer fazer com que o seu amado sofra, ela decide se afastar dele.

Prima do Protagonista

A prima do protagonista, apesar de não participar efetivamente da história, do enredo de toda a narrativa, serve como uma personagem muito importante. Por ser a interlocutora do narrador, ou seja, a pessoa a quem o narrador protagonista conta os acontecimentos dos seus dois últimos anos de vida.

Essa personagem se torna uma alegoria de nós mesmos, ou seja, dos leitores da obra, que se sentem ligados e enlaçados por toda história confidenciada pelo protagonista. Em alguns momentos, nos traz a sensação de estarmos no lugar dela.

Relevância da Obra

O livro nos apresenta a história do casamento do próprio autor com Carlota. Mas o que surpreende, logo de cara, é o fato de a narração não ser destinada a quem tem o livro em mãos. Como se fosse uma carta, José de Alencar narra a história inteira para sua prima (nunca nomeada pelo autor, denominada somente por D). Sendo assim, o leitor pode vir a ter a impressão de que está lendo algo que não se destina a si, se intrometendo em assuntos de outras pessoas.

De certa forma, é injusto classificar a escrita deste e de outros livros de Alencar como infantil ou piegas. Claro, aos olhos de quem lê hoje histórias onde o amor é a fonte de poder e a solução para todos os problemas, pode parecer um clichê.

Alencar inaugurou um estilo de escrita brasileira, totalmente livre dos padrões portugueses. Os livros de Alencar não eram para todos, mas para um público muito específico: destinava-se à leitura das senhoras da alta burguesia carioca.

Tanto Cinco Minutos quanto o outro livro mais famosos de Alencar, A Viuvinha, descrevem a vida cotidiana da Burguesia e conversam, diretamente, com aqueles que têm tal estilo de vida. Nosso protagonista, assim como sua prima, também sem nome, está lá para o deleite dos leitores. A princípio, esta leitura não parece ser destinada a nós mesmo. Porém, apesar de nunca especificar sua ocupação, o narrador e protagonista parece ter recursos financeiros inesgotáveis para empreender sua busca infindável por sua amada Carlota, sem quaisquer dificuldades.

É um livro com poucos personagens contando, basicamente, com o protagonista, que não faz questão de se apresentar (lembrando que este fala com sua prima, que já o conhece) e Carlota. Também podemos citar a prima do protagonista, bem como sua sogra, mãe de Carlota e o velho da canoa.

A história toda parece um jogo de gato e rato, no qual o protagonista tenta, com todo o afinco, rever Carlota, seu grande amor, enquanto ela quer manter distância. Esta atitude pode parecer, a princípio, de um desprezo assaz, mas Carlota possui uma doença mortal e incurável, por isso sua recusa tem por única razão evitar o sofrimento de seu amado. Contudo, o amor entre os dois é maior que qualquer adversidade e ambos se entregam aos sentimentos.

O resto desta história, minha prima, a senhora conhece, com exceção de algumas particularidades.
Vivi um mês, contando os dias, as horas e os minutos; o tempo corria vagarosamente para mim, que desejava poder devorá-lo. Quando tinha durante uma manhã inteira olhado o seu retrato, conversando com ele, e lhe contado a minha impaciência e o meu sofrimento, começava a calcular as horas que faltavam para acabar o dia, os dias que faltavam para acabar a semana, e as semanas que ainda faltavam para acabar o mês.
No meio da tristeza que me causara a sua ausência, o que me deu um grande consolo foi uma carta que ela me havia deixado, e que me foi entregue no dia seguinte ao da sua partida.
“Bem vês, meu amigo, dizia-me ela, que Deus não quer aceitar o teu sacrifício. Apesar de todo o teu amor, apesar de tua alma, ele impediu a nossa união; poupou-te um sofrimento e a mim talvez um remorso.
“Sei tudo quanto fizeste por minha causa, e adivinho o resto; parto triste por não te ver, mas bem feliz por sentir-me amada, como nenhuma mulher talvez o seja neste mundo.”
Esta carta tinha sido escrita na véspera da saída do paquete; um criado que viera de Petrópolis, e a quem ela incumbira de entregar-me a caixinha com o seu retrato, contou-lhe metade das extravagâncias que eu praticara para chegar à cidade no mesmo dia.
Disse-lhe que me tinha visto partir para a Estrela, depois de perguntar a hora da saída do vapor; e que embaixo da serra referiram-lhe como eu tinha morto um cavalo para alcançar a barca, e como me embarcara em uma canoa.
Não me vendo chegar, ela adivinhara que alguma dificuldade invencível me retinha, e atribuía isto à vontade de Deus, que não consentia no meu amor.
Entretanto, lendo e relendo a sua carta, uma coisa me admirou; ela não me dizia um adeus, apesar de sua ausência e apesar da moléstia, que podia tornar essa ausência eterna.
Tinha-me adivinhado! Ao mesmo tempo que fazia por me dissuadir, estava convencida que a acompanharia.
Com efeito parti no paquete seguinte para a Europa.

Até a próxima!

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