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Resumo de livro: A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

Olá, leitor(a)!

A Hora da Estrela foi publicado em 1977, o último romance de Clarice Lispector e uma primeira tentativa de escrita mais extrovertida, ou seja, mais voltada para os acontecimentos exteriores.

A obra pertence à terceira geração do modernismo brasileiro, destacando-se devido aos recursos literários característicos de Clarice Lispector, como, por exemplo, a utilização do fluxo de consciência, grandes reflexões acerca da vida e do universo feminino e, no quesito originalidade, a criação de um escritor fictício.

Para alguns, embora A Hora da Estrela possua maior distanciamento narrativo por parte da autora, a obra possui aspectos autoficcionais. Essa leitura se baseia na maneira como a história trata a questão da morte, visto que Clarice já estava lutando contra o câncer enquanto a escrevia, portanto, previa (ou pensava muito sobre) a própria morte – que ocorreu poucos meses após a publicação do livro.

A escritora de origem ucraniana mantém, nesta obra, sua singular capacidade de escrita e aprofundamento na psique humana. Um bom exemplo disso é a criação de um autor fictício, que serve de arauto da própria autora ao falar sobre o incômodo diante da morte e de todos os problemas que enfrentou em sua vida.

Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.

Resumo da obra

A Hora da Estrela, Clarice Lispector

Fonte: Canal do Ensino

O enredo inicia com reflexões e planos do personagem Rodrigo S.M., autor e narrador fictício que Clarice Lispector criou para relatar a história de A Hora da Estrela. Questionando-se sobre sua escrita, o que narraria, nome da personagem e afins, o narrador-personagem vai nos contando, pouco a pouco e com intercorrências para falar de si mesmo, a vida de uma imigrante nordestina.

E é dessa maneira que nos é apresentada a história de Macabéa, uma jovem alagoana de 19 anos que mora no Rio de janeiro. Tendo perdido os pais ainda menina, guardando assim pouca ou nenhuma memória deles, a órfã  foi criada por uma tia muito religiosa e moralista, carregada de muitos tabus e superstições, que foram sendo embutidos na sobrinha.

Macabéa foi criada na carência absoluta dos meios de subsistência e afeto. Sem nenhuma razão, senão o exercício da autoridade e certo prazer, a tia vivia dando cascudos na sobrinha e a impedindo de comer goiabada com queijo na sobremesa, a grande paixão da jovem.

Depois de uma infância miserável, triste e solitária, a jovem se muda com a tia para o Rio de Janeiro, faz um curso de datilografia (ainda que soubesse ler e escrever bem pouco) e começa a trabalhar recebendo menos de um salário mínimo.

Pouco tempo após se mudarem para o Rio, a tia falece, deixando a sobrinha sem nenhum parente. A jovem, então, para de ir à igreja e passa a dividir um quarto de pensão com quatro balconistas de uma loja popular. Macabéa mal se alimentava e, antes de dormir, tomava café e comia pedaços de papel para enganar a fome – uma das razões que faziam com que ela não dormisse bem, já que sentia muita azia e tinha acessos de tosse.

Para aliviar um pouco o vazio e a solidão que sentia da própria existência, a jovem nordestina tinha alguns hábitos como escutar a Rádio Relógio, um aparelho que emprestava de uma colega de quarto, e ir ao cinema, quando recebia seu salário – ela sonhava em ser uma estrela como Marilyn Monroe.

Um dia, para faltar ao trabalhoMacabéa inventa que precisa extrair um dente e ao se ver sozinha na pensão, depois de as colegas saírem para trabalhar, aproveita para escutar música alta, dançar, tomar café solúvel e se dar ao luxo de ficar entediada.

Com uma felicidade que causa desconfiança no próprio narrador, Macabéa declara aquele 7 de maio como o melhor dia de sua vida e, ainda na mesma data, acaba conhecendo o metalúrgico Olímpico de Jesus, o seu primeiro e único namorado, que fugiu do nordeste após ter matado um homem.

Olímpico era ambicioso, sonhava com carreira pública e tinha certo dom para o discurso. Macabéa sempre tinha muitas perguntas e dificuldade de se fazer entendida, o que aborrecia o namorado. Ele não sabia responder, mas para não se passar por ignorante brigava com a namorada, que vivia apenas se desculpando. Era um casal pouco convencional, tendo o próprio narrador observado que mais pareciam irmãos que namorados.

Ele: — Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!

Ela: — Falar então de quê?

Ele: — Por exemplo, de você.

Ela: — Eu?!

Ele: — Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.

Ela: — Desculpe mas eu não acho que sou muito gente.

Ele: — Mas todo mundo é gente, Meu Deus!

Ela: — É que eu não me habituei.

Certo dia, Olímpico conhece Glória, colega de trabalho de Macabéa, e rompe com a namorada para ficar com elaGlória era uma mulher loira, corpo bonito, fazia três refeições por dia e morava em uma casa confortável. Além disso, o pai dela era açougueiro, uma profissão que Olímpico ambicionava, namorá-la era muito mais vantajoso.

A culpa por ter roubado o namorado da colega, faz com que Glória convide Macabéa para lanchar em sua casa. Não tendo nunca tido a oportunidade de comer tanto, Macabéa aproveita tudo o que é possível e come exageradamente. No dia seguinte, a jovem nordestina passa muito mal, sente vontade de vomitar, mas se recusa, não queria desperdiçar as coisas boas que comeu.

Poucos dias depois, após receber seu salário, segue a recomendação da colega de trabalho e consulta um médico. A jovem descobre que está com tuberculose, mas sem compreender a gravidade da doença e sentindo-se bem apenas por ir ao médico, negligência as recomendações do profissional e não compra o remédio receitado.

Após uma cena romântica de despedida entre Olímpico e Glória, a colega sente remorso e oferece dinheiro emprestado para que Macabéa vá consultar uma cartomante. Aceitando a oferta, a alagoana se dirige ao local indicado e é recebida pela própria Madame Carlota, que deixa a moça muito impressionada com a amabilidade da cartomante e o requinte da residência.

Madame Carlota, após contar de quando foi prostituta e cafetina, realiza a leitura das cartas para Macabéa e enxerga um excelente futuro. Segundo a cartomante, a jovem iria se casar com um estrangeiro rico que a amaria muito.

Inebriada com as palavras da cartomante, Macabéa vai embora muito feliz e sonhando com as previsões feitas pela mulher, então, atravessa a rua e é atropelada por um Mercedes-Benz.

O motorista não presta socorro, sai em fuga, e, pouco a pouco, uma multidão se aglomera também sem oferecer nenhum cuidado. Estão ali apenas testemunhado, por curiosidade, o fim de alguém. Assim, Macabéa morre tão solitária como sempre esteve, abraçando-se a si mesma.

Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta. Resposta esta que alguém no mundo me dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para nós todos.

Estrutura da obra

A Hora da Estrela é um livro com cerca de 90 páginas, em suas mais diversas edições, sendo dividido em uma longa Dedicatória do autor (na verdade, Clarice Lispector) e mais sete capítulos destinados a contar a história de Macabéa, por intermédio do narrador Rodrigo S.M..

Outro aspecto da estrutura do romance, que faz com que a estilística experimental da autora continue marcada, está na atribuição de 13 títulos a seu livro que, como na Dedicatória, se relaciona com a história que será relatada, trazendo significado para muitas coisas que acontecerão com a protagonista.

O romance pode ser dividido também em três histórias, apresentadas em diferentes campos da narrativa: o mergulho psicológico nos personagens; as divagações do narrador-personagem sobre questões existenciais; e a história de Macabéa.

Tempo e espaço

A protagonista nasceu no estado de Alagoas, mas todo o enredo da história é desenvolvido no Rio de Janeiro. Faz-se necessário ressaltar, contudo, que a obra apresenta mais de uma narrativa, revelando, assim, outro espaço: o interno.

Com relação ao tempo, se pensamos do ponto de vista da narrativa principal, é possível classificá-lo como cronológico, visto que acompanhamos o transcorrer linear da vida de Macabéa. Agora, considerando as inúmeras intervenções do narrador a respeito de si mesmo e suas convicções, o tempo marcado é o psicológico.

Foco narrativo, narrador e linguagem

Ao criar um narrador fictício, Clarice Lispector complexifica a definição do foco narrativo. Rodrigo S.M. não só relata a história que está criando como, em muitos momentos, participa dela.

Dessa maneira, o foco narrativo oscila entre primeira pessoa (quando o narrador opina sobre as personagens e faz digressões sobre a própria vida e afins) e terceira pessoa (quando ele conta a história de Macabéa).

A exposição do narrador-personagem pode ser categorizada em três aspectos diferentes:

Metanarrativa

O termo metanarrativa diz respeito à narrativa (ficção) contada dentro da própria narrativa (ficção). Podemos observar, então, que isso ocorre quando Rodrigo S.M., narrador e personagem de A Hora da Estrela, cria e narra a história principal da obra: a vida de Macabéa.

Narrativa secundária

A partir de inúmeras digressões feitas por Rodrigo S.M., sua história nos é contada sutilmente no decorrer da obra, ocasionando, assim, uma segunda narrativa.

Narrativa mesclada

Combinar tipos de narrador (narrador-personagem, narrador-observador e narrador-onisciente) em uma mesma história é o que chamamos narrativa mesclada. Como pudemos acompanhar até aqui, esse tipo de narrativa está presente em A Hora da Estrela, visto que Rodrigo S.M. se desloca entre um tipo de narrador e outro.

Além disso, se consideramos uma das leituras mencionadas no início deste resumo, que defende a ideia de que a obra clariciana apresenta características e anseios da própria autora, podemos intuir que Clarice também ocupa a posição de narradora – um bom exemplo disso é a Dedicatória de abertura do livro.

Em outras palavras, além das duas histórias que estão sendo contadas, em uma narrativa principal (a de Macabéa) e outra secundária (a de Rodrigo S.M.), existe também a história de Clarice. Ela narra a história de Rodrigo S.M., que por sua vez narra a história de Macabéa, e atribui aos dois suas reflexões, medos e angústias.

Personagens da obra

Do ponto de vista da história central, contada por Rodrigo S.M., os personagens apresentados são: Macabéa (protagonista), Olímpico de Jesus (namorado), Glória (colega de trabalho), Raimundo Silveira (chefe) e Madama Carlota (cartomante).

Entretanto, considerando a narrativa principal e a narrativa secundária, os personagens principais da obra são:

Macabéa

A protagonista da história contada pelo escritor fictício é uma jovem alagoana, de 19 anos, que foi criada pela tia, uma beata alienada e maldosa. De certa forma, a educação que a tia dá a Macabéa acaba sentenciando a ignorância da sobrinha, que além de alienada, torna-se uma pessoa triste, reprimida e muito ingênua.

Pouco tempo após se mudarem para o Rio de Janeiro, a tia morre, deixando Macabéa sozinha no mundo. A jovem, que mal se alimenta, sonha em ser estrela de cinema, ilude-se com as propagandas que ouve no rádio, mas não têm ambição e confiança para tentar realizar nada do que deseja.

Rodrigo S.M.

O escritor inventado por Clarice Lispector ocupa o lugar de narrador e personagem da obra e serve como uma espécie de consciência de Macabéa, incapaz de pensar por si mesma. É interessante observar que ele não só expõe todos os sentimentos dela, e tenta analisar a personagem em vários aspectos, como se compadece deles.

Com um papel fundamental na narrativa, visto que o personagem é responsável por mediar as divisões visíveis e invisíveis da obra, Rodrigo S.M. busca refletir profundamente questões inerentes ao ser humano, como vida e morte, e interrompe a história de Macabéa com divagações que revelam seus próprios medos e angústias.

Relevância da obra

A Hora da Estrela aborda questões estéticas acerca da literatura, ao colocar o narrador constantemente refletindo sobre a finalidade da palavra; questões sociais, ao tratar as dificuldades da vida de pessoas à margem da sociedade, bem como a dificuldade que o homem possui em se comunicar com ou outros e consigo mesmo; e questões filosóficas, ao refletir sobre o sentido de vida, a identidade, o propósito.

Por esses motivos, além da singularidade da escrita (moderna e carregada de poesias e reflexões) de Clarice Lispector, que A Hora da Estrela é um dos mais importantes livros da terceira fase modernista.

E agora — agora só me resta acender um cigarro e ir para casa.

Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre.

Mas — mas eu também?!

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim.

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Boa leitura e até breve!

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