Você está aqui:Home » Dicas » Estudantes » A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade

Olá, leitor!

O livro A Rosa do Povo foi publicado em 1945 e é aclamado em inúmeros setores da crítica literária como a melhor obra de Drummond, ele é o maior poeta da Literatura Brasileira e considerado um dos três mais importantes da língua portuguesa. Antes de falar sobre o livro é necessária uma recapitulação das principais características do estilo desse grande escritor mineiro.

Desde seu batismo em fogo em 1928, com a publicação do livro célebre “No Meio do Caminho”, em uma revista de antropofagia, Carlos Drummond ficou conhecido como, o poeta da pedra. Um apelido que era para ser pejorativo, mas que Drummond encarou com alegria, ele assume esse apelido, que se torna um dos símbolos de seu fazer literário.

A dureza e frieza da pedra marcam a poesia de Carlos Drummond Andrade, pois ela é dotada de uma afetividade contida e não de uma insensibilidade como alguns o viam na época.

Torna-se, portanto, um dos principais pilares da poesia moderna, afastando o melodrama e as emoções exacerbadas e exageradas do lugar nobre de nossa literatura, junto a Drummond no estilo da escrita estava João Cabral e Bandeira.

“A rosa do povo despetala-se,

ou ainda conserva o pudor da alva?

E um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço?

Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.

Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,

e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,

o poeta, nas trevas, anunciou.”

Importância da obra

A Rosa do Povo

Fonte Reprodução

Dessa forma, sempre mostrando o eu lírico com discrição ao refletir acerca do seu mundo, sentindo todos os sentimentos provindos da sociedade, tecendo críticas a todos, até mesmo aos seus círculos sociais de convívio, através de versos irônicos ou até mesmo carregados com uma pitada de humor negro, Carlos uni um lirismo único junto a críticas sociais de uma forma como só ele sabe fazer.

As figuras de linguagens são muito comuns dentro da obra de Carlos Drummond de Andrade, por isso, A Rosa do Povo não fica atrás em trazer um eu-lírico poético sagaz em tecer versos e rimas de forma sublime, com figuras de linguagens e jogos de palavras excepcionais. Alguns dos seus poemas, deste livro, chegam a ser tão bonitos em relação a poesia e elementos poéticos utilizados em sua composição que, facilmente, esquece-se que eles possuem um cunho de crítica social.

Esse estilo de utilização de figuras de linguagem, dão outras interpretações e sentido aos seus poemas, sendo que alguns podem ser considerados duais, apresentando-se mais de uma temática ou então apresentando-se como poemas sem sentido. Mas não acredite nisso, é proposital, saiba que todos os poemas da obra carregam consigo uma mensagem, por mais escondida que ela possa estar.

Esse estilo estético bem trabalhado , mesmo quando não há preocupação com a forma ou a estética do poema, não está apenas na linguagem, nas rimas, nas métricas ou nas formas, pois, em muitas vezes, tais parâmetros não existem, porque elementos considerados óbvios para a poesia nem sempre são utilizados pelos poetas. Isso porque a forma como Drummond escreve está ligada diretamente com os acontecimentos do mundo naquela época, fazendo com que o próprio autor possa ser identificado na forma do poema, mostrando-se ele como um deslocado e a sua relação com o mundo, assim, ele também coloca seus poemas de uma forma deslocada com o mundo.

Esse sentimento de não-pertencimento ao mundo em que vivia, para ser mais específico, na cidade grande, pode ser simplesmente explicado pela origem desse poeta: um homem de origem rural, um filho de fazendeiros, que se encontra de repente no meio urbano, o que faz com que ele passe por uma mudança de plano e afete significativamente sua produção poética.

ONTEM

“Até hoje perplexo

ante o que murchou

e não eram pétalas.

De como este banco

não reteve forma,

cor ou lembrança.

Nem esta árvore

balança o galho

que balançava

 

Tudo foi breve

e definitivo.

Eis está gravado

não no ar, em mim,

que por minha vez

escrevo, dissipo.”

Compreendendo a obra

Para compreender melhor essa obra é importante lembrar a data de sua publicação, 1945. Essa foi uma época marcada por muitas crises fenomenais, como por exemplo, a Segunda Guerra Mundial e aqui no Brasil mais especificamente, a Ditadura Vargas. Drummond mostra ser uma antena poderosa que capta os sentimentos, a agonia e as dores de sua época. Basta ler “A Flor e a Náusea”, uma preciosidade presente na obra.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira (MG), estudou no colégio interno em Belo Horizonte, até voltar a Itabira por motivos de doença. Ele acabou voltando ao internato, mas no Rio de Janeiro, ele acabou sendo expulso anos mais tarde. Conseguiu sua formação em São Paulo no curso de farmácia, profissão que ele nunca exerceu. Foi como redator do “O Diário de Minas” que entrou em contato com os modernistas paulistas. No ano de 1934 Drummond entra para o funcionamento público e volta ao Rio de Janeiro, até que em agosto de 1987, ele faleceu, apenas doze dias após o falecimento de sua filha.

Seria impossível analisar suas características partindo de um único estilo, devido ao grande número de composições. De acontecimentos banais, paisagens, gestos simples e corriqueiros Drummond conseguem extrair  poesia.

Grande parte dos poemas de Carlos Drummond Andrade funcionou como denúncia de opressão (Ditadura) e pela violência que marcou a Segunda Guerra Mundial surge uma literatura com forte engajamento social. Estando consciente de estar vivendo um grande marco histórico produz uma indignação e indagação filosófica sobre o real sentido da vida, o existencialismo.

Suas obras eram muito saudosistas de sua terra natal e infância, após sua analise sobre sua experiência individual, da convivência com os demais, ele passa a refletir sobre a existência humana e sobre Deus. Drummond deixou uma vasta produção com mais de trinta publicações reunindo crônicas, contas e poesias, dentre elas deve se destacar, “ Algumas Poesias, A Rosa do Povo, contos de aprendizes e Amar de Aprende Amando.

FRAGILIDADE

“Este verso, apenas um arabesco

em torno do elemento essencial—inatingível.

Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,

e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,

ai!já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades

de sono se depositam sobre a terra esfacelada.

Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe

subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música

feita de depurações e depurações, a delicada modelagem

de um cristal de mil suspiros límpidos e frigidos: não mais

que um arabesco, apenas um arabesco

abraça as coisas, sem reduzi-las.”

A Rosa do Povo e seu contexto histórico

O contexto histórico para a produção do livro A Rosa do Povo: os poemas deste livro foram escritos entre 1943 e 1945, período correspondente aos horrores da guerra, tudo por conta das ditaduras de Hitler (NAZISMO) e Mussolini (FASCISMO) e do retalhamento dos países aliados.  Durante esse período, a União Soviética apertava o cerco contras a tropas do Nazismo e a grande maioria das tropas alemãs já havia sido desbaratada no leste europeu. Por conta disso, o mundo ficava comovido com a ação heróica dos comunistas russos, e o confronto político entre o “Comunismo e o Capitalismo” que já se forma desde 1917, então, parte dos intelectuais ocidentais tiveram uma visão com relação ao povo russo e também ao povo comunista.

No Brasil, no período entre 1937 e 1945, o país assistiu ao “Estado Livre” que nada mais foi do que a Ditadura de Getúlio Vargas que já havia sido um governo provisório entre 1930 e 1934, nesse período foi criada a terceira Constituição do Brasil, que apresentava propostas como a jornada de oito horas trabalhadas diariamente, salário mínimo, voto feminino, voto secreto e etc.

Entre 1934 e 1937, Getúlio Vargas governa o país em uma fase Constitucional. Nesse mesmo período surge o Nazismo e o Fascismo e em 1937 com a consciência de que não venceria as eleições, Vargas decreta o “Plano Cohen”, que implantou a ditadura como proteção contra regimes supracitados.  No ano de 1939, começa a Segunda Guerra Mundial, nesse período o Brasil é pressionado pelos EUA a entrar na guerra apoiando os “Países Aliados”, sofreria sanções econômicas, caso não participasse, por contas dessas ações contraditórias, Vargas perde o apoio dos intelectuais, que dele havia recebido altos cargos públicos em troca de apoio.

NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO

“Um sabiá

na palmeira, longe.

Estas aves cantam

um outro canto.

O céu cintila

sobre flores úmidas.

Vozes na mata,

e o maior amor.

Só, na noite,

seria feliz:

um sabiá,

na palmeira, longe.

Onde é tudo belo

e fantástico,

só, na noite,

seria feliz.

(Um sabiá,

na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e

voltar

para onde é tudo belo

e fantástico:

a palmeira, o sabiá,

o longe.”

Análise da obra

A Rosa do Povo, é uma das principais obra do escritor Carlos Drummond de Andrade, sendo considerada um dos melhores livros dentro da produção poética desse autor devido toda a maturidade literária que a obra reflete, mostrando também o caminho de maturação poética do próprio autor ao decorrer dos seus anos de poesia.

Nessa obra, é impressionante o crescente avanço e maturidade artística do autor em suas técnicas formais de construção poética, sendo ele responsável por difundir duas grandes conquistas literárias na escolas artísticas brasileiras nesse período, ambas técnicas presentes nesta obra, então, pode-se dizer que com esse livro ele inaugura esses dois quesitos, que são: a poesia metapoética, que se refere a uma reflexão introspectiva do eu-lírico poético, englobando todo o sentido da escrita, falando sobre metalinguagem e a própria função da arte no mundo; e o realismo social, que se refere a temática engajada nos conflitos sociais da época utilizando-se do lirismo para tecer críticas, levar a reflexão ou apenas observar e retratar situações da sociedade da época em que a obra fora escrita.

Esse é o livro mais variado e extenso do poeta Carlos Drummond de Andrade, com 55 poemas, sendo alguns bem longos. É possível identificar e apontar um tem acentral para essa obra, pois, neste livro, existem vários temas, sendo mais fácil identificar a composição da forma literária como ele escreve, pois a obra apresenta-se cheia de versos livres e e irregulares, com estrofes despreocupados com a métrica tradicional da poesia parnasiana, contudo, também existe versos ritmados, metrificados e com ótimas rimas, enfim, uma mistura que reflete a pluralidade poética desse autor.

O seu estilo poética nesta obra é considerado ora “mesclado”, pois mistura um lirismo elevado, mesmo apresentando-se com certa vulgaridade em alguns momentos, passando por sentimentos grosseiros e sérios, e considerada ora pura e de um eu-lírico extremamente poético, com figuras de linguagens e passagens poéticas carregadas da mais bela poesia. É considerado um livro difícil, porém, muito elogiado e apreciado, chegando até mesmo a ser considerado um dos mais estudados e discutidos livros de poemas brasileiros, sendo considerado também, uma obra de linguagem poética, porém, com participação social e críticas a sociedade da época.

Os poemas que compões o livro A Rosa do Povo foram todos escritos nos anos sombrios do período em que acontecia a Segunda Guerra Mundial, como também, do período da Ditadura Vargas no Brasil. Sem dúvidas, tas acontecimentos foram essenciais para a composição da obra, pois eles provocaram e inspiraram Carlos a refletir os tempos sombrios em sua poesia, através do grotesco e dos horrores da guerra, ao mesmo tempo em que se mistura com as ideologias revolucionárias anticapitalistas, somadas às ideias socialistas, fazendo assim que essa obra se torna-se uma obra única e singular, repleta de críticas com poemas de revolta e indignação através de um lirismo sublime.

Referente a temática, como dito acima, não existe uma central, por isso a obra aborda diversas questões, dentre elas, destacam-se: a indagação do eu-poética e sua finalidade de estar no mundo, os conceitos de família e sociedade, como também, fala muito sobre o amor, ora de forma linda ora de forma destruidora,  e fala sobre o tempo e a velhice, a vida e a morte e, por último, sobre a metapoesia e o sentido da arte, ou seja, a função da poesia no mundo. A Rosa do povo testemunha sua reação ante a dor coletiva e a miséria instalada pela guerra do mundo moderno, com seu mecanismo, sua falta de humanidade e seu materialismo.

Essa fase fortaleceu sua essencialidade lírica e emocional, o que se trona evidente ao analisarmos a sua obra, pois através dessas reflexões acerca do mundo, o poeta conseguiu atingir a sua plenitude lírica e, assim, alcançou a mais profunda consciência poética e artística, fazendo com que sua escrita trespasse toda essa sua humanização através de versos suaves e tenros. Nosso poeta de Itabuna, mineirinho cheio de lirismo e sensibilidade, busca em seus antepassados provincianos e a simplicidade da vida no campo e de uma sociedade antiga que aos poucos vai se perdendo, para assim comparar sociedade atual e a antepassada com a finalidade de compreender as mudanças do mundo, da sociedade e de si mesmo, com a intenção de entender como funciona “a máquina do mundo”, título de um dos mais sublimes poemas de língua portuguesa,  como também, comprar as angústias vividas pelas pessoas dos tempos antigos e dos tempos atuais em que a obra foi escrita, sem perder a graciosidade de uma melancolia saudosista repleta de fraternidade e sentimentalismo esplendoroso.

Sentimentos de dualidade

É predominante no conjunto de poemas uma dualidade, por um lado é possível perceber uma visão desencantada e triste da vida e por outro lado é necessária uma participação política na vida.

O uso constante da metalinguagem

A poesia sobre a própria poesia, isso chamamos de poesia metalinguística, aparece o tempo todo em A Rosa do Povo. Mas, o livro também remete em muitos momentos aos tempos passados de romantismo e melhor organização do mundo.

ANUNCIO DA ROSA

“Imenso trabalho nos custa a flor.

Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.

Primavera não há mais doce, rosa tão meiga

onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,

sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,

ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,

todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.

Vede o caule,

traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?

Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido

que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,

pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio

Vinde, vinde,

olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,

não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.

Injusto padecer exílio, pequenas eólicas cotidianas,

oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,

rosa na máquina,

apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,

Pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs

[na noite,

e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.

Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última

rosa desfolha-se.”

Até logo!

Deixe um comentário

© 2012-2018 Canal do Ensino | Guia de Educação

Voltar para o topo