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Água Viva, de Clarice Lispector

Olá, leitor!

A obra Água viva,  publicada em 1973, foi escrita por Clarice Lispector, que veio a falecer poucos anos após o lançamento do livro. A obra é composta por um texto longo e ficcional, escrito como um monólogo.

Essa forma de expressão era muito incomum para a época, já que desestrutura o romance, trazendo histórias e frases que parecem inacabadas. Água vida não tem um enredo tradicional, não é poesia, romance ou diário, mas traz pequenos fragmentos de vários gêneros literários.

Como um item da terceira geração do Modernismo, o livro é denso e forte, trabalhando com sentimentos reprimidos e refletindo muito bem o estilo de Clarice Lispector, que cria um universo em que imagens e ideias se fundem em um mesmo plano.

Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo-a-corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras — e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.

Hoje acabei a tela de que te falei: linhas redondas que se interpenetram em traços finos e negros, e tu, que tens o hábito de querer saber por quê — e porque não me interessa, a causa é matéria de passado — perguntarás por que os traços negros e finos? é por causa do mesmo segredo que me faz escrever agora como se fosse a ti, escrevo redondo, enovelado e tépido, mas às vezes frígido como os instantes frescos, água do riacho que treme sempre por si mesma.

O que pintei nessa tela é passível de ser fraseado em palavras? Tanto quanto possa ser implícita a palavra muda no som musical. Vejo que nunca te disse como escuto música — apoio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração. Substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos.

Análise da obra

Água Viva, Clarice Lispector

Fonte: Reprodução

Existe dentro da narrativa uma busca pela conexão entre corpo, pensamento e linguagem, por isso, a obra foge do padrão realista. O livro não procura o analógico ou concreto como forma de representação, mas traz uma abordagem improvável para os sentimentos humanos.

O interessante de Água viva é que não há um tema central e a história não é linear. A linguagem é fugaz e forte, compondo imagens multifacetadas de religiosidade, solidão e morte. Assim, o título da obra remete a um reflexo na água, que está em constante movimento por causa da correnteza.

A autora desconstrói, vira pelo avesso, revela o irrevelável, diz o não dizível, isso tudo para que aconteça um rompimento do sistema de escrita e se estabeleça um equilíbrio entre forma e conteúdo. Clarice cria  uma relação muito próxima entre a literatura e as artes plásticas, trazendo como personagem uma artista que escreve sobre pintura e aproximando o livro das sensibilidades corporais.

A realidade se torna muito sutil em alguns momentos da narrativa, pois existe uma confusão entre a autora e a protagonista, que lançam suas reflexões sobre a vida, a morte e vários aspectos das mesmas, como o medo, o sonho, a alma, a arte e a palavra.

Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros — eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante. “Gozar-lhes a levíssima presença” dá-me a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é: a levitação dos pássaros.

Ter coruja nunca me ocorreria, embora eu as tenha pintado nas grutas. Mas um “ela” achou por terra na mata de Santa Teresa um filhote de coruja todo só e à míngua de mãe. Levou-o para casa. Aconchegou-o. Alimentou-o e dava-lhe murmúrios e terminou descobrindo que ele gostava de carne crua. Quando ficou forte era de se esperar que fugisse imediatamente mas demorou a ir em busca do próprio destino que seria o de reunir-se aos de sua doida raça: é que se afeiçoara, essa diabólica ave, à moça. Até que em um arranco — como se estivesse em luta consigo próprio — libertou-se com o voo para a profundeza do mundo. Já vi cavalos soltos no pasto onde de noite o cavalo branco — rei da natureza — lançava para o alto ar seu longo relincho de glória.

Já tive perfeitas relações com eles. Lembro-me de mim de pé com a mesma altivez do cavalo e a passar a mão pelo seu pelo nu. Pela sua crina agreste. Eu me sentia assim: a mulher e o cavalo.

Resumo do livro

O texto de Clarice fala sobre a condição humana e a alteridade, temas que fazem o romance fluir mesmo sem acontecimentos de grande notoriedade externa. O êxtase do livro ocorre por meio dos processos de pensamento, das descobertas interiores e dos relacionamentos dos personagens.

Utilizando-se de recursos verbais e semânticos muito particulares, a autora cria e usa palavras de forma atípica, o que torna seu texto um caso único na literatura. Além disso, em muitos momentos, parece que Clarice fala de sua própria vida, o que é uma forma de aproximar o leitor do livro.

Vida e obra de Clarice Lispector

Clarice Lispector foi uma das escritoras de maior prestígio de sua época, que foi a terceira fase do Modernismo brasileiro, conhecida também como “Geração 45”. A autora foi agraciada com os prêmios Graça Aranha e da Fundação do Distrito Federal.

Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou uma pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Todos os dias olho pelo terraço para o pedaço de praia com mar e vejo as espessas espumas mais brancas e que durante a noite as águas avançaram inquietas. Vejo isto pela marca que as ondas deixam na areia.

Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho porque em certas noites em vez de negro o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem.

No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho. Repare que não menciono minhas impressões emotivas: lucidamente falo de algumas das milhares de coisas e pessoas das quais tomo conta. Também não se trata de emprego pois dinheiro não ganho por isto. Fico apenas sabendo como é o mundo.

Biografia de Clarice Lispector

Clarice, cujo nome de batismo era Hava Pinkhasovna Lispector, nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, na cidade de Tchetchelnick, localizada na Ucrânia. Descendentes de judeus, seus pais passaram muitos anos fugindo da perseguição que ocorreu entre 1918 e 1920, durante a Guerra Civil da Rússia. A família Lispector chegou ao Brasil em 1922 e dividiu suas moradas entre as cidades de Maceió, Recife e Rio de Janeiro.

A mãe de Clarice faleceu em 1928 e 11 anos depois, já no Rio de Janeiro, a futura escritora ingressou na Escola de Direito da Universidade do Brasil e começou se dedicar à literatura.

Em 1940, Clarice Lispector publicou “Triunfo”, seu primeiro livro de contos. No mesmo ano, seu pai faleceu e ela iniciou sua carreira no jornalismo, que a levaria a trabalhar como redatora e repórter em vários meios de comunicação da época, entre eles a Agência Nacional, o Diário da Noite e o Correio da Manhã.

Clarice se casou, em 1943, com o então diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve 2 filhos, sendo que um deles foi afilhado do escritor Érico Veríssimo. Por conta da profissão de seu marido, ela morou nos Estados Unidos, Suíça, Itália e Inglaterra. Mas, após a separação, em 1959, Clarice voltou para o Rio de Janeiro com os filhos.

A escritora se naturalizou brasileira, declarando-se como pernambucana, e veio a falecer por conta de um câncer no ovário em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.

Curiosidades

Uma curiosidade sobre Clarice Lispector é que ela se apaixonou pelo escritor Lúcio Cardoso. Contudo, um relacionamento entre eles seria impossível, já que Lúcio era homossexual. Posteriormente, os dois vieram a se tornar grandes amigos e confidentes.

Outro fato incomum foi o incêndio provocado por um cigarro que ocorreu em sua residência em 1966. A escritora se feriu por conta do fogo, ficou internada durante vários meses e quase teve que amputar a mão.

Dormir nos aproxima muito desse pensamento vazio e no entanto pleno. Não estou falando do sonho que, no caso, seria um pensamento primário. Estou falando em dormir. Dormir é abstrair-se e espraiar-se no nada. Quero também te dizer que depois da liberdade do estado de graça também acontece a liberdade da imaginação. Agora mesmo estou livre. E acima da liberdade, acima do certo vazio crio ondas musicais calmíssimas e repetidas. A loucura do invento livre. Quer ver comigo? Paisagem onde se passa essa música? ar, talos verdes, o mar estendido, silêncio de domingo de manhã.

Um homem fino de um pé só tem um grande olho transparente no meio da testa. Um ente feminino se aproxima engatinhando, diz com voz que parece vir de outro espaço, voz que soa não como a primeira voz mas em eco de uma voz primeira que não se ouviu. A voz é canhestra, eufórica e diz por força do hábito de vida anterior: quer tomar chá? E não espera resposta. Pega uma espiga delgada de trigo de ouro, e a põe entre as gengivas sem dentes e se afasta de gatinhas com os olhos abertos. Olhos imóveis como o nariz. É preciso mover toda a cabeça sem ossos para fitar um objeto. Mas que objeto? O homem fino enquanto isso adormeceu sobre o pé e adormeceu o olho sem no entanto fechá-lo. Adormecer o olho trata-se de não querer ver. Quando não vê, ele dorme. No olho silente se reflete a planície em arco-íris. O ar é de maravilha. As ondas musicais recomeçam. Alguém olha as unhas. Há um som que de longe faz: psiu! psiu!…

Mas o homem-do-pé-só nunca poderia imaginar que o estão chamando. Inicia-se um som de lado, como a flauta que sempre parece tocar de lado — inicia-se um som de lado que atravessa as ondas musicais sem tremor, e se repete tanto que termina por cavar com sua gota ininterrupta a rocha. É um som elevadíssimo e sem frisos. Um lamento alegre e pausado e agudo como o agudo não-estridente e doce de uma flauta. É a nota mais alta e feliz que uma vibração poderia dar. Nenhum homem da terra poderia ouvi-lo sem enlouquecer e começar a sorrir para sempre. Mas o homem de pé sobre o único pé — dorme reto. E o ser feminino estendido na praia não pensa. Um novo personagem atravessa a planície deserta e desaparece mancando. Ouve-se: psiu; psiu! E chama-se ninguém.

Acabou-se agora a cena que minha liberdade criou.

Até a próxima!

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