Você está aqui:Home » Dicas » Estudantes » Alexandre e Outros Heróis, de Graciliano Ramos

Alexandre e Outros Heróis, de Graciliano Ramos

Olá, leitor!

Alexandre e Outros Heróis, de Graciliano Ramos, recebeu este título em 1962. Em 1944, quando foi originalmente publicado, o livro tinha o nome de Histórias de Alexandre. Contudo, a versão final da obra é uma compilação de três livros anteriores do autor, todos se passando no interior do Alagoas. As Histórias de Alexandre, A Terra dos Meninos Pelados  e Pequena História da República  acabariam por se tornar Alexandre e Outros Heróis.

No sertão do Nordeste vivia antigamente um homem cheio de conversas, meio caçador e meio vaqueiro, alto, magro, já velho, chamado Alexandre. Tinha um olho torto e falava cuspindo a gente, espumando como um sapo-cururu, mas isto não impedia que os moradores da redondeza, até pessoas de consideração, fossem ouvir as histórias fanhosas que ele contava. Tinha uma casa pequena, meia dúzia de vacas no curral, um chiqueiro de cabras e roça de milho na vazante do rio. Além disso, possuía uma espingarda e a mulher. A espingarda lazarina, a melhor espingarda do mundo, não mentia fogo e alcançava longe, alcançava tanto quanto a vista do dono; a mulher, Cesária, fazia renda e adivinhava os pensamentos do marido. Em domingos e dias santos a casa se enchia de visitas — e Alexandre, sentado no banco do alpendre, fumando um cigarro de palha muito grande, discorria sobre acontecimentos da mocidade, às vezes se enganchava e apelava para a memória de Cesária. Cesária tinha sempre uma resposta na ponta da língua. Sabia de cor todas as aventuras do marido, a do bode que se transformava em cavalo, a da guariba mãe de família, da cachorra morta por um caititu acuado, pobrezinha, a melhor cachorra de caça que já houve. E aquele negócio de onça-pintada que numa noite ficara mansa como bicho de casa? Era medonho. Alexandre tinha realizado ações notáveis e falava bonito, mas guardava muitas coisas no espírito e sucedia misturá-las.
Cesária escutava e aprovava balançando a cabeça, curvada sobre a almofada trocando os bilros, pregando alfinetes no papelão da renda. E quando o homem se calava ou algum ouvinte fazia perguntas inconvenientes, levantava os olhos miúdos por cima dos óculos e completava a narração. Esse casal admirável não brigava, não discutia. Alexandre estava sempre de acordo com Cesária, Cesária estava sempre de acordo com Alexandre. O que um dizia o outro achava certo. E assim, tudo se combinando, descobriam casos interessantes que se enfeitavam e pareciam tão verdadeiros como a espingarda lazarina, o curral, o chiqueiro das cabras e a casa onde eles moravam. Alexandre, como já vimos, tinha um olho torto. Enquanto ele falava, cuspindo a gente, o olho certo espiava as pessoas, mas o olho torto ficava longe, parado, procurando outras pessoas para escutar as histórias que ele contava. A princípio esse olho torto lhe causava muito desgosto e não gostava que falassem nele. Mas com o tempo se acostumou e descobriu que enxergava melhor por ele que pelo outro, que era direito. Consultou a mulher:
— Não é, Cesária?
Cesária achou que era assim mesmo. Alexandre via até demais por aquele olho: Não se lembrava do veado que estava no monte? Pois é. Um homem de olhos comuns não teria percebido o veado com aquela distância. Alexandre ficou satisfeito e começou a referir-se ao olho enviesado com orgulho. O defeito desapareceu, e a história do espinho foi nascendo, como tinham nascido todas as histórias dele, com a colaboração de Cesária. São essas histórias que vamos contar aqui, aproveitando a linguagem de Alexandre e os apartes de Cesária.

Resumo da obra

Alexandre e Outros Heróis, Graciliano Ramos

Fonte: Reprodução

Na primeira parte do livro, o próprio Alexandre conta histórias fantásticas às pessoas que estão na sua casa, que são Cesária, sua esposa; Libório, um poeta popular; Mestre Gaudêncio, o curandeiro; Das Dores, a rezadeira; e o mendigo cego Firmino. Dessa forma, o autor enfatiza que essas histórias fazem parte do folclore local e toma emprestada a voz de Alexandre para chegar até o leitor.

Primeira Parte

No primeiro conto, Alexandre narra um episódio da infância, quando seu pai o incumbiu de encontrar uma égua perdida. A tarefa se  estende até a noite e o garoto, por conta da falta de luz, acaba montando e conduzindo não a égua do pai, mas sim uma enorme onça-pintada.  No segundo conto, Firmino questiona a veracidade da primeira história, pois Alexandre já havia narrado esse fato antes, sem, contudo, mencionar um espinheiro, como fez dessa vez.

Alexandre então afirma que não poderia ter se esquecido do espinheiro, pois fora a planta que deixara seu olho torto. Ao chegar montado na onça, o pai notara que Alexandre estava sem o olho esquerdo. O menino refaz o caminho que percorrera montado no felino e localiza seu olho no espinheiro. Recoloca-o na órbita, porém, após enxergar o interior de seu corpo, nota que o globo está invertido. Gira-o e não só nota que está vendo claramente, como também que o olho esquerdo parece melhor que o direito.

No conto seguinte, Alexandre narra a história de um bode que tinha as dimensões de um cavalo. Por conta disso, ele o criara como tal, chegando a participar de um rodeio montado no animal. O bode era muito superior aos demais cavalos, por isso, Alexandre foi o único a laçar a novilha no torneio. Enquanto trazia um dos quartos da novilha como prova de seu êxito, ele foi atacado por uma onça, que matou com o mesmo facão com o qual tinha matado a novilha.

Na quarta narrativa, quem começa a história é Cesária, contando sobre sua festa de casamento com Alexandre, época em que eles tinham muito dinheiro. Em seguida, a mulher pede ao marido que fale sobre o papagaio falador. Alexandre continua e relata que, quando foi vender gado na cidade, passou por uma casa e, tendo sede, pediu água. Após ter uma longa conversa com alguma voz misteriosa, Alexandre é avisado pela dona da casa que estava falando com um papagaio.

Lembrando-se de que tinha prometido comprar um animal desses para Cesária, ele paga muito dinheiro (o valor é alterado cada vez que é  mencionado pelo narrador) pelo papagaio e o coloca em uma sacola com buracos. Chegando em casa, Alexandre se esquece do animal, lembrando-se dele apenas após Cesária ter aberto todos os outros presentes. Quando a sacola é aberta, o papagaio queixa-se do tratamento que recebeu e morre.

No relato seguinte, Alexandre menciona seu estribo de prata. Em uma de suas viagens, ele fora atacado por uma cobra, porém, o bote acertara o estribo em vez de sua perna. Alguns dias depois, Alexandre nota que o estribo estava inchado e retira 5 arrobas de prata do objeto. Diz ele que esse processo se repetiu durante anos, até o efeito do veneno passar.

Na próxima narrativa, Alexandre conta que comprara uma casa na cidade e a mobiliara com o que havia de mais caro, incluindo um marquesão (sofá antigo) feito de madeira de jaqueira. Por causa de uma doença de Cesária, que consumiu boa parte da suposta fortuna do casal, eles tiveram que retornar à fazenda, onde permaneceram por muito tempo, até a mulher se curar. Ao voltar para a cidade, encontram as quatro pernas do marquesão convertidas em quatro belas jaqueiras carregadas de frutos.

No relato seguinte, temos a história de quando Alexandre plantou 30 mil pés de mandioca, porém perdeu a plantação inteira. Ao verificar o que acontecera, viu que tatus haviam se instalado nas raízes e devorado toda a plantação. Ele, então, abateu os tatus e vendeu a carne. Em outro conto, o vaqueiro narra que, enquanto viajava em uma noite sem lua, confundira uma jiboia com suas botas e calçou-a, utilizando a boca do animal como se fosse a boca da bota.

Em sequência, o vaqueiro conta sobre o segundo papagaio que teve. Após a morte do primeiro, ele vai à cidade e encontra um papagaio que não só falava como defendia processos no tribunal. Contudo, o papagaio se desentende com Cesária e esta o liberta. Tempos depois, Alexandre o encontra ensinando outras aves a rezar o terço.

Em seguida, Alexandre narra como resolveu o problema de um furo na canoa que alugara para atravessar o rio São Francisco. Entre os gritos do canoeiro e o desespero da tripulação, Alexandre fez outro furo, do lado oposto da embarcação, pois acreditava que a água entraria por um furo e sairia pelo outro. Para a surpresa geral, o raciocínio provou-se verdadeiro.

Na sequência, temos a história de uma das caçadas de Alexandre. Ele conta que a noite caiu e não conseguia encontrar as roupas que tinha tirado. Após perder-se na escuridão, o vaqueiro encontrou um macaco vestindo suas roupas e fumando seu cachimbo. Alexandre resolve matar o animal com sua espingarda, porém, o macaco começa a falar, negocia com o vaqueiro, devolve-lhe as roupas e parte em paz.

Em seguida, Alexandre relata os feitos maravilhosos de sua espingarda, que ganhou de presente do irmão, tenente da polícia. Segundo o vaqueiro, ela era capaz de acertar duas araras voando em alturas diferentes com um único disparo, além de acertar um veado a 18 léguas de distância.

Ainda, temos a história de Moqueca, a cadela de Alexandre, que fazia compras sozinha na cidade. Um dia, quando estava prenha, Moqueca se perdeu do dono. Quando a reencontrou, ele viu a cachorra  morta por um porco-espinho, enquanto os filhotes recém-nascidos encaravam o assassino da mãe. Alexandre abate o porco-espinho e, ao aproximar-se, viu que um dos filhotes lutava com o agressor, mesmo este já estando morto. Para finalizar a primeira parte, Alexandre fala que tivera uma febre forte e todas as histórias que contara até aqui são frutos de seu delírio.

– Esse caso que vossemecê escorreu é uma beleza, seu Alexandre, opinou seu Libório. E eu fiquei pensando em fazer dele uma cantiga para cantar na viola.
— Boa ideia, concordou o cego preto Firmino. Era o que seu Libório devia fazer, que tem cadência e sabe o negócio. Mas aí, se me dão licença… Não é por querer falar mal, não senhor.
— Diga, seu Firmino, convidou Alexandre.
— Pois é, tornou o cego. Vossemecê não se ofenda, eu não gosto de ofender ninguém. Mas nasci com o coração perto da goela. Tenho culpa de ter nascido assim? Quando acerto num caminho, vou até topar.
— Destampe logo, seu Firmino, resmungou Alexandre enjoado. Para que essas nove-horas?
— Então, como o dono da casa manda, lá vai tempo. Essa história da onça era diferente a semana passada. Seu Alexandre já montou na onça três vezes, e no princípio não falou no espinheiro.
Alexandre indignou-se, engasgou-se, e quando tomou fôlego, desejou torcer o pescoço do negro:
— Seu Firmino, eu moro nesta ribeira há um bando de anos, todo o mundo me conhece, e nunca ninguém pôs em dúvida a minha palavra.
— Não se aperreie não, seu Alexandre. É que há umas novidades na conversa. A moita de espinho apareceu agora.
— Mas, seu Firmino, replicou Alexandre, é exatamente o espinheiro que tem importância. Como é que eu me iria esquecer do espinheiro? A onça não vale nada, seu Firmino, a onça é coisa à toa. Onças de bom gênio há muitas. O senhor nunca viu? Ah! Desculpe, nem me lembrava de que o senhor não enxerga. Pois nos circos há onças bem ensinadas, foi o que me garantiu meu mano mais novo, homem sabido, tão sabido que chegou a tenente de polícia. Acho até que as onças todas seriam mansas como carneiros, se a gente tomasse o trabalho de botar os arreios nelas. Vossemecê pensa de outra forma? Então sabe mais que meu irmão tenente, pessoa que viajou nas cidades grandes.
Cesária manifestou-se:
— A opinião de seu Firmino mostra que ele não é traquejado. Quando a gente conta um caso, conta o principal, não vai esmiuçar tudo.
— Certamente, concordou Alexandre. Mas o espinheiro eu não esqueci. Como é que havia de esquecer o espinheiro, uma coisa que influiu tanto na minha vida?

Segunda Parte

Na segunda parte, temos uma narrativa em terceira pessoa, na qual conhecemos Raimundo, um menino marginalizado pela sociedade por causa de sua aparência. Raimundo tinha um olho azul, o outro preto e nenhum cabelo na cabeça, o que lhe rendeu o apelido de “pelado” e várias humilhações.

Um dia, após subir um morro, o menino se acha em um lugar chamado Tatiripun. Nesta terra estranha, as ladeiras se endireitam para os pedestres passarem e os carros  saltam por cima das pessoas para evitar acidentes. Após conversar com uma laranjeira, Raimundo chega à Serra do Taquaritu, onde cigarras giram sobre discos de vitrola soltos no ar e aranhas vermelhas tecem túnicas de seda colorida.

Após atravessar o Rio das Setes Cabeças, que se abre para o menino passar, Raimundo encontra outros como ele, sem cabelos e com um olho de cada cor. Ele então começa uma amizade com as crianças locais e o grupo parte em busca da princesa desaparecida, Caralampia.

Após encontrá-la, o menino resolve voltar para casa. Promete ensinar o caminho aos outros e falar de tudo que viveu nessa terra mágica, mas alerta que ele próprio talvez não retorne mais, pois pode perder-se no caminho. O garoto então retorna às paisagens conhecidas de sua cidade e às situações desagradáveis de sua vida. Talvez a história tenha sido somente uma tentativa de fugir da dura realidade.

Havia um menino diferente dos outros meninos: tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam:
— Ó pelado!
Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para se assinar a carvão, nas paredes: Dr. Raimundo Pelado. Era de bom gênio e não se zangava; mas os garotos dos arredores fugiam ao vê-lo, escondiam-se por detrás das árvores da rua, mudavam a voz e perguntavam que fim tinham levado os cabelos dele. Raimundo entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavam demais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura.
Não tendo com quem entender-se, Raimundo Pelado falava só, e os outros pensavam que ele estava malucando.

Terceira Parte

Na última parte, temos a Pequena História da República, na qual Graciliano Ramos narra, como se falasse com crianças, o período da República Velha. É um relato no qual o autor coloca muito de si, sem tentar florear a história e tecendo críticas a diversas personalidades da época.

Em 1889 o Brasil se diferençava muito do que é hoje: não possuíamos Cinelândia nem arranha-céus; os bondes eram puxados por burros e ninguém rodava em automóvel; o rádio não anunciava o encontro do Flamengo com o Vasco, porque nos faltavam rádio, Vasco e Flamengo; na Estrada de Ferro Central do Brasil morria pouca gente, pois os homens, escassos, viajavam com moderação; existia o morro do Castelo, e Rio Branco não era uma avenida — era um barão, filho de visconde. O visconde tinha sido ministro e o barão foi ministro depois. Se eles não se chamassem Rio Branco, a avenida teria outro nome.
As pessoas não voavam, pelo menos no sentido exato deste verbo. Figuradamente, sujeitos sabidos, como em todas as épocas e em todos os lugares, voavam em cima dos bens dos outros, é claro; mas positivamente, a mil metros de altura, o voo era impossível, que Santos Dumont, um mineiro terrível, não tinha fabricado ainda o primeiro aeroplano, avô dos que por aí zumbem no ar.

Estrutura da obra

Alexandre e Outros Heróis, de Graciliano Ramos, é uma obra dividida em três partes, sendo esses trechos outros livros pequenos lançados pelo autor (As Histórias de Alexandre; A Terra dos Meninos Pelados e Pequena História da República) que foram compilados juntos para essa edição.

A primeira parte é composta pelos contos de Alexandre, narrados em primeira pessoa. A segunda é sobre a descoberta de uma terra mágica por um menino excluído pela sociedade. A terceira parte traz a história da Velha República em um relato repleto de críticas a esse período histórico.

– Vou contar a história da cachorra e do porco brabo, anunciou Alexandre aos amigos uma noite escanchado na rede. Já falei nisto uma vez, se não me engano, quando me referi ao veado e às duas araras. Lembram-se? Os senhores conheceram nesse dia o alcance da lazarina que meu irmão tenente me ofereceu.
Ora muito bem. Essa cachorra de que vou tratar hoje era uma pobre de Cristo, feia, magra e apareceu aí no pátio, sem ninguém saber donde tinha vindo, esfomeada e cheia de peladuras. Latia que era um deus nos acuda, coçava-se nas estacas das cercas, esfregava-se nas pernas da gente e fazia nojo. Eu por mim não queria aquela infeliz em casa, mas Cesária, que tem um coração de ouro, tomou conta dela, deu-lhe comida e curou-lhe os achaques.
— Foi porque vi logo que a cachorra era diferente das outras, explicou Cesária, lá da esteira. Preta como carvão, tinha a ponta do rabo branca e uma estrela na testa. Estes sinais não falham.
— Estão ouvindo? exclamou Alexandre encantado com a sabedoria da mulher. Essa Cesária nasceu de encomenda. Que tino! Pois eu não percebi nada: a cadelinha preta, de rabo branco e estrela na testa, parecia-me igual às outras. E nem prestei atenção às primeiras habilidades dela. Depois é que assuntei: aquilo não era procedimento de cachorro ordinário. Diga-me uma coisa, mestre Gaudêncio, com franqueza: o senhor acredita em artes do diabo?

Relevância da obra

Alexandre e Outros Heróis, de Graciliano Ramos, possui grande relevância para a literatura brasileira, já que trabalha com a própria ação de contar histórias. Sendo assim, a obra ganha um aspecto folclórico, que envolve o fantástico, a misticidade e as lendas dos povos sertanejos.

As três partes têm metalinguagem, porém, ela se manisfesta de formas diferentes. Na primeira parte, vemos como um homem marginalizado pela sociedade conta histórias sobre sua vida. Na segunda, temos um menino que, também excluído, vive uma  aventura em um universo fantástico criado por ele mesmo. Na terceira parte, por sua vez, há críticas sociais e políticas sobre o período conhecido como República Velha.

Enfim, seja por conta de seu caráter metalinguístico, do uso do regionalismo, da utilização do fantástico, do folclore e de aspectos sociais e políticos, essa obra se torna fundamental para a literatura brasileira.

— Não, seu Firmino, corrigiu  Alexandre. Sem chuva. Eu não disse que o senhor estava dormindo? Armação de trovoada, muito calor e um escuro da peste. Era o que havia. Tudo escuro. Repito isto para vossemecês não se admirarem do que me aconteceu naquela noite. Ora muito bem. Passei umas horas calculando o ganho, com a ideia de mandar levantar na fazenda um sobrado como os que tinha visto na capital, grandão, cheio de enfeites e trapalhadas. Queria ver Cesária experimentar cama de mola e espiar-se naqueles espelhos do tamanho de uma parede. Acho que os amigos nunca viram isso, mas há. Por volta de meia-noite enrolei-me no cobertor, caí na madorna e comecei a sonhar com os sobrados e os espelhos. Acordei de madrugada. Sentei-me, fiz o pelo-sinal, gritei aos homens, que se levantaram e foram pegar os animais. Já sabem que me tinha deitado com roupa e tudo, como é de costume quando a gente se aboleta nos descampados. Marombando, preguiçando, deixei a morrinha sair do corpo. Depois estirei um braço e procurei as botas que tinha largado ali perto na véspera. Achei uma bota, notei pelo jeito que era do pé esquerdo e calcei-me sem novidade. Mas quando fui calçar a outra sucedeu-me uma dos demônios. Meti a perna pelo cano, a perna entrou, entrou, e nada de chegar ao fundo. Uma bota regular vai ao joelho de um homem, não é isto? Pois essa passou o joelho, passou a coxa, tocou o pé da barriga, e se mais perna houvesse, mais teria entrado. — “Certamente alguém me arrancou a sola do calçado enquanto eu dormia”, pensei. Quem se havia atrevido àquela brincadeira maluca? Dei um grito de raiva. Nesse ponto os arrieiros voltavam do campo, com os animais no cabresto. Trouxeram um pedaço de facheiro aceso, aproximaram-se de mim e perderam ação: olharam uns para os outros, embasbacados, amarelos como defuntos. Sabem vossemecês o acontecido? Nem gosto de me lembrar. Uma jiboia tinha-se enrodilhado junto da fogueira. Percebem? Calcei bem a primeira bota mas quando ia calçar a segunda, agarrei a bicha nas queixadas e enfiei-lhe a perna pela boca adentro.

Até a próxima!

Deixe um comentário

© 2012-2019 Canal do Ensino | Guia de Educação

Voltar para o topo