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A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues

Olá, leitor!

A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, é uma coletânea de contos escrita entre 1950 e 1961, no periódico diário Última Hora, no qual o autor tinha uma coluna com o mesmo nome que a antologia leva. Ao longo do tempo, diversos contos chegaram a ser adaptados para radionovelas, minisséries e peças de teatro, como aconteceu com a história Vestido de Noiva.

Na obra, Nelson Rodrigues expõe tudo que há de pior e mais angustiante na natureza do ser humano. Nenhum tema é tabu para ele; toda e qualquer relação de carinho ou amor é dissecada e trazida à luz, mostrando suas feições mais horríveis.

Levou o marido até a porta. Ainda esperou que ele, num adeus de dedos, dobrasse a esquina. E então, no seu quimono rosa, entrou no gabinete, trancou-se e ligou o telefone. Do outro lado, atende uma voz masculina. Lúcia ri, muito doce:

— Sou eu.

E a voz:

— Tu?

Começou assim o diálogo amorosíssimo. Súbito, ela se lembra do motivo do telefonema. Adverte:

— Olha: meu marido vai te convidar pra jantar com a gente hoje.

Ele interrompe:

— Não vou.

E a pequena:

— Vem, sim senhor! E não vem por quê? Que bobagem! Parece criança!

Mas Aristóbulos (era o Aristóbulos, amicíssimo do casal) parecia irredutível:

— Em absoluto! Aliás, já te disse umas quinhentas vezes que não quero ir à tua casa. Pra me aborrecer?

— Por que, criatura?

Explodiu:

— Ora, Lúcia! Você acha que é interessante pra mim ser testemunha das intimidades do teu marido contigo? Achas? Na última vez que estive aí, aquela besta te pôs no colo, fez misérias. Pra mim chegou. Pede outra coisa. Isso não! Tem paciência!

Tendo em vista o espaço limitado de que dispunha Rodrigues (apenas uma coluna diária no jornal), o desenvolvimento dos personagens era uma tarefa árdua, sendo preferível eliminá-los rapidamente em lugar de fazê-los passar por uma experiência transformadora, o que necessitaria de várias páginas e reviravoltas na trama. Assim, a morte era uma ferramenta para a redenção dos personagens, sendo chamada por Nelson de o “grande despertar do ser humano”.

Apesar de se classificar como um “reacionário”, inclusive apoiando a ditadura militar, Nelson Rodrigues está longe do que se pode chamar de conservador. Despindo-se de julgamentos morais, o autor entrega um mundo feio e sujo, muito diferente da visão ufanista que imperava na época. E, considerando a longevidade de suas publicações, bem como suas diversas adaptações e sua presença ainda viva na consciência coletiva do povo brasileiro, podemos dizer que os leitores partilhavam de suas visões.

 Às três e meia, ele estava no apartamento, fumando um cigarro atrás do outro. Às quatro, estava junto à porta, esperando. Ieda só apareceu às quatro e meia. Ela põe a bolsa em cima da mesa e vai explicando:

— Demorei porque meu marido se atrasou.

Menezes não entende: — Teu marido?, e ela:

— Ele veio me trazer e se atrasou. Meu filho, vamos que eu não posso ficar mais de meia hora. Meu marido está lá embaixo, esperando.

Assombrado, puxa a pequena: — Escuta aqui. Teu marido? Que negócio é esse?

Está lá embaixo! Diz pra mim: — teu marido sabe?. Ela começou:

— Desabotoa aqui nas costas. Meu marido sabe, sim. Desabotoa. Sabe, claro.

Desatinado, apertava a cabeça entre as mãos: — Não é possível! Não pode ser! Ou é piada tua?. Já impaciente, Ieda teve de levá-lo até a janela. Ele olha e vê, embaixo, obeso e careca, o pediatra.

Desesperado, Menezes gagueja: — Quer dizer que…. E, continua: Olha aqui. Acho melhor a gente desistir. Melhor, entende? Não convém. Assim não quero.

Então, aquela moça bonita, de seio farto, estende a mão:

— Dois mil cruzeiros. É quanto cobra o meu marido. Meu marido é quem trata dos preços. Dois mil cruzeiros.

Menezes desatou a chorar.

Resumo dos principais contos da obra

A Vida Como Ela É, Nelson Rodrigues

Fonte: Reprodução

Alguns contos merecem destaque, como, por exemplo, O Escravo Etíope. Essa história narra a vida de Margô, uma menina frágil que estava hesitante em relação a vários aspectos de seu casamento com Paulo, chegando a adiá-lo 2 vezes sem nenhum motivo aparente. Desconfiada, sua sogra contrata um investigador particular e descobre que a moça tinha um namorado, que desfilava no Carnaval fantasiado de escravo etíope. Na única atitude resoluta da personagem, Margô admite tudo quando confrontada pela família. Os namorados se casam então, em segredo, e o noivo continua seu hábito de sair vestido de escravo etíope no Carnaval.

Outro que podemos citar é O Monstro. Neste conto, Bezerra é acusado de assediar sua cunhada, de apenas 17 anos. Ele então é obrigado a deixar a casa e ameaçado de morte pelo pai da garota. Contudo, em uma conversa entre a menina e o patriarca, ela revela que sabia da existência de uma amante do pai, usando essa informação como moeda de troca para manter Bezerra na casa.

Em Noiva da Morte, somos apresentados a Alipinho, um rapaz de modos delicados e muito protegido pela mãe. O pai, em seu leito de morte, incumbe o médico, Dr. Bezerra, de achar uma noiva para o filho, apesar dos protestos da mãe. Encontrando a moça, a família marca a data do matrimônio. Três dias antes da festa, Alipinho resolve buscar, sem o conhecimento da família, o vestido. Após um cuidadoso ritual, o veste e se enforca.

Temos, ainda, O Sacrilégio. Neste conto, vemos Dina, que não se entende com a sogra. Isso se agrava após o casamento, quando a matriarca vai morar com o casal. Assim, a relação entre Dina e o marido deteriora-se, o que só melhora quando a mãe dele morre e o homem passa a perceber sua esposa como mulher.

Em Uma Senhora Honesta, Luci é uma mulher cuja rotina resumia-se a ouvir radionovelas, espionar a vida das vizinhas e discutir com seu marido, Valverde. Por ser muito bonita, Luci chamava atenção por onde passava, conquistando assim um suposto admirador secreto. Cobrando uma atitude do marido, ela pede que ele mate o tal admirador. É então que Valverde revela que era o admirador, mandando presentes para a mulher pois finalmente ela fora gentil com ele. Ainda fala que Luci estava livre para ter quantos amantes quisesse, caso o tratasse com paixão.

O conto Cemitério de Bonecas começa com o velório do Dr. Basílio, que ocorre no Educandário Municipal. Durante a cerimônia, ouvem-se gritos e encontra-se uma das internas com uma terrível hemorragia, acusando o morto da agressão. Depois do velório, outra aluna também fala contra o Dr. Basílio. Em pouco tempo, diversas meninas juntam-se às duas primeiras. O Dr. Basílio havia engravidado todas as moças e forçado-as a abortarem, enterrando os corpos no quintal do educandário.

No conto O gato Cego, Bebeto se torna, por exigência de seu pai, Dr. Sinval, um psiquiatra. Mas sempre deixou claro que preferia ter se formado em veterinária. Um dia, Bebeto apareceu em casa com um gatinho cego, do qual cuidou com todo o carinho por horas a fio. No consultório, sua primeira cliente é uma mulher rica e loira, que confessa ter cegado um gato de rua com a brasa de seu cigarro. Demonstrando curiosidade, o médico pede para analisar o cigarro da moça. Mas tudo não passava de uma desculpa para revidar o que ela tinha feito ao animal. Atraída pelos gritos da mulher, a polícia invade o escritório, onde Bebeto espera calmamente para ser preso e internado.

A esposa soluçou no telefone:

— Vem depressa! Chispando! Vem!

Não perdeu tempo. Berrou para o sócio: “Agüenta a mão, que eu não sei se volto”. Acabou de enfiar o paletó no elevador. E quebrava a cabeça, em conjeturas infinitas: “Que será?”. Não quisera perguntar a Flávia com medo de uma notícia trágica.

Já no táxi calculava: “Algum bode!”. Mas a hipótese mais persuasiva era a de uma morte na família da mulher.

O sogro sofria do coração e não era nada improvável que tivesse sobrevindo, afinal, o colapso prometido pelo médico. Imaginou a morte do velho. E a verdade é que não conseguiu evitar um sentimento de satisfação envergonhada e cruel.

Desceu na porta de casa tão atribulado que deu ao chofer uma nota de duzentos cruzeiros e nem se lembrou do troco. Invadiu aquela casa grande da Tijuca, onde morava com a mulher, os sogros, três cunhadas casadas e uma solteira. Desde logo,  percebeu que não havia hipótese de morte. A inexistência de qualquer alarido feminino, numa casa de tantas mulheres, era sintomática. Descontente, fez o comentário interior: “Ora bolas!”.

Foi encontrar, porém, a esposa no quarto, num desses prantos indescritíveis.

Sentou-se, a seu lado, tomou entre as suas as mãos da mulher: “Mas que foi? Que foi?”.

Primeiro, ela se assoou; e, então, fungando muito, largou a bomba:

— Meu filho, nós temos um tarado, aqui, em casa!

Maneco empalideceu. Por um momento, teve a suspeita de que o “tarado” fosse ele mesmo, Maneco. Chegou a pensar: “Bonito! Descobriu alguma bandalheira minha!”.

Engoliu em seco, balbuciou: “Mas quem?”. E ela:

— O Bezerra!…

Breve análise geral da obra

A coletânea de contos tem, ao todo, cerca de 100 histórias publicadas por Nelson Rodrigues entre 1950 e 1961, no jornal Última Hora. Por serem lançadas em um jornal, no qual os leitores não procuravam escapismo da realidade cruel, os contos expõem as mais variadas misérias e falhas do ser humano. Nelson chega a usar humor negro para intensificar suas tragédias.

Rodrigues não é afeito a floreios desnecessários, por isso sua escrita é simples, falando diretamente ao leitor que busca as informações em sua forma mais crua e primária. Por serem publicadas diariamente, as histórias trazem elementos que se repetem, como a ideia de pecado, luxúria, traição e a oposição entre moral e desejo.

Por vezes encontramos, em sua coluna, contos reescritos, em uma tentativa constante de aprimoramento. Ao organizar o livro, o editor de Nelson na época, Samuel Wainer, deixou diversas versões da mesma história, uma seguida da outra, com o intuito de mostrar ao leitor a evolução do autor e da relação dele com os temas de sua obra.

Os personagens de Nelson Rodrigues

Todos os personagens sofrem de algum desvio de caráter ou de transtornos psicológicos. Contudo, um contraponto interessante é que eles desdenham da mesma psicologia que os diagnostica com tais distúrbios. Nelson parece fazer isso em uma tentativa de colocar seus personagens em diversos conflitos sem, no entanto, deixá-los confrontarem-se com suas próprias angústias.

Durante a antologia, as lutas são sempre com o outro: obsessão, homicídio, traição. Nos únicos momentos em que os personagens olham para dentro de si, o desfecho costuma ser trágico, como um crime ou um suicídio.

A partir de então, quando estava em casa, ele não fazia outra coisa senão espiar, espreitar a fealdade da esposa. Uma coisa o espantava e amargurava: “Eu estava cego, completamente cego!”. Olhava agora Jacira e se saturava de sua falta de graça e de feminilidade. Por outro lado, começava a experimentar uma irritação doentia e contínua. Um dia, em que Jacira estava particularmente desinteressante, fez uma pergunta perversa:

— Será que uma mulher feia não desconfia da própria fealdade?

A outra não percebeu a sugestão. Coçando a cabeça com um grampo, ria:

— Que nada! Pergunta a um bucho se ele é bucho, pergunta.

Durante dois ou três segundos, quase Herivelto a interpela: “E tu?”. Conteve-se, porém. Mas sua ilusão se extinguira até o último vestígio. Sabia, agora, que sua mulher, a mulher com quem se casara para sempre, era feia, excepcionalmente feia, feia de uma maneira constrangedora, intolerável. Começou a ter resistências com Jacira, uma espécie de alergia, de incompatibilidade física tremenda. Precisava desabafar com alguém. Correu à própria mãe:

— Mamãe, eu estava bêbado, completamente bêbado, quando casei!

Fora de si, apertando a cabeça entre as mãos, gemia: “Feia demais!”. E repetia: “Demais!”. Certos deveres ou hábitos de marido já o enfureciam. Por exemplo: ao sair para o trabalho e ao voltar acostumara-se a beijar a mulher na boca. E se, agora, simulava um engano, uma distração, e roçava os lábios na face de Jacira, esta fazia a reclamação amorosa: “Na boca, meu filho, na boca!”.

Até a próxima!

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