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Bagagem, de Adélia Prado

Olá, leitor!

Bagagem, de Adélia Prado, é o livro de estreia dessa poetisa mineira e foi publicado pela primeira vez em 1976, após indicação de Carlos Drummond de Andrade, que se entusiasmou com o estilo e a sensibilidade da escritora, que contrasta a leveza com a força, mesclando versos sutis e rimas doces com reflexões e sentimentos profundos.

A obra é repleta de poemas que despertam emoções nos leitores e que, segundo a própria autora, nasceram não só de um processo criativo, mas também de experiências pessoais regadas de tristeza, sofrimento e angústia. Além disso, a temática religiosa é muito recorrente no livro, já que a poetisa retrata a fé como um pilar da vida e das sociedades humanas. Essa relação com a religiosidade não está restrita a questões de sagrado e de divindades, mas se estende para uma análise do bem e do mal, do lado bom e do lado ruim das coisas.

AS MORTES SUCESSIVAS

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
‘deixa, tá bom assim’.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

Estrutura da obra

Bagagem, Adélia Prado

Fonte: Reprodução

Os poemas de Bagagem, de Adélia Prado, estão distribuídos em cerca de 150 páginas, dependendo da edição do livro. Segundo a autora, a obra foi escrita em um período de grande inspiração criativa, sendo que muitos poemas são retratos de descargas emocionais despejadas no papel. O título é justamente Bagagem, pois Adélia afirma que as poesias são todas as bagagens emocionais que ela possuía e precisava colocar para fora.

A obra traz temáticas variadas, versando sobre o amor, as dores da vida, as angústias, o chamado da poesia e a vocação poética. Contudo, pode-se perceber que a combinação dos contrários (amor e ódio, tristeza e alegria, sagrado e profano) e a afirmação da condição feminina da autora estão presente em todo o livro. Quanto à estrutura, a obra está dividida em 5 partes, que são O modo poético, Um jeito de amor,  A sarça ardente I, A sarça ardente II e Alfândega.

SÍTIO

A igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus pára pra beber água,
rela um no outro os chifres
e espevita seus cheiros
que eu reconheço e gosto,
a modo de um cachorro.
É minha raça, estou
em casa como no meu quarto.
Igreja é a casamata de nós.
Tudo lá fica seguro e doce,
tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita.
Lá as coisas dilacerantes sentam-se
ao lado deste humaníssimo fato
que é fazer flores de papel
e nos admiramos como tudo é crível.
Está cheia de sinais, palavra,
cofre e chave, nave e teto aspergidos
contra vento e loucura.
Lá me guardo, lá espreito
a lâmpada que me espreita, adoro
o que me subjuga a nunca como a um boi.
Lá sou corajoso
e canto com meu lábio rachado:
glória no mais alto dos céus
a Deus que de fato é espírito
e não tem corpo, mas tem
o olho no meio de um triângulo
donde vê todas as coisas,
até os pensamentos futuros.
Lugar sagrado, eletricidade
que eu passeio sem medo.
Se eu pisar,
o amor de Deus me mata.

Análise da obra

Bagagem, de Adélia Prado, tem como temática principal o amor, apresentado de forma sutil e simples, com até mesmo traços de um leve erotismo. Outro tema que ganha destaque é a família, já que muitos poemas falam sobre o amor materno, a relação entre irmãs, o convívio entre pai e filha, neta e avós, marido e mulher.

É nessa abordagem das relações pessoais que surge a questão da memória. Muitos dos poemas de Adélia são saudosos e nostálgicos, versando com lirismo sobre o passado. A autora também discorre sobre atos cotidianos e sobre a condição feminina. Além disso, está presente a metalinguagem, ou nesse caso específico, a metapoesia, pois existe uma parte inteira destinada a falar sobre o ato de escrever e a vocação de ser poeta. Quanto à linguagem, a obra opta por uma escrita simples, sem palavras sofisticadas nem métricas complicadas, mas carregada de sutilezas.

MOMENTO

Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.

A intertextualidade de Adélia Prado

Bagagem, de Adélia Prado, abusa da intertextualidade, dialogando com outros escritores, como Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves, Camões, Fernando Pessoa, Manual Bandeira e até João Guimarães Rosa.

Entretanto, sua maior inspiração é Carlos Drummond de Andrade, já que a própria obra é dedicada para esse poeta. Adélia chega até a citar  frases do autor, como acontece em Com licença poética, que tem uma passagem do Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade. Mesmo utilizando essa intertextualidade, Adélia traz a visão feminina para a poesia de Drummond, como pode ser visto no poema Agora, Ó José, que faz uma alusão ao texto E agora, José?.

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”                (Trecho do poema de Carlos Drummond de Andrade)

Eis o poema de Adélia:

AGORA, Ó JOSÉ

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesmo, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
«No meio do caminho tinha uma pedra»,
«Tu és pedra e sobre esta pedra».
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

Análise de alguns poemas da obra

O poema Com licença poética, de Adélia Prado, parafraseia o Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade:

POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci,
um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai Carlos!
ser “gauche” na vida.

 

COM LICENÇA POÉTICA (Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Aqui, Adélia Prado fala sobre a sina de ser mulher, utilizando uma escrita simples, porém que expõe as contradições do universo feminino. No primeiro verso, ela se refere ao poema de Drummond, dizendo que quando nasceu um anjo esbelto veio fazer sua anunciação, mas, ao longo do texto, a escritora cita os papéis impostos pela sociedade para a mulher, ou seja, ser mãe, esposa e dona de casa. O poema termina com a afirmação de que a mulher nasceu para ser desdobrável, se adequar a todas as situações, e, parafraseando mais uma vez Drummond, não tem a opção de ser coxo, de falhar, que é um defeito permitido apenas aos homens.

GRANDE DESEJO

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai.
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Nesse poema, pode-se notar que a mulher é evocada pelas figuras da mãe e da dona de casa, funções impostas pela sociedade. O eu-lírico também é carregado de religiosidade, já que, quando escrever seu livro, irá a uma igreja, talvez para batizá-lo; a uma lápide, a um descampado, talvez para agradecer. Então, a poeta irá chorar, transformando-se em uma dama requintada, pois tem um livro com seu nome; porém esquisita, já que é diferente das outras mulheres.

A INVENÇÃO DE UM MODO

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: “Ora, isso é pras mulheres de São Paulo”
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

No poema acima, percebe-se que autora cita Guimarães Rosa e sua obra Grande Sertão: Veredas. Contudo, o sentimento que ela tenta passar é o de dualidade das coisas, dizendo que as pessoas são assim, duais e contraditórias.

ALFÂNDEGA

O que pude oferecer sem mácula foi
meu choro por beleza ou cansaço,
um dente exraizado,
o preconceito favorável a todas as formas
do barroco na música e o Rio de Janeiro
que visitei uma vez e me deixou suspensa.
‘Não serve’, disseram. E exigiram
a língua estrangeira que não aprendi,
o registro do meu diploma extraviado
no Ministério da Educação, mais taxa sobre vaidade
nas formas aparente, inusitada e capciosa — no que
estavam certos — porém dá-se que inusitados e capciosos
foram seus modos de detectar vaidades.
Todas as vezes que eu pedia desculpas diziam:
‘Faz-se de educado e humilde, por presunção’,
e oneravam os impostos, sendo que o navio partiu
enquanto nos confundíamos.
Quando agarrei meu dente e minha viagem ao Rio,
pronto a chorar de cansaço, consumaram:
‘Fica o bem de raiz pra pagar a fiança’.
Deixei meu dente.
Agora só tenho três reféns sem mácula.

O próprio nome desse poema se refere ao título da obra, Bagagem, já que toda bagagem deve passar pela alfândega. Assim, Adélia Prado fala sobre seu livro, sua bagagem de poemas e sentimentos que, para passar pela alfândega, precisa do sacrifício de uma parte dela mesma, simbolizada no poema pelo dente.

Relevância da obra

Bagagem, de Adélia Prado, é considerada uma das principais obras poéticas contemporâneas publicadas por mulheres, representando com sutileza e sensibilidade o eu-lírico feminino. O livro também tem uma grande relevância para a poesia modernista. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, elogia a escrita da autora por trazer a visão feminina para temas do cotidiano.

TODOS FAZEM UM POEMA A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
e esticava o cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu dizendo, à cata
de constituição, e paramos em «clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama desabrochar nas sebes europeias».
Temos terrores noturnos, diurnos desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta lembrança não deixa:
uma vez, na avenida Afonso Pena, um bêbado gritando:
‘Todo mundo aqui é um saco de tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias vezes, disseram:
‘Não sabes ler a placa? É CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No entanto persiste,
a partir de mim, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de versos,
que é uma pergunta só, nem ao menos original:
‘Porque não nasci eu um simples vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.

Notas sobre a autora

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935, filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Ela leva uma vida pacata na cidade do interior e inicia seus estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato. Em 1950, falece sua mãe, acontecimento que faz a autora escrever seus primeiros versos. No ano seguinte, ela inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui em 1953.  Em 1955, começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho.

Na década de 1970, envia manuscritos para o poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade. Em 1975, Drummond sugere para a Editora Imago que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam “fenomenais”. O livro é lançado no Rio de Janeiro, em 1976, com a presença de nomes como Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitschek, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho.

O ano de 1978 marca o lançamento do livro O coração disparado, que é agraciado com o Prêmio Jabuti. No ano seguinte, a autora publica sua primeira obra em prosa, Solte os cachorros. Com o sucesso de sua carreira de escritora, Adélia se vê obrigada a abandonar o magistério, após 24 anos de trabalho.

De 1983 a 1988, ela exerce a função de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis. Em 1985, ela participa, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América. Em 1987, Fernanda Montenegro apresenta no Teatro Delfim o espetáculo Dona Doida, baseado em textos de Adélia. A montagem fez grande sucesso, sendo apresentada em diversos estados brasileiros, nos Estados Unidos, na Itália e em Portugal.

Em 1994, após anos de silêncio, sem nenhuma palavra, nenhum verso, Adélia Prado ressurge com o livro O homem da mão seca. Conta a autora que a obra foi iniciada em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, sofreu uma crise de depressão que interrompeu suas criações literárias por um longo tempo. Em 1996, Adélia participa da série O escritor por ele mesmo, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Em Belo Horizonte, é apresentado O sempre amor, espetáculo de dança de Teresa Ricco baseado em poemas da escritora.

Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura. Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, como a moça que arruma a cozinha, a missa, o cheiro de mato e os vizinhos.

Obras de Adélia Prado

Poesia

  • Bagagem − 1976;
  • O Coração Disparado − 1978;
  • Terra de Santa Cruz − 1981;
  • O Pelicano− 1987;
  • A Faca no Peito − 1988;
  • Oráculos de Maio − 1999;
  • Louvação para uma Cor – 2010;
  • A duração do dia − 2010.

Prosa

  • Solte os Cachorros − 1979;
  • Cacos para um Vitral − 1980;
  • Os Componentes da Banda − 1984;
  • O Homem da Mão Seca − 1994;
  • Manuscritos de Filipa − 1999;
  • Filandras − 2001;
  • Quero minha mãe – 2005;
  • Quando eu era pequena − 2006.

Antologia

  • Mulheres & Mulheres − 1978;
  • Palavra de Mulher − 1979;
  • Contos Mineiros − 1984;
  • Poesia Reunida − 1991;
  • Antologia da Poesia Brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim − 1994;
  • Prosa Reunida − 1999.

 

PARA PERPÉTUA MEMÓRIA

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
A mesma cara sem sombras, os graves da fala
em cantos, as palavras sem pressa,
inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como o dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música e cantava.
Que cantasse, era a natureza do sonho.
Que fosse alto e bonito o canto, era sua matéria.
Aconteciam na praça sol e pombos
de asa branca e marrom que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha, os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza,
é o que mais punge.

 

O SONHO

O reconheci na fração do meu nome,
me chamou como em vida,
a partir da tônica:
‘Délia, vem cá’.
Peguei nos pés do catre,
onde jazia sã sua cara doente,
e o fui arrastando por corredores cheios
de médicos, seringas e uniformes brancos.
Depois foi o dia inteiro o peito comprimido,
sua voz no meu ouvido, seus olhos
como só os dos mortos olham
e a esperança, em puro desconforto
e ânsia.

Até a próxima!

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