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Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles

Olá, leitor!

Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, é uma reunião de narrativas que foram escritas entre 1949 e 1969, sendo uma obra considerada muito crítica e também, o livro de contos mais bem sucedido de Lygia Fagundes Telles.

Ao total, são dezoito contos reunidos em Antes do Baile Verde, a autora Lygia Fagundes Telles examina com um olhar solitário e ao mesmo tempo crítico os mais variados destinos das pessoas.

Com uma prosa fluente e ao mesmo tempo sedutora, Lygia tornou-se uma das autoras mais admiradas, capaz de despertar no leitor um interesse gigantesco devido aos conflitos amorosos, descobertas surpreendentes e a tensão entre o desejo e a consciência moral da sociedade que apresenta em suas obras, principalmente em Antes do Baile Verde.

“Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto”.

Resumo dos contos da obra

Antes do Baile Verde

Fonte: Shutterstock

Os 18 contos dos livros e seus respectivos resumos, são:

Os objetos

É o primeiro dos contos dessa obra e narra um diálogo entre uma mulher e seu marido a respeito dos objetos por eles, tratando de seus valores e suas representações dentro da relação do casal.

Como por exemplo, um peso de papel que só tem utilidade se está sobre papéis, eles correlacionam a utilidade dos objetos com a relação deles que está sem amor e entusiasmo.

Verde lagarto amarelo

Narra a história de dois irmãos, o mais velho era Rodolfo e o mais novo Eduardo que por sua vez, era o preferido de sua mãe. O mais velho vivia em função do caçula por intervenção de sua mãe.

Rodolfo era quieto e vivia calado, a única coisa que o fazia sentir bem era a escrita, pois era escritor. Eduardo, o irmão mais novo em contrapartida, era extrovertido e animado e em uma visita que fez a seu irmão mais velho contou que havia escrito um romance, para a surpresa de Rodolfo, pois, seria a única coisa que ele tinha e que era apenas sua.

Apenas um saxofone

Conta a história de uma mulher velha, porém, rica. Ela era sedutora, tanto que, tinha um homem rico que a sustentava, um jovem para satisfazer seus caprichos e um professor espiritual que era com quem ela dormia.

Ela possuía muitas coisas, muitos bens materiais, dentre eles tapetes caros, joias e uma mansão, mas não era uma mulher feliz. Vivia alimentando a saudade que sentia de um saxofonista que também amava e se dedicava a ela como sua musa.

Ele era apaixonado por sua profissão e era assim que sustentava sua mulher, mas a relação se desgastou tanto que foi embora para não mais voltar. Desde então, ela vivia com lembrança de seu amado.

Helga

Narra a história de jovem brasileiro que vivia em férias na Alemanha, e que assume uma vida alemã. Em uma dessas férias ele passou pela guerra, portanto, não foi mais aceito no Brasil.

Passou a viver do tráfico de alimentos lá mesmo, onde conheceu Helga, uma mulher alemã que tinha uma perna ortopédica, ficaram noivos, o pai de Helga chegou a propor que começassem a traficar penicilina, mas não tinham o capital inicial para tal feito.

Mas o brasileiro que se casou com Helga preferiu roubar a perna ortopédica de sua esposa e voltar para o Brasil.

O moço do saxofone

Conta a história de um motorista de caminhão que se instala numa pensão, nela moravam inúmeros anões, uma mulher com seu marido saxofonista, homem traído e conformado com isso.

Nessa pensão haviam quartos separados e quando a mulher estava na companhia de outro homem, o marido tocava o saxofone de forma deprimente, causando um incômodo muito grande no chover de caminhão.

Quando ele encontrou a mulher do saxofonista tratou de marcar um encontro, ela explicou qual era a porta para encontrá-la.

Ele então questionou o saxofonista conformado sobre porque não fazia nada e ele afirmou que tocava o saxofone, o chofer então partiu da pensão.

Antes do baile verde

Conta a história da preparação de uma jovem chamada Tatisa para um baile de carnaval. Com a ajuda de sua empregada, ela pregava as lantejoulas na saia que iria usar, a empregada começa a ficar inquieta, pois, estava ficando atrasada para seu encontro amoroso e também discutiam o fato de que o pai de Tatisa estava em seus últimos minutos de vida.

Incrédula da morte de seu pai, Tatisa e a empregada deixam ele desfalecendo para ir ao baile de carnaval.

A caçada

Conta a história de um homem que visita uma loja de antiguidades, ele encontra uma tapeçaria que lhe traz lembranças que ele não reconhece.

Ele acaba ficando preso à imagem e sente-se preso a uma caçada que ele ilustrava. Passou a ir à loja frequentemente para ficar observando a peça, foi aí que, em um determinado momento teve um ataque cardíaco e morreu em frente a peça.

A chave

Narra a história do cotidiano de um casal, Tom e sua mulher se arrumam para ir a um jantar que ele considera desnecessário, ele questiona a inutilidade de eventos como esse e o quanto preferiria ficar em casa dormindo.

Meia noite em ponto em Xangai

Narra a história de uma noite em que uma cantora alcança o momento de sucesso de sua carreira em um concerto na China. Após o show, ela recebe em casa seu empresário e eles discutem a precariedade e a falta de humanidade dos trabalhos de lá.

O empresário vai embora e a cantora, junto com seu cãozinho, ficam aterrorizados com a escuridão e com a possível presença de um empregado naquele local.

A janela

Conta uma conversa entre um homem e uma mulher, esse homem chega ao quarto da mulher, se aproxima da janela e conta uma história sobre seu filho ter falecido naquela janela e lá havia uma roseira que seu filho adorava.

Questionado pela mulher sobre o fato ele pouco responde, então, a mulher lhe oferece um refresco, ele aceita, ela sai do quarto, mas volta acompanhada por médicos, ele pergunta qual o motivo, sem responder os médicos o levam sem a necessidade de utilizar a camisa de força.

Um chá bem forte e três xícaras

Fala sobre espera, a espera de uma mulher, observando uma nova borboleta em uma rosa, tem como convidada uma jovem de 18 anos que trabalha para seu marido.

A empregada pergunta se aquele jovem era o mesmo que liga à procura de seu patrão, e a mulher responde que sim. Depois de limpar a as lágrimas, a mulher vai receber a jovem no portão, a empregada por sua vez, vai buscar o chá e três xícaras, para o caso de o patrão também aparecer.

O jardim selvagem

Conta a história do Tio Ed que é casado com Daniela e um jardim selvagem. A irmã do tio Ed, conta em confidência a sobrinha Pombinha que não aprova o casamento dele com Daniela, fala sobre a luva que ela usa sempre em uma das mãos e que nunca ninguém vê.

Após conhecê-la a acha um amor de pessoa, mas um tempo depois a empregada da casa conta a sobrinha de Ed que viu Daniela matar um cachorro atirando em sua cabeça, ela afirma apenas ter poupado à dor do animal por conta de uma doença que ele tinha.

Por esse motivo a empregada preferiu pedir demissão, tempos depois o Tio Ed ficou doente e teria tirado sua própria vida com um tiro na cabeça.

Natal na barca

Mostra o diálogo entre uma senhora e uma mulher em uma barca que está cruzando o rio durante o natal. a mulher está levando seu filho doente ao médico, ela conta a senhora que já havia perdido o filho mais novo, ele teria pulado de um muro pensando que podia voar, então, o marido a abandonou, mandando apenas uma carta depois.

Sem palavras a senhora arruma a manta do bebê, percebe que ele já está morto, nesse momento a embarcação chega ao destino, a senhora se apressa para sair para não ver a dor da mãe. Porém, logo após desembarcarem, o bebê acorda e a senhora vê a mulher ir embora com seu filho.

A ceia

Mostra a despedida de dois amantes em um restaurante. A mulher muito apaixonada suplica para que ele a visite, mas ele se nega e afirma está tudo acabado.

No entanto, fala que foi muito bom enquanto durou e que não quer romper e ficar inimigos. Ela usa um tom sarcástico para questioná-lo sobre sua noiva e vai embora sozinha.

Venha ver o pôr-do-sol

Conta a história de um casal que se reencontra após o rompimento de seu relacionamento, isso devido às súplicas do homem. Ricardo a convidou para um encontro em um cemitério, o que deixou Raquel relutante, mas acaba indo e ela é direcionada por ele até um jazigo que ele afirma ser de sua família.

Ele quer mostrar a ela uma foto de sua prima que tem os olhos parecidos com os de Raquel. Quando olhou a data do falecimento percebeu que seria uma data muito antiga para que fosse prima de Ricardo, porém, nesse momento ele já havia trancado ela no jazigo enquanto crianças brincavam na rua.

Eu era mudo e só

Narra a vida de homem oprimido pela mulher que o afasta dos amigos, sua esposa foi criada com uma educação perfeita das aparências, ela fez questão de repassar isso para sua filha Gisela.

Ele havia abandonado sua profissão de jornalista para ser sócio do sogro no ramo de máquinas agrícolas apenas para manter os padrões determinados por Fernanda.

Pérolas

Narra a história de Tomás e Lavínia, ele observa sua mulher se arrumar já imaginando o que acontecerá na reunião, vê a mulher com Roberto na sacada, sem palavras, porém, sabendo que se amam.

Ele o incentiva a ir, ela procura o colar de pérolas, mas não o encontra, ele teria escondido para diminuí-la, mas quando ela já estava na calçada ele fala que achou o colar e o entrega a Lavínia.

Menino

Mostra a ida de uma criança e sua mãe ao cinema. Eles caminham juntos e o menino é orgulhoso da beleza de sua mãe. Ela caminha apressada, mas demora na porta do cinema, manda o menino comprar doces.

Eles então entram, passam muitos lugares para dois, mas param apenas em um local para três, o menino reclama da cabeça grande que atrapalha sua visão, ele tenta mudar de lugar, mas sua mãe não deixa.

Nesse instante se senta homem na cadeira vaga ao lado, a grande cabeça dá espaço para o menino enxergar e ele percebe que sua mãe está de mãos dadas com o homem que ele não conhece, a imagem da mão branca junto a mão morena do homem o perturba, antes de acabar o filme o homem vai embora, chegando em casa e vendo seu pai o menino então chora.

“— Ratos, querida, ratos — disse e sorriu da própria voz aflautada. — Já viu um rato bem de perto? Tinha muito rato numa pensão onde morei. De dia ficavam enrustidos, mas de noite se punham insolentes, entravam nos armários, roíam o assoalho, roque-roque… Eu batia no chão para eles pararem e nas primeiras vezes eles pararam mesmo, mas depois foram se acostumando com minhas batidas e no fim eu podia atirar até uma bomba que continuavam roque-roque-roque-roque… Mas aí eu também já estava acostumado. Uma noite um deles andou pela minha cara. As patinhas são frias.”

Análise de alguns contos

As situações narradas na obra são as mais diversas, em “A caçada”, por exemplo, um homem fica tão intrigado com uma velha tapeçaria que encontra em um antiquário que acaba mergulhando na cena retratada na peça, como se estivesse em outra dimensão, como se participasse dessa outra dimensão ou numa outra vida.

Já no macabro e assustador “Venha ver o pôr do sol”, um jovem rapaz leva sua ex-namorada a um jazigo abandonado.

Os conflitos amorosos são tema em “Apenas um saxofone”, “O jardim selvagem” “Um chá bem forte e três xícaras” e “As pérolas”. Mas o enfoque de Lygia é sempre o surpreendente e diverso.

Em “o menino”, por exemplo, uma infidelidade conjugal é observada por um menino de modo oblíquo, ele acompanha a mãe ao cinema que observa suas atitudes. Mas o escopo literário e humano de Lygia Telles não se concentra apenas aos dramas amorosos dos casais.

“Natal na barca”, uma pequena parábola com final surpreendente. Em “Meia-noite em ponto em Xangai” nada mais é do que, um balanço sobre a prima-dona da ópera que faz a sua própria vida vazia e solitária.

Em “o moço do saxofone” um motorista de caminhão tenta resistir a uma mulher casada e hesita em ir para a cama com ela numa pensão de beira de estrada. Em “A janela” um homem louco visita um bordel afirmando que aquela era a casa onde seu filho morreu.

Assim, com uma prosa elegante e segura, que alterna com desenvoltura os gêneros e vozes da narrativa, a autora Lygia Fagundes Telles expõe sempre o mais alto grau de capacidade de emocionar e seduzir o leitor.

Contexto histórico

Contexto histórico se dá no período de pós-modernismo/ficção intimista/prosa e de penetração psicológica. Uma literatura que tem se dedicado a analisar os conflitos vividos pelo homem na sociedade em âmbito familiar, baseando-se em temáticas e situações comuns da sociedade brasileira dos últimos tempos.

Relevância da obra

O salto para o metafísico, o sobrenatural, o fluxo de consciência e o fantástico, mostram a pluralidade do poder de escrita de Lygia Fagundes Telles, sendo que além de tudo isso, segundo o crítico João soares Neto, sutileza é o método principal da escrita de Lygia.

Nada de cenas explosivas, revelações grandiosas ou discursos edificantes. Nada de completo ou de fixo.

A autora pega os assuntos discretamente, pelas bordas, puxando os fios que parecem imperceptíveis ou até inexistentes, ela tateia.

Sempre caminha pelo caminho mais difícil, acredita no impalpável, no invisível, ela não foge do precário e é dessa forma que ela relata suas histórias, sem necessidade de escândalos, mistérios grandiosos ou coisas excessivas.

Para ela, o objeto da literatura não tem que ser o real, mas o indizível, ou seja, aquela parte do real que nos escapa. Tudo aquilo que não pode ser falado ou dito, nem mesmo com discurso impetuoso da razão e nem com os argumentos sedutores da razão.

Esse indivisível visto com sensibilidade aproxima-se extraordinário, que a literatura de Telles tenta mostrar.

Em tempo que a nossa literatura se separada, se despedaça, e a dúvida aprisiona a criação literária, os escritores acabam tirando do seu próprio desanimo a força para continuarem escrevendo.

As narrativas serenas e seguras de Lygia Telles são surpreendentes diante de um mundo instável e tumultuoso, sendo quase irreais.

Por esses e outros motivos, que Antes do Baile Verde consagra-se como a melhor obra de contos de Lygia Fagundes Telles, bem como, por essas razões, que essa autora entra para o hall do que há de melhor na literatura brasileira.

“A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito de rir sem vontade, de falar sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade… O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul, fica azul, numa vermelha, vermelho. Um dia se olha no espelho, de que cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora.”

Até logo!

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